Habituámo-nos à visão prospetiva do Papa Francisco, ancorada num coração inteligente, apologista de uma ecologia integral, inseparável das componentes económica e social e, ainda, de uma inovação tecnológica orientada por valores de justiça, mais uma vez, económica e social. Foi o Papa, dado o tempo do seu pontificado, que alertou para a importância de uma educação para o digital, de saber como validar fontes, cruzar informações, introduzindo a pergunta: «Vamos agir gerando mais desigualdade e ser alimento de algoritmos ou queremos usar a IA como instrumento que promove o desenvolvimento»? E eis que o seu digno sucessor nos faz chegar às mãos, depois de um tempo inicial de silêncio, observação e desenho de ação e estratégia, a Magnifica Humanitas – Carta Encíclica, uma gramática urgente para a interpretação da Inteligência Artificial (IA) com a pessoa, incondicionalmente, no centro. É a proposta irreverente, lúcida e corajosa do nosso atual Papa Leão XIV, na sua primeira encíclica.
Traduzindo o título do latim, alcançamos as palavras A Magnífica Humanidade, às quais Leão XIV acrescenta o subtítulo: “Sobre a salvaguarda da pessoa humana na Era da Inteligência Artificial”. Sendo uma encíclica, e para mais de estreia, não deve ainda assim cingir-se à curiosidade de fiéis por todo o mundo. Este texto, no tempo em que é escrito, é lancinante e, por isso, obrigatório. Devia, a meu ver, ser lido por (e agora volto ao Papa Francisco) «todos, todos, todos». Porquê? Perguntar-me-ão. E bem. Como nos diz Antonio Spadaro, SJ na apresentação, o que esta obra faz é mais do que «formular avisos inteligentes à margem do debate». Como o autor da encíclica refere, «a IA não bate à porta: já está dentro de casa».
Surge, pois, a urgência de que todos façamos parte de uma tomada de consciência sobre uma «revolução que está a reescrever as coordenadas da experiência: a forma de trabalhar, de comunicar, de informar-se (…)». Como é que algum de nós, sendo atingido por um raio desta natureza, pode sequer imaginar-se de fora da reflexão (e da ação) sobre a melhor forma de lidar com ele e de a partir dele, desse raio, repensar o próprio desenvolvimento? A questão que se coloca já não é exclusivamente tecnológica, mas ontológica, substantiva sobre a vida humana. Estamos todos no centro deste texto.
Parte da consciência determinante de que a IA coloca uma «escolha decisiva: erguer uma nova torre de Babel ou construir a cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos». Ou seja, queremos «o sacrifício da dignidade das pessoas em nome da eficiência» ou a redescoberta de «uma linguagem comum, não a da uniformidade, mas a da comunhão», transformando a diversidade em recurso?
Surgem no texto, colateralmente, outras questões, quando mergulhamos sobre as características da IA: «(…) a inteligência humana saberá manter-se humana perante a tentação do desempenho absoluto»? E este é apenas um dos paradoxos que apanhamos na leitura deste texto, que nos lança na leitura do próprio tempo em que vivemos. O livro convoca-nos, aliás, para vários ângulos, referências e competências de que necessitamos para «apreender toda a amplitude do fenómeno».
E encaramos de frente a evolução que a IA também nos proporciona, mas mais uma vez com consciência: «Se o desenvolvimento tecnológico avança sem uma maturação ética e social adequada, pode acontecer que os meios aumentem sem que a Humanidade cresça na mesma medida: “tem-se mais”, mas não “se é mais”, e a pessoa corre o risco de ser avaliada sobretudo com base no desempenho que garante».
No texto, há alertas que devemos ler com curiosidade viva e atenção intelectual, dada a subordinação em que a IA nos coloca: «(…) como uma forma de escravatura contemporânea» e um «colonialismo digital como a nova forma de extrativismo». O Papa Leão XIV clarifica com uma comparação simples, aplicando a mesma lógica, quer à economia dos algoritmos, quer à terra na tradição católica quando os bens permanecem concentrados em poucas mãos: «cria-se um novo desequilíbrio que contradiz a destinação universal dos bens e alimenta o fosso entre incluídos e excluídos».
Esta nossa encíclica chama a atenção, previsivelmente, para a não neutralidade da IA, já que encerra os interesses dos que a «concebem, financiam, regulam e utilizam». E a reboque desta espécie de loucura consentida, o Papa introduz uma palavra-chave: «desarmar» como o termo mais urgente para desmantelar a concentração do poder tecnológico e celebrar, afinal, a chamada «civilização avançada».
Aqui, encontramos também uma homenagem profunda à atenção e, ao mesmo tempo, ao combate a uma «cultura do imediatismo» e da «hiperestimulação», lembrando que as coisas profundas carecem de tempo e esforço, condicionantes não conciliáveis com o scroll infinito e o nanossegundo em que o olhar se aguenta atento. De forma latente, inevitavelmente, remete-nos para a verdade, à qual nos devemos manter fiéis, investindo numa educação consciente, cuidando das nossas relações, amando a justiça. Neste mundo polarizado, não será esta, afinal, a forma mais assertiva, radical e intransigente de presença e resistência?…
Dizer, em jeito de acérrimo manifesto, que perante as formas inequívocas de desumanização trazidas com a IA, temos a responsabilidade e «o dever urgente de permanecer profundamente humanos». Em razão disso, este é um tema que exige uma qualidade diferente do nosso olhar, desde logo para as minorias e o bem comum. Para a importância de termos um «projeto partilhado», de sabermos através da cultura e da arte conservar centelhas do humano e evitar a normalização do mal. E é com esse olhar, justamente, que saímos desta leitura tutelar, vital, nevrálgica.
O que a Magnifica Humanitas – Carta Encíclica nos dá, em síntese, é um quadro de princípios (não moralista) para ler e viver a transformação em curso que, como recorda o autor, vive connosco na nossa casa, sem que nos lembremos do dia em que lhe abrimos a porta. E que exige saber, sem condescendências (e, provavelmente, mais do que nunca), «promover todos os homens e o homem todo», para citar, como o Papa Leão XIV o faz, também Paulo VI.
Este desafio é, sem grande margem para erro, o grande estaleiro de obras do tempo que nos cabe viver. Ergamos os braços, porque a obra que nos espera não é curta, ainda que possa ser maravilhosamente bela, de tão humana. É nesse ponto que a Humanidade se torna magnífica, não sendo esta – não podendo ser – uma esperança ingénua e vã.


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