Publicado em 1943 e, no ano a seguir, reconhecido com o prestigiado Prémio Graça Aranha de melhor romance de estreia, Perto do Coração Selvagem, da inigualável Clarice Lispector, distingue-se por escavar e aprofundar o mundo interior da personagem principal, Joana. Ao chegar às mãos do público, este título materializou um momento de rutura com a literatura brasileira até aí publicada, rompendo pela sua originalidade com tudo o que se tinha visto antes. Surgiu como uma espécie de mudança de gravidade na literatura do século XX brasileira.
Mais do que contar uma história marcada por acontecimentos exteriores e meramente sequenciais, Clarice procura revelar pensamentos, sensações, dúvidas e emoções que surgem no íntimo da protagonista, desafiando uma busca existencial universal. Joana é uma personagem complexa, independente e inquieta. Desde criança, desde o tempo em que não sabia o que fazer depois de já ter feito tudo, demonstra uma personalidade diferente daquilo que os outros esperam dela. Recusa aceitar passivamente as regras e convenções sociais e procura compreender quem é e qual o sentido da sua existência. Essa necessidade de liberdade faz com que muitas vezes se sinta incompreendida e isolada.
Ao longo do romance, acompanhamos a sua relação com o marido, Otávio, e com outras personagens que fazem parte da sua vida. No entanto, os acontecimentos exteriores que das várias relações advêm são, estrutural e frequentemente, menos importantes do que aquilo que acontece dentro de Joana. «A vida em comum era necessária exatamente para viver os outros momentos (…)». A personagem vive num constante confronto consigo própria, questionando o amor, a liberdade, a moral, a felicidade e a própria identidade.
Um dos aspetos mais marcantes da obra é a introspeção. Clarice utiliza uma escrita muito próxima do pensamento, ao estilo Virginia Woolf no seu fluxo de consciência, permitindo ao leitor acompanhar as associações de ideias, as recordações e as sensações de Joana, causando a perceção de espontaneidade em que esse fulgor do pensamento ocorre. Por vezes, a narrativa abandona uma sequência temporal linear e passa naturalmente do presente para o passado ou para uma reflexão interior. Esta técnica aproxima-nos da consciência da personagem, como se cada um de nós, enquanto leitores, estivéssemos embebidos no pensar e no sentir de Joana.
A linguagem de Clarice é, igualmente, uma das grandes marcas do romance: poética, subjetiva e, em alguns momentos, enigmática. A autora não apresenta respostas definitivas: convida o leitor a participar na procura de significado com palavras, tantas vezes difíceis de encontrar, que traduzam sentimentos, desejos, angústias e estados de espírito. Para traduzir melhor os estados de alma de Joana, por sinal rotineiros: «Havia o perigo de se estabelecer no sofrimento e organizar-se dentro dele, o que seria um vício também e um calmante».
Entre os principais temas da obra destacam-se, nessa linha, a procura da identidade, a liberdade individual, a solidão, o amor, a existência e o conflito entre o indivíduo e as normas sociais. Joana representa, em grande medida, uma mulher que procura viver de acordo com aquilo que sente e pensa, mesmo quando isso significa afastar-se das expectativas impostas pela sociedade: «Continuo sempre me inaugurando, abrindo e fechando círculos de vida (…)».
Para além de ter chegado ao panorama literário brasileiro como um raio (nuca ninguém tinha visto nada assim), Perto do Coração Selvagem teve a virtude de desviar, aliado às circunstâncias em que foi escrito e à singularidade da autora que o escreveu, o curso de uma literatura inteira. Baseou-se, para isso, na soberania narrativa de uma personagem descrita como «tristemente uma mulher feliz». E isto, para além da dimensão política implícita a quem está atento às misérias antropológicas e sociológicas do seu tempo, dará que pensar, tanto mais quanto menos conhecemos Clarice.
Ora, Perto do Coração Selvagem é profundamente psicológico e inovador. Clarice coloca o mundo interior de uma personagem no centro da narrativa e transforma a procura de Joana, por si mesma, numa reflexão mais ampla sobre a condição humana. O título da obra sugere, precisamente, essa aproximação a uma dimensão mais instintiva, livre e profunda do ser humano: um lugar onde razão, desejo, medo e liberdade se encontram e contaminam, mostrando que é de tudo isso que o ser humano se faz.
Para lá chegar, Clarice serve-se de uma personagem que não sabe dizer quem é. E é essa ironia latente, justamente, que nos remete para a complexidade do que (ainda) somos.

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