Paula Cristina Cunha, doutorada em Ciências Sociais, Administradora da Sociedade Portuguesa de Autores e autora, sentou-se à conversa com 11 outros autores, de uma mancha diversa de disciplinas artísticas, para auscultar, mapear e estruturar ideias à volta da Inteligência Artificial (IA), seus consumos e impactos na vida e no trabalho artístico (o que pressupõe dizer: na sociedade). Coligir as 11 entrevistas com a precisão intencional de promover um diálogo (ainda) mais aberto e plural permitiu entregar à Gradiva o livro que temos agora em mãos: Entre a Arte e o Algoritmo.
Sabemo-lo: a IA já mudou radicalmente a nossa vida e, como em todas as mudanças tecnológicas que se sucederam desde o alfabeto – considerado por investigadores, como Marshall McLuhan (1911-1980), a mais importante invenção tecnológica de sempre –, a IA altera profundamente a forma como pensamos, percecionamos o real e nos relacionamos.
Ora, observar este paradigma tecnológico, mas também comunicacional, social, económico e político à luz da cultura e da arte remete-nos para o ângulo dos autores e dos artistas e de como os territórios culturais e artísticos, tão importantes para compreendermos o mundo e para nos compreendermos, podem ser aproveitados, usurpados ou exponenciados. Como disse Melvin Kranzberg (1917-1995), um dos maiores historiadores da tecnologia: «ela não é boa, nem má, e que também não é neutra».
Logo na introdução, Paula Cristina Cunha lança a pedrada no charco: «Onde fica o lugar do autor, que enfrenta uma presença nova e estranha: uma máquina que sugere, que completa, que propõe, que imita, que aprende?» Esta nova era trazida por Alan Turing e John McCarthy nos anos 50 começou, de facto, por colocar essa pergunta em cima da mesa. O que nunca se imaginou foi a profundidade dessa capacidade de a máquina “pensar” como um humano, transformando «as nossas vidas para além do que alguma vez teríamos ousado pensar».
Gonçalo M. Tavares, Rita Redshoes, André Letria, Paulo Furtado, Rui Filipe Reis, Helena Amaral, Pedro Abrunhosa, Milhanas, Sam The Kid, Tozé Brito e José Jorge Letria, por esta ordem, são os convidados de Paula Cristina Cunha nestas conversas absolutamente deliciosas e plurais, em que nos apetece participar, intervir, ser parte da discussão, que é indiscutivelmente coletiva e pode, e deve, integrar diferentes ângulos.
A perspetiva multidimensional que a leitura do livro me inspira leva-me a sublinhar, da conversa com Gonçalo M. Tavares, que «se nós estivermos só fixados no output, no final, acho que estamos, de alguma maneira, a boicotar ou a ignorar o que, no meu entender, é talvez o mais importante na arte humana, que é o processo». Surge-nos, assim, um itinerário de preservação do fazer, não apenas do feito. Com Rita Redshoes, vem a separação clara entre o artificial e a «carga emotiva» e, com André Letria, somos levados para a força do pensamento: «(…) esta coisa do trabalho autoral não tem só a ver com aquilo que se produz na ponta da caneta ou do pincel. Tem, sobretudo, a ver com o pensamento». Já Paulo Furtado traça a linha filosófica entre a ferramenta e o artista/criador: «(…) a IA é uma ferramenta, não é um artista».
E eis que entramos, com o avançar das entrevistas, em reflexões consensuais sobre a natureza da perfeição. Rui Filipe Reis reforça a dualidade perniciosa e desnorteante desta ferramenta: «(…) tanto tem de admirável, como de preocupante», desconstruindo essa perfeição insustentável que a máquina traz e lembrando-nos sobre essa fantástica «imperfeição que nós temos de que talvez os deuses tenham tantos ciúmes». Helena Amaral reelabora e diz: «(…) a imperfeição humana é tão perfeita que é difícil, talvez até quase impossível, ensiná-la». Numa mesma linha, Pedro Abrunhosa fala da natureza disruptiva do artista, por contraponto com a máquina: «(…) a incapacidade de a IA ser disruptiva é que continua a ser o grande trunfo dos criadores». Esse lugar inacessível da arte, contudo, é visto na entrevista com Milhanas como algo que se confundirá a prazo com o que a máquina efetivamente poderá recriar, com a nota de que aquilo que preocupa é, precisamente, a indiferença que essa mistura causará nos utilizadores.
Sam The Kid contribui para um exercício de desconstrução da IA como «bicho-papão», renegando o medo, mas apelando ativamente a uma atitude de consciência. Tozé Brito chama a atenção para a «meia dúzia de pessoas e empresas» que serão beneficiadas com a IA, o que se repercutirá numa ainda maior e mais brutal desigualdade. José Jorge Letria, na última entrevista abrangida no livro, transfere-nos para «(…) a vontade de escrever associada a um conteúdo específico» vindo do interior, das entranhas, da voz pessoal e intransmissível que cada autor tem.
A nossa mestre na condução das conversas, Paula Cristina Cunha, cose com habilidade e elegância o fio condutor do livro: quando uma máquina produz imagens, música ou texto convincentes, estará verdadeiramente a criar ou apenas a recombinar padrões humanos? E, nessa respiração palpitante entre uma coisa e outra, a autora das 11 entrevistas repete, fervorosamente, os três desígnios que tem levado com assertividade a Bruxelas: transparência, consentimento e remuneração.
O tom usado no livro traduz um importante humanismo crítico: não apresenta a IA como inimigo absoluto, nem como solução milagrosa. Trata-a como uma realidade inevitável que exige lucidez, debate público e a consciência do que torna a criação humana singular e irrepetível: a vulnerabilidade, a biografia, o desejo, a dúvida e a relação com os outros.
Saímos desta leitura com a convicção renovada de que o mundo tem tantas e tantas formas de poder ser olhado e que a IA, como todas as coisas desconcertantes e improváveis que, simultaneamente, nos deslumbram e intimidam, pode e deve ser vista como um recurso, uma ferramenta, um instrumento de apoio. Mas não se sobreporá, (ainda) reina essa constatação, à famigerada «centelha humana».
Pedi à IA um retrato do mesmo livro e eis o que me deu (conseguem perceber a diferença para o meu próprio retrato?):
Entre a Arte e o Algoritmo – Criadores portugueses confrontam a Inteligência Artificial, de Paula Cristina Cunha, é um livro de conversas e reflexão cultural, mais do que um tratado técnico sobre inteligência artificial. Parte de uma pergunta decisiva: quando uma máquina produz imagens, música ou texto convincentes, estará verdadeiramente a criar — ou apenas a recombinar padrões humanos?
A autora conversa com criadores portugueses de áreas diversas, entre os quais Gonçalo M. Tavares, Pedro Abrunhosa, Rita Redshoes, Sam the Kid, André Letria, Helena Amaral, José Jorge Letria, Milhanas, The Legendary Tigerman, Tozé Brito e Rui Filipe Reis. A pluralidade de vozes é, precisamente, um dos seus pontos fortes: em vez de impor uma tese única, o livro põe artistas e pensadores a confrontarem inquietações, expectativas e reservas perante a IA.
O centro do livro não é apenas a pergunta “a IA vai substituir-nos?”, mas questões mais fundas:
- Pode haver arte sem experiência vivida, memória, corpo, falha ou consciência?
- O que acontece à autoria, aos direitos dos criadores e à singularidade artística?
- Onde começa a colaboração entre humano e máquina — e onde começa a substituição?
- Como evitar que a cultura e a atenção sejam moldadas exclusivamente por lógicas algorítmicas?
- Que liberdade resta quando a tecnologia não só facilita, mas também vigia, influencia e manipula?
O seu tom parece ser de humanismo crítico: não apresenta a IA como inimiga absoluto, nem como solução milagrosa. Antes, trata-a como uma realidade inevitável que exige lucidez, debate público e defesa daquilo que torna a criação humana irrepetível: a vulnerabilidade, a biografia, o desejo, a dúvida e a relação com os outros.
Assim, o livro terá especial interesse para leitores de cultura, artes, comunicação e tecnologia que procurem uma entrada acessível no debate português sobre IA — não através da engenharia dos algoritmos, mas daquilo que eles põem em causa na nossa ideia de arte e de humanidade.
Publicado pela Gradiva em julho de 2026, tem 192 páginas e é coeditado com a Sociedade Portuguesa de Autores. A sinopse e a ficha editorial podem ser consultadas na Gradiva.


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