«O meu ofício é o de escrever e eu sei-o bem e há muito tempo», diz-nos Natalia Ginzburg referindo-se à sua profissão de uma vida e que aos leitores de hoje continua a beneficiar. Na introdução de Rachel Cusk ao livro As Pequenas Virtudes, da escritora italiana, somos lembrados de que estamos perante ensaios com «mais de cinquenta anos» que «soam como se tivessem sido (…) acabados de compor». Ainda que escritos entre 1944 e 1962, não há um tempo específico para a natureza absolutamente familiar e próxima que cada um dos escritos carrega, tornando-se um sopro ao nosso ouvido sobre a nossa própria pessoa, a nossa família, a nossa vida. É a literatura a ser literatura. A assumir o seu papel ancestral e imemorial de nos dizer aquilo que sempre pensámos e que nunca conseguimos verbalizar daquela maneira ou com aquela clareza e intrepidez. A partir do título, As Pequenas Virtudes, é feita na verdade uma apologia das grandes virtudes.

Nascida em Palermo, em 1916, descendente de pai judeu e de mãe católica, numa família de intelectuais de esquerda empenhada na defesa em tempo de fascismo da liberdade de expressão, Natalia Ginzburg dedicou à escrita a sua vida inteira e neste livro encontramos numa visão autobiográfica alguns dos pilares charneira dessa vida inteira. A residência no campo em Itália, num “Inverno nos Abruzos”, e a exposição à morte do marido «em Roma, na Prisão de Regina Coeli». “O Elogio e Lamento de Inglaterra” dá-nos a sua perspetiva sobre uma Inglaterra «bela e melancólica», «nunca vulgar». Ficamos atónitos perante a capacidade cirúrgica da análise: «Não há com efeito nada mais triste no mundo do que uma conversa inglesa, sempre atenta a não tocar em nada de essencial, para se ficar pela superfície. Para não ofender o próximo penetrando na sua intimidade, que é sagrada, a conversa inglesa versa sobre assuntos extremamente aborrecidos para todos, mas que não apresentam perigo».

Numa análise sobre o papel do seu marido e o seu, coloca-se numa posição subalterna que poderia ser fatal se não tivesse o dom de ser romântica simultaneamente, com «a ligeireza de uma borboleta». Natalia Ginzburg aborda as questões estruturantes da diferença de géneros sem recorrer às banalidades a que o discurso corrente nos acostumou. É elegante. É sóbria. Mas muito clara, certeira, assertiva. Porventura ensinada pelas marcas da guerra e do fazer frente ao regime de Mussolini. «Não podemos mentir nos livros e não podemos mentir em nenhuma das coisas que fazemos. E talvez seja este o único bem que nos veio da guerra. Não mentir e não tolerar que os outros mintam».

Natalia Ginzburg fala-nos sem solenidade, com tamanha naturalidade, dos grandes valores. «O homem não pode senão aceitar o seu rosto como não pode senão aceitar o seu destino: e a única escolha que lhe é consentida é a escolha entre o bem e o mal, entre o justo e o injusto, entre a verdade e a mentira. Chama-nos a atenção para a centralidade, na nossa vida, das relações humanas. E da ligação incondicional aos filhos. «Nascem-nos filhos, e cresce em nós o medo da pobreza: ou melhor, crescem em nós medos infinitos, de todos os perigos ou sofrimentos que possam ferir os nossos filhos na sua carne mortal». «Não sabíamos que houvesse no nosso corpo tanto medo, tanta fragilidade: nunca suspeitáramos que pudéssemos sentir-nos tão ligados à vida por um vínculo de medo, de ternura dilacerante».

E a propósito das pequenas e das grandes virtudes, a ideia síntese do livro está provavelmente neste parágrafo: «No que se refere à educação dos filhos, penso que lhes devem ser ensinadas não as pequenas virtudes, mas as grandes. Não a poupança, mas a generosidade e a indiferença pelo dinheiro; não a prudência, mas a coragem e o desprezo do perigo; não a astúcia, mas a franqueza e o amor da verdade; não a diplomacia, mas o amor ao próximo e a abnegação; não o desejo de sucesso, mas o desejo de ser e de conhecer». E ainda que esta função seja grande e tremendamente exigente, a autora realça que «devemos ser, para eles, um simples ponto de partida, oferecer-lhes o trampolim do qual hão de saltar». Para a vocação que lhes possa estar destinada. A deles (não a dos seus pais).

Como a própria autora nos descreve quando se refere à própria escrita, neste livro assistimos a uma coletânea de «contos enxutos e claros, bem conduzidos do princípio ao fim, sem tropeçar, sem sair do tom». E nessa alternância entre as pequenas e as grandes virtudes, Natalia Ginzburg leva-nos pela mão até às nossas próprias virtudes, para uma conversa sem rodeios sobe o que verdadeiramente somos.

As Pequenas Virtudes, Natalia Ginzburg 71

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