Pioneira. Irreverente. Simples e arrojada. Sim, ao mesmo tempo. É possível. No seu modo natural de colocar palavras comuns para dizer o que é profundo e o que é verdade. A primeira mulher moçambicana a publicar um romance e a primeira africana com o Prémio Camões, sucedendo a Mia Couto e José Craveirinha. É Paulina Chiziane.

Na atual edição do Jornal de Letras, Artes e Ideias (3 a 16 novembro 2021), podemos ler numa entrevista dada a Luís Ricardo Duarte que Paulina Chiziane deixou queimar o jantar do dia 20 de outubro no momento em que recebeu a chamada com a notícia do prémio. «Fiquei tonta… Completamente tonta…». Continuam a ser muitos os telefonemas que lhe são dirigidos, as solicitações para entrevistas. Todos queremos conhecer melhor esta mulher, esta voz que vai agora poder ser ouvida no mundo inteiro. É esse efeito direto que é verdadeiramente avassalador num prémio prestigiante como este: passar a ter o mundo inteiro como público. Com a responsabilidade que isso tem. Mas comecemos por ler os seus livros.

«O meu mundo foi o das mulheres, um mundo onde muitos lugares estavam barrados. Então, se vou escrever alguma coisa, eu vou escrever o mundo que conheço. Às vezes, os leitores pensam que quando se escreve sobre a vida das mulheres é uma questão de feminismo ou de militância. Não, estou apenas a escrever o mundo em que nasci e cresci». Paulina Chiziane conta-nos histórias com mulheres no centro, narrativas descritivas dos problemas, das diferenças, das desigualdades, das injustiças, das vozes silenciosas e das experiências de oralidade tão importantes na cultura africana. A autora refere, aliás, que apesar de ser reconhecida como a primeira romancista do seu país, é com o epíteto de contadora de histórias que se identifica. Histórias grandes e pequenas, pequenas e grandes, histórias dentro de outras histórias.

São muitos os estudos que se debruçam sobre a relevância da literatura para expressar e consolidar a identidade dos povos, a sua cultura, os seus traços únicos, inigualáveis. Nas histórias de Paulina Chiziane, assistimos a esse cristalizar, no sentido de permitir penetrar, reter, assimilar os costumes do seu país, o seu modo de ver, de ser. Com o contributo, muito vivo nesta autora, de a partir da identidade moçambicana nos ser permitido rever-nos. É sempre disso que a (boa) literatura nos fala: da possibilidade de no outro nos vermos melhor ou de sermos para o outro o seu espelho mais nítido.

A escritora moçambicana iniciou a sua atividade literária em 1984, com a publicação de contos em revistas e jornais de Moçambique. Deu-se a sua descoberta internacional com o lançamento do primeiro romance, em 1990: Balada de Amor ao Vento. Seguiram-se outros, como Ventos do Apocalipse (1993), O Sétimo Juramento (2000), Niketche. Uma História de Poligamia (2002) ou O Alegre Canto da Perdiz (2008). Vários dos seus livros podem ser lidos em publicações portuguesas e brasileiras, mas também em alemão, espanhol, francês, italiano, inglês ou sérvio. Com o Prémio Camões, Paulina Chiziane refere que a sua vida «mudou de um dia para o outro». Que mude também a nossa, com a leitura do que escreveu.

Paulina Chiziane encanta-nos com Prémio Camões 73

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