PERGUNTA 2 | José Luís Peixoto, no seu livro de poemas Regresso a Casa, fala-nos do risco de não sermos capazes «de encontrar o caminho para casa». Há um outro caminho sempre que nos perdemos?

[Para um conjunto de perguntas colocadas pelo Entre | Vistas, que vão sendo progressivamente anunciadas, a autora, consultora de inclusão e palestrante Mafalda Ribeiro dá respostas, prometendo provocar-nos, incitar-nos, contagiar-nos. Todas as perguntas estarão dentro do “chapéu” temático da casa, esse lugar que habitamos e somos. É a rubrica Pelas Lentes da Mafalda Ribeiro].


Desde que queiramos ser encontrados há sempre um caminho. Ele pode ser diferente daquele que outrora conhecíamos, mas se estivermos dispostos a percorrê-lo vamos chegar a casa. Basta-nos que guardemos o nosso coração pois aonde ele estiver estará também a nossa casa, por muita dureza que tenhamos vivido no percurso. E, mais importante, intencionalmente e a pouco e pouco voltaremos nós a ser uma morada para os outros.

Penso que a nossa maior dificuldade é com o apego emocional que temos dos edifícios e de tudo o que vivemos dentro deles. De cambalearmos entre o que é a casa e o que é o lar. Entre o que é visível e o que é reconhecível. Da confusão interior que dispara, imediatamente, quando nos tiram – ou perdemos – um qualquer elemento que associamos ao que consideramos casa. Pensando nisto, concordamos que a nossa primeira casa foi o ventre materno e a seguir o seu regaço. E quando isso nos falta, significa que nos perdemos de nós? Que além de órfãos passamos também a ser desalojados para sempre? José Luís Peixoto descreveu este amor-casa num sublime conto infantil: «(…) Mesmo quando estou onde não podes estar, mesmo quando estás onde não posso estar, sabemos bem o tamanho da certeza que nos une. Eu tenho a certeza de ti, tu tens a certeza de mim. Amor, essa palavra. Mãe, choves essa palavra dentro de mim».

Para mim, mais sério do que o risco de nos perdermos – pois acredito que há sempre uma estrada secundária enquanto possuirmos luz dentro de nós para iluminar o caminho – é a revelação de que estamos todos em risco de, num estilhaço, nos tornarmos num refugiado.

Trouxe este livro para viver comigo quando vim morar sozinha, certa de que a minha mãe nunca me iria visitar. Ironicamente, dias antes da escritura a minha mãe a olhar para o guarda-roupa, no quarto onde sempre vivi, disse-me: «não vais levar a roupa toda, pois não? Não aguento ver isto vazio. Tu livra-te de me deixares!». Exageros de amor maternal à parte, era com um armário vazio que lhe fazia confusão ter de conviver, mesmo comigo a viver a apenas 10km de distância dela. Meses depois foi ela que me deixou todas as casas vazias por ter regressado, sem aviso nem despedidas, ao Céu, que é a casa para a qual todos deveríamos estar a caminho.

Enquanto houver sopro de vida há possibilidade de recomeço, portanto há caminho. A esperança é algo que, à frente, se espera. A esperança não é algo para onde se regressa.

Para mim, mais sério do que o risco de nos perdermos – pois acredito que há sempre uma estrada secundária enquanto possuirmos luz dentro de nós para iluminar o caminho – é a revelação de que estamos todos em risco de, num estilhaço, nos tornarmos num refugiado. Ou seja, não se perde identidade nem orientação, mas perde-se a liberdade de poder regressar a casa. Há quem perca a casa-mãe, a casa-tecto, mas também a casa-terra. Nesse cenário, como é que se encontra um caminho quando “regresso” passa a ser palavra censurada pela liberdade confiscada? Experimentar olhar para cima, render-se ao facto de pertencermos todos à mesma casa e continuar a desejar que nos encontrem. Enquanto houver sopro de vida há possibilidade de recomeço, portanto há caminho. A esperança é algo que, à frente, se espera. A esperança não é algo para onde se regressa.

A chuva não vem de baixo dos nossos pés. Lembra-nos que esta casa a céu aberto, que é o mundo, onde todos nos encontramos, ganha o seu sentido pleno quando somos abrigo uns para os outros, quando nos adoptamos, quando acolhemos e quando nos disponibilizamos a ser chão seguro para quem precisa de voltar a construir e reconstruir-se. Que cada um de nós seja casa-farol para quem precisa de ser encontrado neste tempo. E que isso contribua para não nos perdermos da nossa humanidade.


Sobre a Mafalda Ribeiro

A pergunta que se faz a ela própria não é «Porquê eu?», mas «Para quê eu?». Endereça a sua maior inquietação à finalidade e à missão. Como quem está ao serviço de. Tem o corpo pequenino de criança que a doença rara congénita Osteogénese Imperfeita (conhecida como a “doença dos ossos de vidro”) lhe legou. A cadeira de rodas que a transporta não é, no entanto, um obstáculo intransponível. É um veículo para chegar mais longe. Possui mais de uma centena de fraturas no corpo de palmo e meio, mas desconcertante, pelo humor, a rapidez de raciocínio e a audácia. É uma comunicadora nata e é chamada a falar como palestrante motivacional, certificada em Storytelling e Coaching Internacional. Se fosse uma música, seria um samba, pela alegria. O batom vermelho é a sua imagem de marca e o sorriso o seu cartão de visita!


+ Informação Mafalda Ribeiro

Pelas Lentes da Mafalda Ribeiro - Parte II 74

 

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