Hora H. É o começo das aulas. Para marcar o primeiro dia, procuro surpreender os meus filhos com um presente simbólico, comprado na Livraria da Travessa, que sinalize a importância e a beleza de inaugurar um novo ano na escola. E é nessa livraria que vejo subitamente uma peça literária que me surpreende a mim: Linguará, uma revista pela língua portuguesa, das editoras brasileiras Carla Paoliello e Maria José Amorim, instauradas em Portugal.

É em papel coral e agregando um conjunto de folhas unidas na lombada por uma linha finíssima atada à mão, quadrimestral, com uma tiragem de 200 exemplares e sempre dedicada a uma letra em concreto. Cada número da Linguará retrata uma letra única. Neste número em que a descubro, válido entre junho e setembro de 2021 (e sempre, dado o tamanho da sua intemporalidade), a Linguará é dedicada à letra H. E nem de propósito uma revista sobre o H chegar agora à minha vida.

Hora H é uma expressão que usamos para descrever o «momento certo, decisivo». E é-o, certamente, para mim. «Estamos sofrendo de baixa humanidade (…)». «Talvez este seja o nosso principal desafio, nos humanizarmos ou reumanizarmos», lemos na espécie de editorial das editoras, “A hora do mundo”. E porque, dizem-nos:

«Na letra H, se faz o mundo:

Hipocrisia / História

Histeria / Hermenêutica

Harmonia / Homicídio

Humildade / Hegemonia

Honradez / Humilhação

Hospitalidade / Hostilidade

Horror / Humor»

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Para lá da hora H, inclui esta Linguará um tributo à “Passagem das horas” de Álvaro de Campos, com várias declarações de intenção: «Porque, por mais que sentisse, sempre me faltou que sentir». Somos confrontados com um pedido de Helder Moura Pereira: “Fica ao menos o tempo de um cigarro”. E a “Esmola”, de Hélia Correia, fala-nos da redenção do poema. Outros poemas são incluídos, de Herberto Helder, Hermes Vieira, Homero Homem, Hélio Pellegrino ou Humberto França. E de tristeza nos fala Horácio Dídimo no seu poema “Triste”: «triste não é saber que não há/ nem que não haverá/ triste é saber que nunca houve/ e que agora para todo o nunca/ choraremos».

No fim, são exibidos excertos dos hinos da lusofonia: Angola, Brasil, Cabo Verde, Moçambique, Portugal, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Porque a Linguará é um hino, a partir da fisionomia e da simbologia do H, à língua portuguesa. Que se refere, previsivelmente, também a Fernando Pessoa: «O meu passado é tudo quanto não consegui ser». Talvez porque viver seja agora, na hora H. Vamos?

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