De visita a Ataúro

Em Ataúro esperava-nos um eco resort, cujas condições simples exigiam um assumido à vontade com a natureza. Os quartos, exíguos, incluíam pequenas camas forradas com uma rede mosquiteira, uma discreta mesa de cabeceira e um cabide com um cesto pendurado, daqueles que as mulheres timorenses levam à cabeça transportando as mais variadíssimas coisas.

Na fileira da frente, mesmo à beira-mar, o quarto onde fiquei deixava adivinhar uma noite repleta de peripécias desencadeadas pela tradicional presença de bichos e bicharocos habituados às imediações do mar. Ao jantar, numa sala comum, organizámo-nos numa fila indiana que unanimemente cedeu às senhoras o primeiro lugar. Com o prato a extravasar de arroz, peixe fresco e salada, ajeitámo-nos no chão, todos descalços, participando nas conversas curiosas daqueles que enfaticamente perguntavam às meninas portuguesas (eu incluída): «Estão cá de férias?». O brilho no seu olhar deixava transparecer a alegria que se sente quando alguém gosta da nossa terra. Todos os timorenses me trataram tão generosamente, permitindo que me sentisse da terra. Não há melhor forma de acolher do que fomentar tal sentido de pertença…


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Em Ataúro assistimos a um dos entardeceres mais bonitos que alguma vez consegui presenciar. Num ápice, a luz transbordante deu lugar a uma lua cheia que convidou a um passeio destemido sobre a areia recheada de pequenas rochas e corais. Ao longe, soava mais alto do que o som das ondas da maré ainda tímida o cantar aberto de alguém que não se deixava ver entre a penumbra. Avancei, pé ante pé, seguindo o som que sentia cada vez mais próximo. De repente, dei de caras com um homem baloiçando sobre o estabilizador de um barco de pescadores ao ritmo da sua canção e que, depois de me ver, acanhado, calou-se. «Como te chamas?», perguntei-lhe. «Fernando de Araújo», respondeu-me. «Que nome tão bonito», pensei. Logo que voltei ao eco resort, asseguraram-me: «Todos os timorenses têm um nome bonito!».

Durante a noite, prevaleceu a sensação de estar a ser perseguida por uns pequenos mamíferos roedores que, segundo contaram no passeio de lancha que nos levou de volta a Díli, deveriam estar instalados no interior dos colchões onde todos pernoitaram… O dia seguinte assumiu-se logo pelas 5h30. A dois passos esperava-nos o mar que, nesse momento mais calmo, tinha deixado na noite a rebeldia da maré cheia.


De novo num jipe, metemo-nos por caminhos e atalhos em Ataúro. Num dos pontos mais altos e estratégicos da ilha, parámos para tirar fotografias com as inúmeras máquinas fotográficas que insistiram em registar cada fôlego, cada recordação no nosso olhar de turistas. De seguida, a caminho do ateliê onde algumas dezenas de mulheres costuram e produzem as famosas Bonecas de Ataúro e da loja de biojoias elaboradas por surdas-mudas (projetos apoiados por instituições locais e internacionais), fomos intercetadas por um grupo de pequenas timorenses que, rumo à escola, se desfizeram em gritos de alegria por nos verem.

Saltos e sorrisos perpetuados no ecrã da câmara digital depressa prenderam a nossa atenção. Com um abraço apertado, deixei-as de olhar estupefacto e deslumbrado. Tal como ficou o meu, contagiado pela doçura insubstituível das crianças desta terra. Um dos grandes ensinamentos que Timor-Leste me deu começou aqui… Na proximidade das gentes, que começa nas crianças extasiadas sempre que nos veem chegar. É o ser humano a cru… Como num fado que por lá ouvi naqueles dias: «Há gente que fica na história, da história da gente (…)».

Para o regresso a Díli, estava reservada a mesma lancha, inesperadamente com um itinerário a fugir ao previsto, com incursões pela parte da costa onde serenamente mergulhavam e vinham à tona dezenas de golfinhos, já familiares do condutor do barco. Uma aproximação estratégica ao Cristo transformou o passeio de lancha numa viagem com o dobro do tempo habitual. Na mudança para o barco pequeno de pescadores que nos levou a terra, sobressaíram os sorrisos que trocámos com o dono da lancha, um australiano cordial que nos serviu de anfitrião e contador das histórias de quem vive em Timor-Leste há tempo suficiente para conhecer e gostar de permanecer ali.  


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