Este é o segundo romance de Anabela Mota Ribeiro, vindo após O Quarto do Bebé, também aqui retratado, ambos da Quetzal Editores. Neste, possivelmente uma obra gémea e expandida do primeiro, continua a ser central a ideia de casa, «que é o corpo, que é o mundo», como lemos na contracapa. No romance de estreia, a autora fechava-nos na clausura interior e reflexiva da pandemia e das ausências. Aqui, a narrativa abre-se numa arqueologia dolorosa das fundações: a casa, a mãe, a pertença e o corpo. Surge como um verbo vivo, de rompante, vindo das entranhas: «Escrever para me suturar».

Anabela Mota Ribeiro faz um grito de tamanha beleza literária neste seu livro, com uma consistência e solidez página após página, com palavras que são parágrafos inteiros, escolhidas a dedo, e parágrafos que são eles próprios um livro, escritos lá do fundo de quem se é. Aqui, neste seu livro, encontramos uma miríade de livros. Com a espinha dorsal deitada sobre a casa.

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Ao desmanchar a casa do pai recém-falecido, um psicanalista de renome, a protagonista Conceição depara-se com novos cadernos de Ester, a paciente e estudiosa de Machado de Assis introduzida no primeiro romance da autora. Este achado desencadeia um espelho vertiginoso de orfandades cruzadas. Conceição chora a ausência do pai que partiu. Ester vive a agonia suspensa de uma mãe em coma num leito de hospital. E por aí corre uma escavação sociológica, uma ida ao fundo da condição social, a partir da figura tutelar da mãe: «A minha mãe é o meu assunto, o único assunto».

No quarto assético em que visita a mãe em coma, Ester lê os seus escritos em voz alta, como quem realiza uma autópsia em carne viva de si mesma. Mas aquela mãe, imóvel e em silêncio, não é apenas inacessível pela inconsciência clínica: tornou-se-lhe estrangeira muito antes. Há aqui a marca crua da «trânsfuga de classe», esse conceito caro à literatura de Annie Ernaux, que Anabela Mota Ribeiro tão bem domina e traduz para o contexto português. A filha que estudou, que ascendeu pelo pensamento e pela linguagem, carrega uma culpa visceral e um abismo por ter deixado de caber no léxico e no mundo operário e austero da casa materna. Sem se aperceber exatamente quando se partiu o fio: «Quando me tornei para a minha mãe uma língua estrangeira?».

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Neste retrato intimista, a escrita recusa o ornamento fácil e opera por incisões profundas. A narrativa deambula entre os dois polos da existência humana, o presépio e o cemitério, o nascimento e a finitude, desvelando a experiência da ausência de líbido, esse estado de aridez em que o desejo amoroso e a própria pulsão de vida parecem ter desertado. Nesse estado de latência da própria vida, o romance promove uma busca filosófica sobre o lugar ao qual se pertence, enquanto impera uma despertença e uma desconfiança sobre se se é, «na melhor das hipóteses, de um lugar no meio».

Há nesta prosa, a propósito desta «zanga bíblica», um ritmo obsessivo e curativo, em que o labor do pensamento procura costurar os fragmentos da memória, do inconsciente e do onírico. Na Casa da Minha Mãe interpela, com coragem, o dito e o não-dito das linhagens familiares. Introduz as flutuações da vida, fazendo induzir que nem sempre nos damos conta do clímax que protagonizamos: «Uma pessoa aprende muitas coisas sem perceber que está a aprender as coisas mais importantes da vida».

Ler este romance mergulha-nos numa viagem às origens como exercício de resposta à mais universal e sacramental das perguntas: o que resta de nós quando a casa da infância se desfaz e somos obrigados a habitar, desarmados, «sozinhos no mundo» o nosso próprio corpo? Que é como diz: o nosso verdadeiro eu.

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