Uma boa ideia é a única coisa que precisa para escrever. Carlos Campaniço, a quem a LeYa abre portas há duas publicações consecutivas, começa a ter uma voz conceituada na recente literatura escrita em português. Desde o lançamento do seu último livro, Mal Nascer (abril de 2014), romance finalista do prémio LeYa 2013, Carlos Campaniço tem vindo a merecer atenção crescente por parte da crítica literária e do público. Nasceu em 1973 em Safara, freguesia do concelho de Moura com pouco mais de 1000 habitantes e à qual o autor atribui toda a importância e inspiração que a sua obra lhe merece. É Mestre em Culturas Árabe e Islâmica e o Mediterrâneo pela Universidade do Algarve, onde também concluiu o Curso de Licenciatura em Estudos Portugueses – Línguas e Literaturas Modernas. Embora o seu coração pertença à planície alentejana safarense, é no Algarve que reside e desempenha a função de Diretor de Programação do Auditório Municipal de Olhão. Os seus livros podem ser comprados em qualquer livraria do país. Aqui Carlos Campaniço está Entre Vistas.


José Saramago disse um dia que «(…) as datas são importantes, na medida em que representam pontos de passagem mais importantes do que o dia anterior ou o dia seguinte». Qual a importância da data de lançamento do seu primeiro romance, Molinos (2007)?

Quando em 2007 recebi o livro em casa, acabado de ser impresso, pareceu-me mentira. Era um sonho de muitos, muitos anos acabado de realizar. Adoro quando toco pela primeira vez num dos meus livros, mas não voltei a ter a mesma sensação de deslumbramento total. O lançamento de Molinos foi uma data inolvidável. Foi o princípio de uma coisa bonita.

Os seus dois últimos romances, Mal Nascer (2014) e Os Demónios de Álvaro Cobra (2013), ambos editados pela LeYa, são alvo de uma atenção crescente, quer por parte da crítica literária, quer por parte do público. O sucesso dos dois títulos terá contribuído para que o mais recente número da revista da Bertrand, Somos Livros, tenha considerado Carlos Campaniço um dos autores da Geração de Ouro. Como é que se chega a este patamar?    

Fico muito contente por gostarem dos livros que escrevo – não por vaidade, mas pelo conforto de saber que o tempo investido na literatura fora bem empregue. Quem não fica satisfeito com esse epíteto, mormente vindo do Miguel Real? A crítica positiva é momentaneamente estimulante, porém, quero fazer coisas sérias e essas não se compadecem com estados contemplativos, mas com muito trabalho.

Ter passado da Pé de Página Editora (Coimbra) e da Gente Singular Editora (Algarve) para uma editora de abrangência nacional, como a LeYa, também contribuiu para todo este reconhecimento? Como olha para o meio editorial?  

Ao contrário do que se previa, são os grandes grupos editoriais, como a LeYa, que melhor protegem os autores. Asseguram-lhes editores de elevadíssima qualidade, distribuição dos livros, divulgação dos mesmos, etc., e ainda ressarcem os autores na medida do acordado, sem falhas. As pequenas editoras têm muita dificuldade em competir com estas grandes máquinas, acabando por não distribuir os livros e não divulgar os autores da melhor forma, por exemplo. Há agora algumas editoras parasitas, que fazem pagar a edição aos autores com o logro que é para cobrir o risco repartido. Depois, sempre se levantou a questão da proximidade das pequenas editoras relativamente aos autores, em contraponto com as grandes editoras, pelo facto de terem mais autores. É também um mito. Na LeYa sinto-me muito acarinhado. Estou muito próximo da minha editora, Maria do Rosário Pedreira, que está sempre disponível.

Os seus três primeiros livros foram editados em três anos consecutivos (2007, 2008 e 2009). Entretanto lançou os seus últimos dois romances em 2013 e 2014. O próximo está previsto para 2015?  

Creio que não. Acabá-lo-ei no início de 2015, mas talvez só seja dado à estampa no ano seguinte. Seja como for, será uma decisão que caberá mais à editora.

A partir do momento em que um escritor, como Carlos Campaniço, começa a escrever livros de forma mais regular, e a vendê-los, passa a olhar para a escrita como uma obrigação? Um ofício? Ou continua a vivê-la como uma atividade totalmente vocacional? 

Hum… É isso tudo. É uma obrigação do prazer, mas por enquanto é uma atividade totalmente vocacional, pois não dependo economicamente da literatura.

Quais são as suas principais fontes de inspiração para escrever? Tem algum tipo de disciplina ou escreve ao ritmo aleatório e imprevisível da inspiração?

Não escrevo por inspiração, mas por inquietação. Como a escrita é um exercício árduo, tento impor-me alguma disciplina, alguma obrigação de produzir, mas posso considerar que o ritmo é aleatório, conseguindo escrever a qualquer hora. Só tenho dificuldade em escrever quando estou muito cansado.

Em que lugares escreve mais? Atribui uma grande importância ao lugar onde escreve? Ou escreve facilmente em qualquer lugar? 

A única coisa que preciso para escrever é uma boa ideia.

Safara, a aldeia do Baixo Alentejo em que nasceu e onde viveu até ingressar no Curso de Licenciatura em Estudos Portugueses – Línguas e Literaturas Modernas, na Universidade do Algarve, é visivelmente uma influência nos seus romances. É possível ver nos seus trabalhos muitos dos costumes e das tradições safarenses. Qual é a importância das suas raízes na sua obra?  

Toda. Safara, a minha Safara, é a medida para todas as coisas. A sua influência é determinante na minha obra, principalmente as suas gentes, as tradições, o linguajar, o cante. Uma inesgotável fonte de inspiração.

 Um grande livro tem de ter três coisas: uma extraordinária história, uma grande vocação para saber contá-la e uma linguagem literária de grande qualidade.

Ao mudar-se para Faro, onde frequentou e concluiu a sua formação superior, sentiu transferir-se para as suas obras alguma influência urbana? Como é que Faro compete com Safara no modo de influenciar a forma como escreve?

Não compete. Safara tem toda a relevância na minha obra, Faro não tem nenhuma. É um facto que me tornei escritor em Faro, mas aquilo que escrevo, aquilo que quero dizer, as gentes que me ensinam são as de Safara. A Faro agradeço o acolhimento, mas o meu coração não está aqui.

E as Culturas Árabe e Islâmica e o Mediterrâneo, que dão nome ao Curso de Mestrado que também concluiu na Universidade do Algarve, que influência têm na sua obra? 

Essas, sim, costumam ter alguma. Nos livros A Ilha das Duas Primaveras e Os Demónios de Álvaro Cobra fui buscar muito da minha aprendizagem sobre esses povos e esse período histórico para pôr nas minhas histórias ficcionadas. É um período riquíssimo e do qual ainda temos muito quotidianamente no sul do país. É possível que um dia dedique um romance ao período do al-Andalus.

Paralelamente à escrita, é o Diretor de Programação do Auditório Municipal de Olhão, onde tem a possibilidade de agir e intervir enquanto agente cultural e criativo. Em que é que as duas atividades – a de escritor e a de agente cultural – se cruzam e influenciam? 

Simplesmente, não se cruzam. É como um falante bilingue, percebe que de uma língua para a outra tem de mudar o registo, buscar outro vocabulário, etc. Muitas das pessoas com quem trabalho (artistas, produtoras, etc.) nem sabem que escrevo. Falo pouco de literatura durante o meu dia de trabalho.

Eduardo Lourenço defende que a relação que temos com os livros provém dos livros que lemos quando somos jovens. Que livros leu quando era mais jovem? Que grandes títulos, da Ilíada à Mensagem, o marcaram?  

Houve grandes livros que me marcaram. Eu só sou escritor porque li grandes livros e me apaixonei irreversivelmente pela literatura. Foram tantos, mas tantos, que não quero particularizar. Contudo, os maus livros também foram importantes, porque me indicaram outro caminho a seguir.

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 Há medo. Urge ser utópico. As pessoas precisam de uma voz de esperança. A literatura pode ser um refúgio.

Hoje em dia lê com regularidade? Quais os autores contemporâneos, portugueses e estrangeiros, que lhe merecem maior admiração? 

Estou sempre a ler quando não estou a escrever. Quando escrevo faço gestão do tempo e não leio, porque o tempo não dá para tudo. É com enorme felicidade que leio uma nova geração de escritores portugueses. São muitos e alguns são muito bons. Destaco, destes, um nome: Afonso Cruz.

Agustina Bessa-Luís, numa entrevista concedida a Carlos Vaz Marques (fevereiro de 2003), diz que os grandes escritores são os grandes desorganizadores sociais. Partilha da mesma opinião? Qual é, para si, o papel do escritor? 

Deviam ser. Eu faço por sê-lo. Acho que o escritor deve ser um transmissor de ideias, aquele que acicata reflexões, aquele que não se dá aos conformismos. Os livros devem ter um papel social, também.

 O ser humano com os seus defeitos e qualidades e as sociedades rurais são os temas que escolhi para os meus livros.

Revê-se inteiramente nesse perfil do escritor? Encontra o Carlos Campaniço nessa descrição? 

Aos poucachinhos, sim. Começo a interiorizar que sou escritor, mas não apenas isso.

A escritora madrilena Rosa Montero, no seu livro A louca da casa, diz que se escreve «(…) para aprender, para saber; e não se pode empreender essa viagem de conhecimento levando previamente as respostas consigo». Quando começa a escrever um livro leva consigo mais perguntas ou mais respostas? No seu entender, para que se escreve? 

Não partilho da opinião de Rosa Montero. Esse pensamento contradiz, a meu ver, o anterior de Agustina. Eu escrevo porque me dá prazer e, sobretudo, porque quero contar uma história com determinado enfoque. Sou eu que levo o leitor à história e não a história que me leva.

À medida que envelhecemos tendemos a perder progressivamente a capacidade de imaginar e fantasiar. O cidadão adulto propende a perder essa liberdade. O escritor trabalha esse aspeto? Dá mais ouvidos à criança que há em si?  

Não concordo com essa afirmação. As grandes obras mundiais foram escritas pelos seus autores em idades muito adultas, para ser eufemisticamente simpático. Creio, sinceramente, que a imaginação não tem relação com a idade. Agora também posso acreditar que a criança que há em cada um de nós possa ser mais teimosa nos escritores.

 Acho que o escritor deve ser um transmissor de ideias, aquele que acicata reflexões, aquele que não se dá aos conformismos. Os livros devem ter um papel social, também.

Quais são, a seu ver, os grandes temas que atravessam toda a literatura? Pensa neles de forma objetiva quando desenha a estrutura dos seus livros? Ou eles surgem naturalmente na medida em que representam os grandes temas da humanidade?

Os livros são veículos para as nossas ideias, se quisermos pensar assim. Cada um põe neles as suas conceções. A mim, concretamente, basta-me seguir a nossa condição humana, os nossos sentimentos, as nossas ambições e os medos, as nossas fantasias. O ser humano com os seus defeitos e qualidades e as sociedades rurais são os temas que escolhi para os meus livros.

 Eu só sou escritor porque li grandes livros e me apaixonei irreversivelmente pela literatura.

Na sua perspetiva, o que tem de ter uma obra para ser uma grande obra? Para marcar profundamente a vida dos seus leitores? 

Um grande livro tem de ter três coisas: uma extraordinária história, uma grande vocação para saber contá-la e uma linguagem literária de grande qualidade. Parece tão simples, mas poucos o conseguem.

Safara, a minha Safara, é a medida para todas as coisas. A sua influência é determinante na minha obra, principalmente as suas gentes, as tradições, o linguajar, o cante. Uma inesgotável fonte de inspiração.

O olhar de um escritor é por definição um olhar mais atento, mais observador, mais microscópico. Como é que os seus olhos veem a sociedade atual? Como é que definiria em breves palavras os tempos em que hoje vivemos?

A nossa sociedade atual regrediu nos últimos anos no que concerne aos direitos e bem-estar das pessoas. Cada vez mais há um poder económico que domina toda a sociedade, incluindo o poder político decisório. As pessoas são meros números. E por mais incrível que pareça, quanto mais pisadas mais amorfas se tornam. Há medo. Urge ser utópico. As pessoas precisam de uma voz de esperança. A literatura pode ser um refúgio.

 A única coisa que preciso para escrever é uma boa ideia.

Quais são os seus planos para o futuro enquanto escritor? Ganhar o Nobel? 

Os meus planos passam por escrever melhor a cada dia, escrever melhores livros a cada edição, tão-só.


Carlos Campaniço


 

    

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