M ia Tomé é atriz e artista da palavra, com um percurso marcado pelo cruzamento entre teatro, poesia, spoken word, música e educação artística. A sua voz ocupa um lugar central no seu trabalho, tanto em palco, como em estúdio. Tem desenvolvido colaborações com músicos, como Noiserv e Clara Lacerda, levando a palavra dita e cantada a diferentes palcos e países. A poesia de Emily Dickinson ocupa um lugar especial no seu percurso. A sua ligação ao Deserto de Sonora, no Arizona, levou-a a gravar nesse local o álbum “Há um Herbário no Deserto”, projeto em que canta e diz poesia de Dickinson em português. Em maio de 2026, foi convidada a realizar um recital na casa-museu de Emily Dickinson, nos Estados Unidos da América, no âmbito das celebrações do Dia da Língua Portuguesa. Num percurso em que a voz atravessa diferentes linguagens artísticas, Mia Tomé tem encontrado novas formas de dar espaço à palavra, aproximando-a de diferentes públicos e mantendo-a viva para quem a escuta. Nesta entrevista, é guiada pelas perguntas de Ana Cláudia Santos.
Olá, Mia! Antes de mais, quero agradecer imenso pela oportunidade de te entrevistar. Acompanho o teu trabalho há algum tempo e é muito inspirador. Gostava de começar por perguntar como trabalhas e cuidas da tua voz para diferentes contextos, seja uma leitura ao vivo ou uma gravação.
Eu é que agradeço, é um gosto. Obrigada. Costumo dizer que não faço distinções entre trabalhos, abraço-os todos com a mesma alegria e dedicação. Estar em palco ou numa cabine de gravação exige a mesma concentração, cuidado e preparação da voz. Faço sempre um bom aquecimento, hidrato-me muito e ando sempre com água ou chá. No trabalho ao vivo há, claro, outra adrenalina, porque não há margem para cortar ou repetir. Mas, de um modo geral, é isso, preparar bem a voz, hidratar e fazer alguns alongamentos nas pausas, e nunca beber coisas geladas!!!
Ainda há algum público a convencer de que é bom ver um concerto de poemas. Mas não posso negar, como atriz, é um trabalho extremamente enriquecedor, onde posso dizer, cantar e de alguma forma encenar. Cada concerto, é uma criação nova.
Uma das características do teu trabalho é a ligação entre poesia, spoken word e música, em colaborações, por exemplo, com o Noiserv e a Clara Lacerda. Como tem sido o processo de juntar a palavra à música?
Tem sido uma honra enorme. Agradeço todos os dias por poder fazer este trabalho, é um lugar artístico onde sou muito feliz, cruzar a palavra dita com música e trabalhar com amigos tão talentosos, sempre que tenho um concerto é um dia feliz. Adoro o Noiserv, é uma pessoa muito dedicada e inspiradora, assim como a Clara Lacerda. Temos viajado por vários países, temos levado a Língua Portuguesa a muitos lugares. É um privilégio, mas também reconheço o trabalho diário que é preciso fazer. É um trabalho de nicho, que exige muita dedicação e força de vontade. Ainda há algum público a convencer de que é bom ver um concerto de poemas. Mas não posso negar, como atriz, é um trabalho extremamente enriquecedor, onde posso dizer, cantar e de alguma forma encenar. Cada concerto, é uma criação nova.

Outra vertente do teu percurso são as oficinas em torno da palavra. O que tens descoberto ao trabalhar a escrita e a expressão com outras pessoas?
Sim, é um trabalho que amo fazer. A minha área de mestrado é a “Educação Artística”. Tenho aprendido tanto! Já fiz essas Oficinas fora de Portugal, como em Angola, EUA ou Polónia e. no fim, sinto que sou eu que aprendo sempre com quem se inscreve. As pessoas, sejam adultos ou crianças, entregam-se muito e têm partilhado histórias maravilhosas, sobre os motivos que as levaram ali. Depois, o facto de estarmos a trabalhar a palavra, a poesia e as emoções é muito enriquecedor. Num mundo cada vez mais solitário onde estamos cada vez mais dependentes dos ecrãs, estas Oficinas têm sido para muitos algo fora da rotina.
Já referiste que a tua alma pertence a Sonora, no Arizona. Foi lá que gravaste temas do álbum “Há um Herbário no Deserto”, onde cantas e dizes poesia de Emily Dickinson, em português. O que te liga a esse lugar? E o que te fez sentir que era lá que este álbum tinha de ser gravado?
Sempre imaginei, desde criança, que tinha de visitar aquele lugar, o imaginário do deserto estava bem presente nos meus sonhos, sabia dentro de mim que aquele sítio existia, e a verdade é que parecia que aquele Rancho Linda Vista (espaço de criação e comunidade artística onde fica o estúdio) esteve sempre à minha espera. Foi obra do destino ir lá parar, estava escrito. Desde o primeiro momento em que pisei aquele chão, soube que aquele lugar era casa. Fiz amigos para a vida toda e, em 2023, mesmo antes de sair o meu álbum a partir da obra de Natália Correia, senti: o próximo vai ser gravado aqui, neste estúdio assombrado por espíritos bons. Vou trazer Emily Dickinson para o Deserto e vou cavalgar com ela por onde me deixarem. Assim foi. Gravei e pesquisei lá e a poesia da Emily foi abençoada pelo pôr do sol de Sonora, foi beijada pelas palavras da família que fiz ali. Sou eternamente grata por ter encontrado o meu lugar artístico ali.

Tiveste a oportunidade de visitar o Emily Dickinson Museum. Se pudesses fazer uma pergunta a Emily, o que gostarias de lhe perguntar?
Tive a enorme honra de ser convidada para fazer um recital na casa-museu de Emily Dickinson, em maio de 2026, para celebrar o Dia da Língua Portuguesa. Ainda hoje me custa a acreditar que isso aconteceu. Foi quase um círculo perfeito, começar no Arizona, passar pela Europa e por tantos Estados dos EUA e terminar ali, na sua própria casa. Gostava de lhe perguntar porque nunca saiu do Massachusetts. Ela tinha tanta vontade de conhecer o mundo, mas viveu sempre em Amherst e deixou-se ficar, apesar de referir tantas vezes na sua obra “infinita cavalgar”. Porque não saíste Emily? Tenho a certeza que ela teria amado o Deserto de Sonora, o que ela teria escrito sobre aquele lugar…
Para quem estiver agora a descobrir a obra de Emily Dickinson, por onde deve começar?
Diria para pegar num livro dos 200 poemas e ir lendo diariamente, sem regras. Abrir uma página ao acaso, ler e simplesmente saborear. A poesia dela é livre como a natureza que ela descreve.
É uma responsabilidade enorme dar voz às palavras de alguém, assim como dar corpo a uma personagem numa peça ou num filme.
Se tivesses de sugerir um livro de um autor português, qual seria?
Tenho uma ligação muito profunda com o “Pena Capital” do Mário Cesariny, talvez sugerisse esse. Porém, provavelmente amanhã poderia responder-te outro livro, é difícil escolher só um.
Uma parte do teu trabalho passa ainda pela gravação de audiolivros. Como é o processo de dar voz a uma história que foi escrita por outra pessoa?
Gravar um audiolivro é, para mim, um dos processos mais maravilhosos do meu trabalho. É muito minucioso, exige concentração, preparação e muita entrega. Não é apenas ler: é mergulhar no livro, sentir cada palavra e cada ação e interpretar a história para que ela chegue ao ouvinte com verdade e emoção. É uma responsabilidade enorme dar voz às palavras de alguém, assim como dar corpo a uma personagem numa peça ou num filme.
Que livro ainda gostarias de transformar em audiolivro?
Todos da Margaret Atwood… e se calhar vão ter uma surpresa.
Para terminar… Olhando para o que tens feito até aqui, há algum formato ou território artístico que ainda não tenhas explorado e que gostasses de experimentar no futuro?
Sim, quero muito fazer televisão e relembrar que esta voz tem um rosto. Ansiosa por começar a gravar uma nova personagem, um novo desafio para o ecrã.
Entrevista conduzida por Ana Cláudia Santos.
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