O mais recente livro da escritora Ana Margarida de Carvalho, que colige 10 contos vigorosos, convoca-nos para ambientes de guerra, os quais, por definição, são de facto lugares mal situados. E nesses lugares mal situados permanece não raras vezes intacta uma rotina intensificada de emoções, recalcamentos, gritos, suores e lágrimas. Ao mesmo tempo, com o próprio tempo a mostrar-se implacável na sua indestrutível fluidez, nestes contos há uma certa sugestão de normalidade em coabitação com a guerra. Um continuar que se vê desde logo nas esparsas referências a livros e autores, mesmo que não sirvam ali para ler. Mesmo que não sirvam para nada.

Nesta sua coletânea de contos, Ana Margarida de Carvalho percorre vários lugares do espaço e do tempo, em povoações invadidas por tropas estrangeiras, operações da resistência, bibliotecas intervencionadas, mulheres cercadas, o silêncio sepulcral da despedida dos que partem em missão frente aos que ficam e o do momento seguinte às derrocadas, a inflexibilidade dos tiros, a crueldade da morte. Através da canção de Caetano Veloso, “Cajuína”, é lançada a pergunta porventura subjacente a todos os contos: «Existirmos: a que será que se destina?».

Recorre a personagens cuja «curiosidade jamais passou da ombreira» e a outras de grande intensidade, com a força da juventude para mudar o mundo ou tão somente uma «obsessão por desemaranhar fios». Coloca no pensamento de algumas outras as ideias fortes que justificam transferir dali para a nossa experiência a mesmíssima impressão: «Há ausências que ocupam tanto espaço e presenças que o sugam». É também refletido o sentido da guerra depois de passar: «Os pós-guerras trazem isto de bom, durante os primeiros tempos, todos são desalojados, tudo é despertença, tudo é desajuste, tudo é recomeço».

A autora Ana Margarida de Carvalho foi já duplamente premiada pela Associação Portuguesa de Escritores, com o seu romance de estreia, Que Importa a Fúria do Mar, e Não Se Pode Morar nos Olhos de Um Gato. Com O Gesto Que Fazemos para Proteger a Cabeça, chegou aos finalistas do Prémio Oceanos 2020 e do Prémio de Literatura da União Europeia 2021. O seu primeiro livro de contos, Pequenos Delírios Domésticos, mereceu o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco 2017.

Nestas Cartografias de Lugares mal Situados (10 Contos de Guerra), por serem «insondáveis os nossos labirintos interiores», assistimos à memória a suturar feridas mas também a reconstruir esperança. Num contraste avassalador entre os extremos em que a vida nos coloca e que Ana Margarida de Carvalho retrata tão maravilhosamente como se não estivesse (apenas) a escrever. E lembrando Mark Twain, na frase de abertura do livro: «Passei por coisas horríveis na minha vida. Algumas aconteceram mesmo».

Cartografias de Lugares mal Situados, Ana Margarida de Carvalho 73

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