P ensar no percurso e no trabalho fotográfico de Isabel Nolasco coloca-nos perante esse colosso da vida humana: a possibilidade de se cruzarem uma reinvenção pessoal e uma vocação artística latente, com a maturidade testada e uma inequívoca paixão visual a coserem forma, conteúdo e significado. Isto é incomensurável e tem vindo, no caso da Isabel, regado a medidas avassaladoras de beleza. Somando três décadas corporativas dedicadas ao Direito, com funções de liderança de equipas e projetos de referência no setor das comunicações, Isabel oficializou ao mundo o disparo na objetiva enquanto viveu, numa passagem marcante de quase 10 anos, em Timor-Leste. Nesse contexto internacional, e ainda exercendo consultoria jurídica, fez uma transição orgânica para a fotografia documental e a street photography, remexendo no baú de uma profundidade artística rara, decalcada na sensibilidade para ver o outro, mostrar quem é, num conto imagético sobre culturas plurais, cores múltiplas, rostos de diferentes origens, agregados num mesmo tecido humano com maestria, elegância e genuína compreensão do diverso. Com formação no Instituto Português de Fotografia e na World Academy, foi distinguida nacional e internacionalmente e mantém uma forte presença de partilha cultural, através de publicações, exposições ou do testemunho em fóruns da especialidade. Conserva a lente apurada na moldura natural em que atualmente reside, na Ilha do Faial, nos Açores, onde tem ligado a fotografia ao conhecimento etnográfico local, enquanto intervala as viagens que a espantam e deslumbram.
O ato de ver começa muito antes do clique. Quando olhas para trás, para mais de trinta anos dedicados ao Direito, reconheces que já aí existia uma fotógrafa à procura da verdade das coisas, ou a fotografia foi uma rutura absoluta? Aliás, reformulando, quando é que os teus olhos se educaram para fotografar?
Hoje, acredito que o ato de ver começou muito antes de eu pegar numa câmara. Penso que esteve sempre presente em mim o ato de ver e, sobretudo, de observar, de me encantar com pequenos detalhes e momentos. O direito, incluindo as funções de gestão, que exerci (e exerço hoje novamente) treinou-me para prestar atenção aos detalhes e tentar compreender os enquadramentos de cada situação. Olhando para trás, talvez reconheça que já tinha em mim um olhar que, de algum modo, era também o de uma fotógrafa, ainda que eu não tivesse consciência disso.
Quando comecei a fotografar, percebi que continuava à procura de alcançar o mundo (…).
Não sei se a fotografia foi ou não uma mudança absoluta. Só sei que sempre gostei de fotografia e costumava dizer que, quando me reformasse, haveria de tirar um curso para aprender mais e conseguir registar com qualidade aquilo que os meus olhos viam. Talvez tivesse também a ver com o meu desejo de liberdade. Entretanto, a minha vida profissional teve uma viragem inesperada e, a certa altura, pensei: se este é o momento de mudar, então também é o momento de concretizar esse desejo antigo. Quando comecei a fotografar, percebi que continuava à procura de alcançar o mundo, descobrir outros dentro dele e captar tudo o que para mim faz sentido. A fotografia talvez tenha dado uma nova linguagem a uma perceção antiga: a vontade de olhar o mundo sob várias perspetivas, descobri-lo através dos meus olhos, mas desta vez através da luz, do tempo e da imagem.
O teu livro de estreia intitula-se Latitudes da Semelhança. Num tempo tão marcado pela polarização e a exaltação das fraturas, a tua fotografia afirma-se mais (ainda) hoje como um manifesto sobre o que nos pode e deve unir?
Sem dúvida que essa mensagem continua muito presente no meu trabalho, talvez até mais atual hoje do que quando publiquei Latitudes da Semelhança. O livro nasceu precisamente da vontade de mostrar que, por detrás das diferenças culturais, religiosas, geográficas ou sociais, existe um património comum que nos une enquanto seres humanos. Durante a viagem que fiz ao Médio Oriente, procurei captar e mostrar depois com o Latitudes da Semelhança não apenas aquilo que nos distingue, mas sobretudo aquilo que nos une: os afetos, os sonhos, a relação com a família, o trabalho, os rituais, a alegria e a dor que todos partilhamos, independentemente da nossa latitude.
As minhas fotografias não negam as diferenças, antes as celebram e mostram que, no essencial, partilhamos todos a mesma condição humana.
Vivemos tempos em que se enfatizam as divergências, há uma polarização que se alimenta de fronteiras físicas e humanas, de preconceitos perigosos. Quero acreditar que com a fotografia me permito fazer o caminho inverso: imprimir-lhe um cunho humanista, criar pontes, empatia e lembrar que somos todos seres humanos com direito de existir e de ter as suas aspirações. As minhas fotografias não negam as diferenças, antes as celebram e mostram que, no essencial, partilhamos todos a mesma condição humana.

Viveste quase uma década em Timor-Leste, experiência que te lançou as bases para o teu segundo livro publicado, Timor-Leste, Do Paraíso | Husi Paraízu, além de simbolizar o território em que te dedicaste assertivamente à fotografia. Que condições consideras que contribuíram para essa atitude nova (posso dizer assim)?
Sim, pode dizer-se que foi em Timor-Leste que surgiu essa nova atitude (proativa) perante a fotografia. Embora o interesse e alguma formação já existisse, foi lá que tive verdadeiramente tempo, espaço e estímulo para desenvolver um olhar fotográfico mais consciente. Como bem sabes, Timor-Leste convida-nos a olhar devagar e a contemplar. A força da paisagem, a luz, o mar, as montanhas e uma natureza muitas vezes ainda intocada despertam-nos sempre uma olhar especial e, muitas vezes, até comovido.
Quando olho para trás, vejo Timor-Leste não apenas como o lugar onde fotografei mais, mas como o lugar onde verdadeiramente me tornei fotógrafa.
Mas o que mais me marcou foram as pessoas. O sorriso, a generosidade, a dignidade perante as dificuldades e a condição do povo timorense constituem um privilégio para quem fotografa. Muitos dos retratos e momentos que fiz nasceram dessa proximidade com as pessoas e da vontade de preservar fragmentos do seu quotidiano, das suas histórias e da sua esperança. Em Timor-Leste, convivi, ainda, com a comunidade de fotógrafos e apaixonados pela fotografia que lá viviam. Com eles aprendi, troquei experiências, participei em atividades ligadas à fotografia e desenvolvi conhecimentos técnicos e de edição. Esses encontros ajudaram-me a crescer muito, não apenas como fotógrafa, mas também como pessoa. Por isso, quando olho para trás, vejo Timor-Leste não apenas como o lugar onde fotografei mais, mas como o lugar onde verdadeiramente me tornei fotógrafa.
Viajas com frequência pelo Sudeste Asiático e pelo Médio Oriente. De que modo o contacto assíduo com estas culturas transformou a tua cosmovisão e é importante para a tua leitura do mundo e do tempo atuais?
Desde que regressei de Timor-Leste, as viagens ao Sudeste Asiático e ao Médio Oriente tornaram-se naturalmente mais esparsas. Ainda assim, as experiências que vivi nessas regiões tiveram um impacto profundo e duradouro na forma como vejo o mundo. São culturas muito diferentes entre si, mas que me ensinaram a questionar muitas das ideias que, no Ocidente, tendemos a considerar universais. Como, por exemplo, a nossa relação com o tempo, marcada pela pressa e pela produtividade, ou a tendência para colocar o indivíduo no centro de tudo. Nesses países, encontrei uma maior valorização da vida comunitária, da espiritualidade, do respeito pela tradição e de ritmos mais lentos, sem que isso signifique menor riqueza humana ou menor qualidade de vida, antes o contrário. Talvez a importância dessas viagens seja a consciência de que o mundo é muito mais rico e interessante do que as narrativas simplificadas e preconceituosas que construímos sobre ele.
A tua obra recorre com frequência ao preto e branco, com contrastes vincados e uma estética crua. Posso dizer assim, mais uma vez? É uma escolha para despir a imagem do ruído, ou seja, uma forma de procurar a essência das coisas num específico momento?
Talvez sim, seja uma procura da essência. Recordo-me muitas vezes de uma frase de Peter Lindbergh (fotógrafo pouco convencional que faz fotografia de moda a preto e branco) que me marcou: «A fotografia a preto e branco atravessa a pele, enquanto a cor fica sobre a pele». Creio que a fotografia a preto e branco tem uma espessura e uma intemporalidade particulares e talvez seja isso que procuro nas imagens que faço. O preto e branco é, antes de mais, a minha principal e preferida linguagem estética. Mas é também uma forma de eliminar distrações e de dirigir o olhar para aquilo que considero único: a expressão, o gesto, a emoção, a luz, a sombra e a história que a fotografia contém. Ao retirar a cor, somos convidados a olhar de outra forma e a concentrar-nos mais na mensagem da imagem.
Definem a sua identidade autoral o foco na condição humana e na empatia, materializado no retrato das pessoas, suas expressões espontâneas vestindo histórias inefáveis com origem, sobretudo, no Sudeste Asiático e no Médio Oriente; a ideia de que, apesar das distâncias geográficas, culturais ou sociais, existe uma universalidade profunda nas emoções e na essência humana; e uma linguagem visual e técnica dignificante dos retratados.
Na street photography, o fotógrafo trabalha na corda bamba entre o instante fugaz e a composição rigorosa. Como se cultiva essa paciência e essa presença absolutas?
Aí está A pergunta. Sem dúvida que a fotografia, e neste caso a street photography é uma procura constante. E às vezes também envolve frustração. Penso muitas vezes no “instante decisivo” de Henri Cartier-Bresson (um dos fotógrafos que sempre me inspirou), aquele momento único e irrepetível em que tudo se conjuga: a luz, a expressão, a composição. Quem é fotógrafa de rua, como eu, vive à procura desse instante, sabendo que ele surge sem aviso e desaparece em frações de segundo. Por isso, são mais as fotos que se “perdem” do que as que se conseguem. Mas também faço muitas fotografias sem câmara. Vejo cenas que me fazem pensar: «esta era uma fotografia». Quem me dera conseguir captá-los todos no exato momento em que acontecem, o que é impossível. Muitas dessas imagens ficam apenas na memória, e talvez isso também faça parte do encanto da fotografia. Quanto à paciência e à presença, creio que se cultivam precisamente nessa atenção permanente ao mundo que nos rodeia. Como dizia Dorothea Lange, fotógrafa americana famosa por ter registado o impacto da grande depressão nos EUA, «a câmara é um instrumento que nos ensina a ver sem câmara». Aprendemos a observar, a esperar e a aceitar que nem sempre conseguimos captar aquilo que vemos. Mas a esperança nunca desaparece, porque existe sempre a ideia de que a próxima fotografia poderá ser “a fotografia”, aquela em que tudo se alinha e que consegue traduzir, numa imagem, um momento que depois se esfuma no tempo.
E como ganhas a confiança das pessoas para te aproximares e registares? Como é esse laço dado com o retratado?
Não existe uma fórmula única. Sempre que posso, aproximo-me das pessoas: sorrio, pergunto-lhes o nome, tento conversar um pouco e criar um momento de empatia. Muitas vezes, faço a fotografia primeiro e, só depois, mostro a imagem como forma de iniciar esse contacto. A fotografia acaba por ser também um pretexto para conhecer pessoas e ouvir pequenas histórias que, de outra forma, nunca chegaria a conhecer. Outras vezes, esse contacto simplesmente não acontece. Há momentos tão espontâneos que a fotografia tem de ser feita no instante em que surge, sem hesitação. Nesses casos, a pessoa pode até nem se aperceber de que foi fotografada. Contudo, tenho sempre uma preocupação muito grande com a dignidade e a privacidade das pessoas. Hoje, mais do que nunca, temos de refletir sobre as implicações da exposição da imagem de alguém. Por mais tentador que seja captar uma fotografia única, procuro que o resultado nunca seja intrusivo, humilhante ou desrespeitador. O mais importante não é apenas fazer a fotografia, mas poder fazê-la sem trair a confiança implícita que existe entre quem fotografa e quem é fotografado.
Nos Açores, onde atualmente resides, na Ilha do Faial, onde já me recebeste e tão bem, dás profundidade ao teu trabalho de conhecimento, interpretação e revelação de perfil etnográfico. O que aprendeste com os picarotos (nome popular dado aos naturais da ilha do Pico), que estão na base do teu terceiro livro Da Vinha ao Vinho?
Com os picarotos, aprendi uma lição de quase teimosia e de paciência. A cultura da vinha no Pico nasceu da capacidade de transformar um território difícil numa fonte de sustento e identidade. A paisagem dos currais construída ao longo de gerações para proteger as vinhas do vento e do mar resulta de um esforço humano extraordinário, daí também se designar de “vinha heroica”. O livro Da Vinha ao Vinho, que realizei em coautoria com a arquiteta paisagista Cláudia Ávila Gomes, presta também homenagem à Paisagem da Cultura da Vinha da Ilha do Pico, classificada como Património Mundial da UNESCO, um património singular que constitui um dos mais fortes símbolos da identidade açoriana. No livro, que também tem uma versão em inglês (From Vine to Wine), procurei retratar, não apenas a singularidade da paisagem, mas também as pessoas que a mantêm viva, homenageando o trabalho, o saber acumulado e a persistência de uma comunidade que fez do desafio uma forma de vida. Mais do que falar de vinho, quisemos contar uma história de resistência, de memória e de profunda ligação à terra. Foi um projeto muito gratificante e que nos trouxe muito conhecimento.
O que cose, do teu ponto de vista, todos os teus livros?
Se tivesse de encontrar um elemento comum aos meus livros, diria que é a vontade de guardar aquilo que o tempo faz desaparecer. Seja um ritual religioso no Médio Oriente, um modo de vida em Timor-Leste ou a cultura da vinha no Pico, existe sempre a intenção de registar realidades, memórias e formas de estar que merecem ser observada, divulgadas e lembradas. Também os une uma grande curiosidade pelo mundo, uma procura que não acaba nunca. Nunca fotografei com ideias feitas, mas para compreender melhor aquilo que desconheço. Os meus livros nasceram dessa disponibilidade para me deixar surpreender pelos lugares, pelas pessoas e pelas histórias que fui encontrando pelo caminho. Talvez seja isso que verdadeiramente os cose: o desejo de olhar o mundo com atenção, até com amor, de o interrogar sem julgamentos apressados e de deixar um testemunho visual de realidades que considero belas, significativas ou merecedoras de memória. E este mundo, este planeta, merece. Quantas vezes a olhar para uma paisagem, para uma comunidade, penso: este mundo é uma dádiva, quase um milagre. Porque insistimos em tratá-lo mal, em o desrespeitar tanto?
Fizeste a tua transição e formação académica em fotografia já numa fase madura da vida, conquistando prémios e publicações. Que mensagem deixas a quem hesita em reinventar o seu caminho profissional e criativo?
Diria para não terem medo de começar tarde. Muitas vezes, passamos anos a adiar projetos, à espera do momento perfeito, e esse momento pode até nem vir a existir. A minha própria experiência mostrou-me que é possível reinventarmo-nos em qualquer fase da vida, desde que exista verdadeira vontade de aprender, trabalhar e arriscar. No meu caso, a fotografia foi uma paixão antiga que acabou por se transformar num caminho. Não aconteceu de um dia para o outro. Exigiu formação, disciplina, persistência e vontade de aprender algo totalmente novo “em cima” de uma carreira profissional de mais de trinta anos. Sem nunca esquecer o sonho. Mas creio que a maturidade tem também vantagens: traz experiência de vida, uma maior consciência de quem somos e uma noção mais clara do que realmente queremos. O maior risco, muitas vezes, não é mudar, mas passar a vida a perguntar-nos o que teria acontecido se tivéssemos tido a coragem de tentar.
Gostaria que as minhas fotografias fossem, de algum modo, um convite a esse exercício de empatia. A abrandar o passo, a olhar o outro com mais atenção e menos preconceito, e a recordar que muitas das oportunidades, dificuldades e escolhas que moldam as nossas vidas dependem de circunstâncias sobre as quais nunca tivemos controlo.
O Entre | Vistas está ancorado no ato de perguntar e de ver como exercícios de cidadania cultural. Se pudesses fazer uma única pergunta à humanidade através da tua câmara fotográfica, qual seria?
Talvez perguntasse: «Quando olhas para o outro, consegues reconhecer nele algo de ti? E já pensaste quem serias se a lotaria geográfica te tivesse feito nascer noutro lugar do mundo, marcado pela pobreza, pela guerra, pela discriminação ou pela falta de oportunidades»? Ao longo das minhas viagens e da minha experiência como fotógrafa, tenho-me convencido cada vez mais de que a compaixão nasce desse reconhecimento. Não daquilo que nos distingue, mas daquilo que partilhamos: a necessidade de amor, de dignidade, de pertença, de esperança. Mudam as geografias, as culturas, as crenças e as circunstâncias, mas há algo de profundamente humano que nos une. Gostaria que as minhas fotografias fossem, de algum modo, um convite a esse exercício de empatia. A abrandar o passo, a olhar o outro com mais atenção e menos preconceito, e a recordar que muitas das oportunidades, dificuldades e escolhas que moldam as nossas vidas dependem de circunstâncias sobre as quais nunca tivemos controlo. Talvez o mundo fosse um lugar melhor se conseguíssemos reconhecer essa humanidade comum e agir uns para com os outros com mais compreensão, respeito e compaixão.
Foste a retratista dos meus entrevistados em As Perguntas que Somos, livro que colige as 34 entrevistas mais intemporais publicadas até 2022 no Entre | Vistas. Como é que as imagens convivem, do teu ponto de vista, com as palavras? Que diálogo continua a ser este, hoje, entre as palavras e as imagens, num mundo poluído por memes e imagens colonizadas?
Para mim, palavras e imagens não competem, completam-se. São duas linguagens únicas, que valem per se, mas também funcionam maravilhosamente quando articuladas, daí apresentarem-se muitas vezes juntas. As palavras têm a capacidade de desenvolver uma ideia, de explicar, argumentar e aprofundar. A fotografia também, curiosamente. A fotografia tem a capacidade de sugerir, de emocionar e de deixar espaço para a interpretação, assim como a escrita. Quando em conjunto, criam um diálogo particularmente rico, em que cada linguagem acrescenta algo à outra. Foi isso que senti em As Perguntas que Somos. As entrevistas davam-nos acesso ao pensamento, à memória e à visão do mundo de cada entrevistado. Os retratos também procuravam revelar o entrevistado, talvez de uma forma mais subtil: uma expressão, a presença, que traduzem quem ele realmente é. Num tempo em que somos inundados por imagens rápidas, consumidas em segundos e muitas vezes desprovidas de contexto, continuo a acreditar no valor da fotografia e da palavra que nos obrigam a parar. Recordo-me de uma ideia de Sebastião Salgado quando surgiram os receios de que a fotografia digital pudesse significar o fim da fotografia: a fotografia não está na máquina, está no olhar de quem vê. Creio que o mesmo se aplica hoje. Também as palavras e as imagens só ganham sentido quando transportam uma inquietação, uma emoção ou uma pergunta. Talvez seja por isso que o diálogo entre palavras e imagens continua a ser tão importante: ajudar-nos a recuperar a capacidade de olhar para além da superfície das coisas.
O verdadeiro desafio será continuar a usar a tecnologia para ampliar a nossa humanidade, não para a substituir.
Como olhas para a AI e a sua relação com a fotografia?
Vejo a Inteligência Artificial com curiosidade e entusiamo. Tal como acontece com tantas outras inovações tecnológicas, acredito que pode ser uma ferramenta extremamente poderosa se for usada para nos libertar de tarefas mecânicas, repetitivas e consumidoras de tempo, permitindo-nos concentrar naquilo que é verdadeiramente humano: a criatividade, o pensamento crítico, a observação, a experiência e a relação emocional que estabelecemos com o mundo e com as pessoas. Por isso, a questão não está tanto naquilo que a IA é capaz de fazer, mas na forma como a utilizamos. Desde que não nos deixemos tolher pela facilidade que ela proporciona e não abdiquemos do nosso olhar, da nossa capacidade de questionar, imaginar e criar, creio que pode ser uma aliada valiosa. O verdadeiro desafio será continuar a usar a tecnologia para ampliar a nossa humanidade, não para a substituir.
A tua fotografia é, em síntese, um grito de esperança na Humanidade?
Não sei se a minha fotografia é um grito de esperança. Talvez seja, antes, um convite à empatia e à consciência. Ao longo dos anos, tenho procurado olhar pessoas, culturas e realidades com respeito e curiosidade, mas também chamar a atenção para as desigualdades e as assimetrias que continuam a marcar o mundo. Não para alimentar divisões, mas para recordar que a dignidade, as oportunidades e os direitos não deveriam depender da geografia onde cada um nasceu. Se existe uma ideia que atravessa o meu trabalho, é a convicção de que compreender o outro é sempre o primeiro passo para uma sociedade mais justa. A fotografia, pelo menos a que procuro fazer, não pretende dar respostas. Pretende apenas criar um instante de reflexão e lembrar que somos todos parte da mesma humanidade.







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