Neste livro, mergulhamos na fragmentação da alma de Osamu Dazai (pseudónimo de Shūji Tsushima, nascido em 1909, na província de Aomori, no norte do Japão), uma das mentes mais fascinantes e melancólicas da literatura japonesa do século XX. Autorretratos consiste numa coletânea de contos autobiográficos, que nos mostram essa fragmentação de alma, como um espelho estilhaçado, que é afinal o próprio Dazai refletido. Mas é, também, como o ser humano pode ser. A partir do laboratório de identidade que o autor nos coloca à frente neste compêndio de existência, são testadas versões de si mesmo e, nesse ensaio laboratorial, podemos surgir refletidos, cada um de nós. É assim a literatura.

Ler Autorretratos remete-nos para a observação de um homem nesse ensaio do desenho do próprio rosto (e das suas múltiplas máscaras), num espelho por si quebrado. Não se trata de uma autobiografia linear, mas de uma série de confissões disfarçadas de ficção, em que a fronteira entre o autor e o narrador é, propositadamente, expressiva. Assistimos à escrita como confissão, inscrita no género japonês shishōsetsu, uma espécie de “romance do eu”, em que é exposta a vida do autor num dossier de fracassos, de um homem que nunca deixou de se ver como impostor, pecador e fracassado, mas que, paradoxalmente, criou com isso uma obra de rara potência.

Dazai destaca-se, assim, como um mestre da “autoexposição”. Nestes Autorretratos, não busca a glória ou a virtude. Pelo contrário, despe-se das suas personagens interiores para revelar fraquezas, vícios e sua profunda sensação de inadequação social. Tendo nascido no seio de uma família rica, ligada à política e de grande prestígio social, Dazai sempre se sentiu deslocado e combativo face à rigidez da família e a uma política que considerava sufocante. Essa sensação de intruso na própria casa aparece, em ato contínuo, nestes Autorretratos: o eterno olhar de fora, como se não pertencesse ao mundo. Dazai escreve, em toda a sua obra, sobre o sentimento de ser um «desqualificado para ser humano», o tema recorrente que atinge o ápice em suas obras mais famosas, como Um Homem em Declínio ou As Flores do Riso, mas que aqui aparece em tons mais íntimos e variados.

Agora, embora a melancolia seja fio condutor, há uma ironia cortante e, por vezes, um humor depreciativo que torna a leitura surpreendentemente humana. Dazai ri da sua própria desgraça, dos seus desamores, da sua incapacidade atroz para lidar com as expectativas da família e da própria sociedade japonesa do pós-guerra, enlameada em fome, destruição, perda de referência moral e, consequentemente, uma pergunta desconcertante: o que é ser japonês, depois da derrota? É, de repente, este “sorriso triste” que cria uma conexão tão forte com o leitor.

Os contos de Autorretratos variam entre lembranças da infância aristocrática em Aomori e a vida boémia e decadente em Tóquio. O autor utiliza objetos quotidianos, encontros casuais e pequenas falhas de carácter para construir uma narrativa sobre a busca pela identidade. Vê-se como um eterno estrangeiro no mundo, alguém que observa a vida através de uma vidraça, desejando entrar, mas temendo o contacto. «A minha batalha. Resumidamente, tem sido uma batalha contra os antiquados. Uma batalha contra a banalidade e a afetação. Contra a flagrante respeitabilidade postiça. Contra a tacanhez de espírito e aqueles que dela fazem uso».

Através de uma escrita direta, confessional, mas carregada de um lirismo sombrio, descobrimos um jovem homem com uma miríade de referências e em muitos casos convivência com outros autores depressivos, irónicos, marginais, marcados, como Dazai, por álcool, bordéis, dívidas, amizades falhadas, amores turbulentos, que se desdobram em tentativas de suicídios não teatralizadas.

Osamu Dazai ou, melhor, Shūji Tsushima, morreu aos 38 anos, o que à luz dos padrões japoneses fazia dele um homem prestes a entrar na meia-idade. Ora, (quase) em tempo real, o autor usa a sua voz estentórica, escreve a partir das feridas abertas e apresenta-se, nessa habilidade de transformar a vergonha e o desenquadramento em arte, como o homem por detrás do mito literário. Mas também como o mito que todos somos para lá do homem de carne e osso.

Autorretratos, Osamu Dazai 72

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