PERGUNTA 1 | Albert Camus disse que «cada homem tem de descobrir a sua casa». Que retrato faz de ti a casa onde moras?

[Para um conjunto de perguntas colocadas pelo Entre | Vistas, que vão sendo progressivamente anunciadas, a autora, consultora de inclusão e palestrante Mafalda Ribeiro dá respostas, prometendo provocar-nos, incitar-nos, contagiar-nos. Todas as perguntas estarão dentro do “chapéu” temático da casa, esse lugar que habitamos e somos. É a rubrica Pelas Lentes da Mafalda Ribeiro].


A minha casa é, sem dúvida, o que transborda de mim e que dá de beber, de várias formas, a quem a visita ou passa lá mais tempo. Olhando para mim como um cálice que se vai enchendo de bênçãos, aprendizagens e gratidão, então a minha casa é o que me permite entregar tudo o que recebo e que não posso conter, sob pena de me afogar no meu ego. A minha casa é a ponte que os outros atravessam quando não posso ir eu ao seu encontro. E é nela que encontram o descanso e o entusiasmo, que eu vivo todos os dias por ser abraçada por ela.

O centro de toda a minha casa é uma mesa, disposta sobre um janelão aberto que tanto dá para a sala como para a cozinha. Se eu fosse um móvel queria ser uma mesa – ou especificamente a minha mesa – e é à mesa que encontro o sinónimo mais bonito para a palavra relação. Ao ser uma pessoa de pessoas a mesa é o meu chão.

Disse, algumas vezes, até há dez anos (que foi quando fui morar sozinha), que a minha cadeira de rodas era como uma extensão de mim. Ela não é um objecto apenas. Leva-me aonde eu não posso ir pelo meu pé e por isso é a cadeira que me dá liberdade. Nunca digam que eu estou “presa” à cadeira de rodas porque é mentira. No que toca a bens materiais, então a minha casa foi a minha segunda conquista, só que ela também não é propriamente “inanimada”. A minha casa tem vida porque o primeiro investimento que fiz nela – ainda vazia de móveis e pertences – foi a de a entregar em oração a Alguém que é muito maior do que a sua proprietária e anfitriã de todos os abrires de porta. A minha casa é uma extensão da minha maneira de estar na vida: aberta à escuta, descomplicada, cheia de luz, equilibrada entre o contemporâneo e os elementos vintage, com uma voz natural e reflexiva, forrada de histórias, palavras e vidas nos livros que habitam em todas as divisões, pincelada a tons pastel na delicadeza que a envolve, sem obstáculos à circulação e com espaço para as memórias que vou construindo e que tanto tem de cisterna como de canal. A única coisa que a minha casa acumula é o amor que vou debitando no coração de quem a conhece.

O centro de toda a minha casa é uma mesa, disposta sobre um janelão aberto que tanto dá para a sala como para a cozinha. Se eu fosse um móvel queria ser uma mesa – ou especificamente a minha mesa – e é à mesa que encontro o sinónimo mais bonito para a palavra relação. Ao ser uma pessoa de pessoas a mesa é o meu chão. Isto é, por muito que a minha casa seja refúgio e espaço sagrado para o meu silêncio ela só é casa quando estão nela pessoas para além de mim. E é à mesa, às vezes isenta de refeições, que tudo acontece: naquilo que sou eu a ligar-me aos outros e também no que recebo dos outros. Chegando ao ponto de, à minha mesa, eu dar por mim a ser assistente das vidas que se ligam e se edificam, sem ser eu estar no centro. A minha casa ganha vida própria quando, em alturas dessas, eu mesma me chego a sentir uma visita. E é maravilhoso.

De cada vez que abro a minha porta a alguém, mesmo que nem sempre me apeteça, decido estar grata pela travessia que foi feita até isso acontecer. É que de cada vez que batem à minha porta eu estou a abrir também a porta ao para quê de estar aqui.

Na minha casa nunca se viveu a ausência apesar de eu morar sozinha por opção. Ela foi escolhida pela minha mãe antes de regressar à Casa celeste, por isso sinto a minha casa como um colo materno que nunca me deixou. A minha casa é um jardim que eu rego, alimento, cuido, contemplo e limpo (do que não entra por bem) continuamente pois já muito foi semeado e gerado no seu solo em partilhas e lágrimas. Na minha casa estou sempre a ver flores a desabrochar ou frutos a serem colhidos, em várias esferas da minha vida, porque ela é o cenário de todas as estações. Soube desde o princípio que, se calhar, sou antes uma espécie de governanta da casa onde moro já que a única coisa que me é exigida é que continue a ser boa mordoma de tudo o que ela alberga.

A casa onde eu moro é onde moram muitas dores curadas – minhas e de tantos – feridas cicatrizadas e fracturas solidificadas. Por isso, poder viver e trabalhar na minha casa é aquilo que me lembra continuamente da fidelidade divina sobre todas as nossas imperfeições. De cada vez que abro a minha porta a alguém, mesmo que nem sempre me apeteça, decido estar grata pela travessia que foi feita até isso acontecer. É que de cada vez que batem à minha porta eu estou a abrir também a porta ao para quê de estar aqui. A casa onde eu moro continua a ser o meio que é a mensagem.


Sobre a Mafalda Ribeiro

A pergunta que se faz a ela própria não é «Porquê eu?», mas «Para quê eu?». Endereça a sua maior inquietação à finalidade e à missão. Como quem está ao serviço de. Tem o corpo pequenino de criança que a doença rara congénita Osteogénese Imperfeita (conhecida como a “doença dos ossos de vidro”) lhe legou. A cadeira de rodas que a transporta não é, no entanto, um obstáculo intransponível. É um veículo para chegar mais longe. Possui mais de uma centena de fraturas no corpo de palmo e meio, mas desconcertante, pelo humor, a rapidez de raciocínio e a audácia. É uma comunicadora nata e é chamada a falar como palestrante motivacional, certificada em Storytelling e Coaching Internacional. Se fosse uma música, seria um samba, pela alegria. O batom vermelho é a sua imagem de marca e o sorriso o seu cartão de visita!


+ Informação Mafalda Ribeiro

Pelas Lentes da Mafalda Ribeiro - Parte I 73

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