Fotografias de Joana César

 

O trabalho elaborado e multidisciplinar da poeta Ana Cláudia Santos, apenas com 30 anos de vida, tem vindo a redefinir as fronteiras da literatura contemporânea em Portugal. Autora das obras Meia-Vida (2020), O Espectro (2024) e Ultra-Passado (2025), afirma-se com assertividade dentro e fora dos livros, através de festivais de referência, como o FÓLIO; renomadas casas literárias, como a Casa Fernando Pessoa ou a Casa Florbela Espanca, de onde é poeta residente; oficinas de escrita, caso da Festa da Poesia (Matosinhos); ou projetos cruzando arte e tecnologia, como “Pairing Portugal” do Turismo de Portugal, que associou poemas a regiões do país, acessíveis por tecnologia NFC. Com um percurso distinguido em 2021 pelo prémio que lhe valeu uma viragem de vida, “New Talent”, atribuído pela NiT, a TVI e a Santa Casa da Misericórdia, Ana Cláudia Santos estreou-se na cena internacional, em 2025, em Barcelona, tem feito notar a sua voz vital ainda pela curadoria da antologia Fábricas de Novas Almas, o lançamento do podcast “Multiversos” e a fundação do evento de poesia e música “Sala Incomum”. É uma voz inquieta, inquietante, singular. Parece ter o tempo todo do mundo, por conter em si o passado, o presente e o futuro. Por ser intemporal. Ou estar acima do tempo. Será isso? Ana Cláudia é uma voz vital e dará que falar em todas as línguas em que se disser poesia.  


Começo pelo poder da voz: o que tens aprendido sobre a escrita ao ouvi-la dita em voz alta, diante do público? Fala-nos da tua voz, como dizes, como «uma forma de agir».

Quando comecei a assistir a sessões de poesia ao vivo, tinha dificuldade em entrar na voz das outras pessoas. Ouvia-as, mas ainda não conseguia compreender o que existia nas palavras, silêncios, ritmo e respiração. À medida que fui frequentando cada vez mais encontros poéticos, passei a interessar-me pela forma como um poema ganha outra vida quando é dito em voz alta. Ao mesmo tempo, fui aprendendo a escutar, perceber e encontrar a minha própria voz. Durante algum tempo senti insegurança em relação ao meu timbre e à forma como lia. Aos poucos, percebi que cada voz transporta uma identidade única e que não faz sentido tentar aproximá-la da de outra pessoa. No início deste ano, participei num workshop de voz promovido pelo projeto Zabra, uma experiência que me deu mais confiança e me ensinou a escutar-me de outra forma. Vejo a voz como uma ponte para que os meus poemas cheguem aos outros. Ainda assim, continuo a sentir que é na escrita que encontro a minha forma mais profunda de expressão.

O que procuras provocar em quem te lê? O ponto é: há intencionalidade no impacto que pretendes criar no público?

Acredito que, para criar algo verdadeiro e para o público, preciso de me esquecer do público durante o processo de escrita. Só assim consigo escrever com liberdade e construir os meus próprios mundos, sem me preocupar com a forma como serão recebidos. A intenção é partilhar os meus pensamentos, reflexões e cenários imaginados, assim como experiências que me atravessam, sejam elas familiares, espirituais ou do quotidiano. Não procuro ensinar, convencer ou defender uma forma de ver o mundo. Se algum impacto acontece, espero que venha da identificação, curiosidade ou da emoção que cada pessoa encontra no texto, e não de uma mensagem que eu queira impor.

Talvez o que une os meus livros seja este desejo constante de encontrar respostas para as minhas perguntas impossíveis.

Parece haver uma linha invisível a coser Meia-Vida, O Espectro e Ultra-Passado. O que une estes títulos e que evolução denotam na autora?

Talvez o que une os meus livros seja este desejo constante de encontrar respostas para as minhas perguntas impossíveis. É uma vontade que acredito que vai continuar a acompanhar-me e estar presente nos próximos livros. Os cenários surrealistas, as figuras fantasmagóricas e as memórias da infância são elementos recorrentes, porque fazem parte da forma como olho para o mundo, são o meu filtro de realidade. O Meia-Vida, publicado em 2020 em edição independente, foi o meu livro de apresentação. Nele reuni vivências, memórias e criações que me acompanharam desde a infância até aos meus vinte e poucos anos. Em 2024 surgiu O Espectro, um livro que nasceu do convite da Casa Florbela Espanca, enquanto fui Poeta Residente. Sinto que é uma obra mais madura, onde procuro criar uma homenagem à vida, morte e obra de Florbela Espanca. Desde então, a ligação que tenho à sua poesia tornou-se ainda mais profunda e sinto que um pequeno fragmento dela vive agora em mim. No ano seguinte publiquei Ultra-Passado, uma edição Ofélia, que resulta de um conjunto de encomendas e projetos desenvolvidos para a Câmara Municipal de Benavente, no âmbito das comemorações dos 50 anos do 25 de abril. Nesse livro reflito sobre a liberdade através do olhar que tenho hoje, mas também através da criança que fui (e que serei para sempre). Apesar de já estar a “magicar” o próximo livro, sinto que ainda preciso de amadurecer antes de o decidir terminar. Agora as minhas “pesquisas” são outras, mas as perguntas permanecem.

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A tua poesia parece procurar, sucessivamente, novos lugares para existir, além dos livros: através da música, de podcasts, festivais, casas literárias, tecnologia. São os sinais dos tempos ou é uma estratégia de construção de uma comunidade viva e amplificada?  

Acho que mais do que uma estratégia para criar uma comunidade, existe em mim uma curiosidade em produzir e explorar coisas novas. No fundo, interessa-me continuar a encontrar ocasiões de colocar em movimento aquilo que escrevo. A poesia surge em praticamente tudo aquilo que concebo, pois é a minha forma de expressão, mas nunca foi um lugar fechado. Gosto de explorar linhas temáticas, linguagens e formatos distintos. Não me imagino limitada à escrita de livros. Um exemplo disso é o projeto que desenvolvo com o músico Diogo Lourenço desde 2017. Ao longo destes anos fomos construindo um universo muito próprio, onde a poesia dita se cruza com guitarra, sintetizadores e vocoder. Mais recentemente tenho usado, ainda de forma muito experimental, um pedal de efeitos de voz, que me permite intensificar momentos dos poemas durante as leituras ao vivo. Temos tido a oportunidade de apresentar este projeto em espaços como a Casa Fernando Pessoa, Festa da Poesia de Matosinhos, Festival MED ou Festival Aqui ao Lado. Já agora, podem esperar novidades nos próximos meses.

Vivemos numa época de consumo rápido de conteúdos. A poesia continua a exigir lentidão ou também pode habitar esse ritmo acelerado?

No meu caso, a poesia pede tempo. Preciso de a ler em silêncio, de a viver sem pressa e de lhe dar espaço para respirar. Para mim, a poesia continua a ser um tempo de pausa, um dos poucos espaços onde posso abrandar e permitir-me desacelerar. Numa sociedade em que tudo parece disputar a nossa atenção, sinto que preciso desse ritmo mais lento. Talvez seja essa a força da poesia, a de nos lembrar de que nem tudo precisa de acontecer à velocidade da luz. Já me perguntaram muitas vezes porque não faço vídeos chamativos a ler poemas para ganhar visibilidade nas redes sociais. A resposta é simples: por agora, não me identifico com essa ideia. Ainda assim, com o meu podcast “Multiversos” (rádio Revista NiT), criei episódios de poucos minutos onde conversava sobre poetas e literatura, e penso que foi uma boa forma de aproximar a poesia de novos públicos através dos media e da internet.

Vencer o prémio “New Talent” foi uma confirmação de que o caminho que estava a construir fazia sentido, um incentivo para continuar a arriscar e a acreditar. Esse reconhecimento deu-me a liberdade de continuar a criar projetos ligados à literatura.

A tua geração escreve de forma diferente das gerações anteriores ou apenas enfrenta inquietações diferentes? Reformulando: como descreves a poesia do tempo atual?

Acho que a minha geração tem poetas incríveis que estão a experimentar novas abordagens à escrita e a repensar aquilo que um poema pode ser. Existe uma vontade de testar limites, de questionar convenções e de se reinventar, sem receio de fugir ao que durante muito tempo foi entendido como a forma “correta” de fazer poesia. Ao mesmo tempo, não acredito que essa vontade de inovar signifique um corte com as gerações anteriores. Pelo contrário, continuamos a dialogar com elas. Muitos dos poetas que vieram antes de nós continuam a ser referências e, no meu caso, a influenciar a minha escrita. Descreveria a poesia da minha geração como uma rebelião natural contra regras pré-estabelecidas. Vejo muitos autores a abandonar a rima, ou a reinventá-la, a misturar géneros, a cruzar a poesia com outras artes e a experimentar novas possibilidades. Mais do que seguir uma fórmula, parece-me que a poesia atual procura encontrar uma identidade própria.

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Com o prémio “New Talent”, dá-se uma espécie de turning point na tua vida, tendo inclusive sido abertas portas significativas para um percurso original e tão multidimensional na poesia. Que tipo de liberdade te foi dada com este prémio?

Vencer o prémio “New Talent” foi uma confirmação de que o caminho que estava a construir fazia sentido, um incentivo para continuar a arriscar e a acreditar. Esse reconhecimento deu-me a liberdade de continuar a criar projetos ligados à literatura. Permitiu-me publicar os meus livros, viajar pelo país para partilhar a minha escrita em diferentes contextos e investir em muitas das iniciativas que fui desenvolvendo ao longo destes quase cinco anos. Foi também nesse período que nasceram o podcast “Multiversos” e a “Sala Incomum”, um projeto que cruza poesia, escrita e música e que reuniu diversos poetas para partilharem os seus processos de escrita.

És poeta residente da Casa Florbela Espanca. Conviver simbolicamente com uma figura tão marcante da poesia portuguesa altera a tua forma de escrever ou de pensar a literatura?

Tornar-me Poeta Residente da Casa Florbela Espanca foi uma experiência como nenhuma outra. Poder conhecer um lugar por onde Florbela passou e apresentar ali “O Espectro” foram momentos que nunca vou esquecer. Esse período deu-me uma vontade renovada de continuar fiel às questões que sempre me acompanharam. A morte, os fantasmas, o invisível e tudo aquilo que escapa à explicação já faziam parte do meu imaginário, mas perceber que Florbela também encontrou nesses mesmos territórios inspiração para escrever fez-me sentir menos sozinha. A convivência com a sua obra e memória reforçou a ideia de que não preciso de fugir ao que mais me inquieta e que não há vergonha nenhuma nisso. Sinto que Florbela me confirmou que posso usar a minha própria voz na literatura que quero construir.

A voz de cada um constrói-se ao longo do tempo. No meu caso, um curso de Escrita Literária, que frequentei em 2014, foi muito importante para me ajudar a encontrar o meu caminho na escrita. Acho que esse é um processo que nunca termina.

Como curadora de Fábricas de Novas Almas, o que descobriste sobre a nova geração de poetas portugueses? Já agora, e juntando aqui as oficinas de escrita que tens liderado, é possível ensinar alguém a escrever poesia ou apenas a encontrar a sua própria voz?

Em “Fábricas de Novas Almas”, cada um dos vinte poetas participantes possui uma linguagem, ritmo e enquadramento muito próprios, mas todos revelam uma vontade de compreender o mundo e de responder à sua maneira aos desafios do nosso tempo. A antologia procura mostrar que «num mundo dominado por máquinas robóticas e produção em massa, a poesia (ainda) é fabricada num lugar impossível de automatizar: a alma humana. A poesia (ainda) é uma oficina de novas ideias, sonhos e ações». Quanto às oficinas de escrita, não acredito que seja possível ensinar alguém a escrever poesia, pelo menos no sentido de transmitir uma norma. Acredito, sim, que podemos criar as condições para que cada pessoa se sinta livre para experimentar, sem pressões. Através de exercícios, desafios e leituras, procuro mostrar que um poema pode ser um espaço de descoberta e de brincadeira, onde pensamentos que pareciam confusos encontram uma maneira de existir. Nas minhas oficinas tento criar um ambiente descontraído e seguro, onde todos sintam que podem testar, divertir-se com as palavras e errar sem medo. A voz de cada um constrói-se ao longo do tempo. No meu caso, um curso de Escrita Literária, que frequentei em 2014, foi muito importante para me ajudar a encontrar o meu caminho na escrita. Acho que esse é um processo que nunca termina. Continuo a descobrir novas formas de dar expressão àquilo que tenho para dizer. Espero que esse entusiasmo nunca desapareça, pois sou muito, muito apaixonada pela escrita, pela edição de texto e pela vontade de encontrar a sequência de palavras perfeitas.

O projeto “Pairing Portugal” colocou poemas dentro da experiência de provar um vinho. O que te atrai nestes encontros improváveis entre poesia e outras linguagens?

Tenho tido a felicidade de participar em projetos onde a poesia encontra formas muito inesperadas de existir. Gosto desses encontros improváveis, porque me obrigam a sair da minha zona de conforto. No projeto “Pairing Portugal”, por exemplo, 100 poetas foram convidados a escrever textos inéditos a partir de um lugar específico. O local que me foi atribuído foi o Centro Interpretativo do Boneco de Estremoz, que visitei pela primeira vez com os meus pais. Durante uma visita guiada fui descobrindo a história destas figuras e, pouco a pouco, começou a surgir o texto. Acabei por construir um poema inspirado em três figuras femininas dos Bonecos de Estremoz, representando o humano, a terra e o divino. Abre com referências à figura da “Dama a Ler a Carta”, de Afonso e Matilde Ginja, revelando a sua intimidade à luz de um candeeiro a petróleo. Prossegue com a peça “Outono”, de Isabel Catarrilhas Pires, numa celebração da terra e dos ciclos da vida. Termina com a “Rainha Santa Isabel”, de Jorge da Conceição, onde o milagre das rosas e a devoção popular elevam o artesanato a uma dimensão espiritual. Dei-lhe o título “Durante o mais santo dos dias”.

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Se tivesses de escolher um poema português e um poema estrangeiro que gostarias que toda a gente lesse, quais seriam? Que referências são absolutamente obrigatórias, aos teus olhos?

Se tivesse de escolher um poema em português, seria “Outro”, de Cortes-Rodrigues, publicado em 1914. É um poema que me acompanha para todo o lado. Regresso a ele vezes sem conta e sinto-o do princípio ao fim, sem me prender demasiado ao significado literal de cada verso. Quanto à poesia estrangeira, escolheria “Fever Dreams”, de Emily Marie Passos Duffy. Nos últimos anos desenvolvi um carinho muito especial por esse poema e tem um significado pessoal, por ter sido o primeiro que traduzi do inglês para português. Pode ser encontrado no livro “Hemorrhaging Want & Water” (2023, Perennial Press). Algumas das vozes que continuam a inspirar a minha escrita são Florbela Espanca, Sylvia Plath, Clarice Lispector, Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, José Régio, entre tantos outros exemplos.

Olhando para a Ana Cláudia Santos de 80 anos… o que entendes que ela poderá dizer à Ana Cláudia de 30 anos? O que te ensinarás [sorriso rasgado]?

Não consigo imaginar a Ana Cláudia de 80 anos, mas gosto de pensar que ela me diria para aproveitar melhor o sol, a praia, a lua e o vento. Talvez me dissesse que nem tudo na minha vida tem de ser poesia, mas que se for esse o meu caminho, o devo seguir sem medo. Acredito que me diria que a aventura com que tanto sonho está apenas a começar. E talvez acrescentasse que toda a magia em que acredito, assim como os feitiços que um dia imaginei poder fazer através da escrita e da imaginação, acabarão por acontecer. Não de uma só vez, nem à velocidade que eu gostaria, mas ao seu próprio ritmo. Basta continuar a arriscar, com atenção e encantamento.

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