Publicado em janeiro de 2026, Partida vem com uma declaração de intenções perpetrada por Julian Barnes, o autor, que na intermediação do seu octogésimo aniversário anuncia ser este o seu último livro: uma despedida deliberada e elegante da (sua) escrita. Editado em Portugal pela Quetzal, assume uma carga emocional singular: não é apenas mais uma obra numa carreira notável, mas a «partida oficial», a «última conversa» com os leitores. No seu tom híbrido, entre o ensaio e a ficção, Julian Barnes convoca-nos para uma espécie de conversa de café e, a partir dessa aparente trivialidade, permite centrar-se na história central de Stephan e Jean, deambula entre a realidade e o romance, para nos levar a uma reflexão filosófica mais profunda da vida, cosida pela memória enquanto identidade, a doença enquanto inevitabilidade estatística, o envelhecimento e a morte enquanto natureza.

Um casal de namorados, que se reencontra quarenta anos depois da separação, decide tentar «a última possibilidade de ser feliz». Cada um deles traz a sua versão do que foi o relacionamento, do que significou a ruptura, do que se perdeu e do que sobreviveu. Barnes apresenta-nos, frequentemente, as duas versões do mesmo evento: lado a lado, ou em sequência, essa polifonia não serve apenas para mostrar o carácter subjetivo da memória. Serve para nos lembrar que toda a memória amorosa é uma forma de ficção.

Barnes, não se limitando a contar esta história, leva-nos constantemente para reflexões, digressões e considerações que ladeiam, lá está, o ensaio filosófico. Esta ambiguidade formal é, de resto, reconhecida dentro da própria narrativa, quando Jean critica o narrador: «Esta coisa híbrida que tu fazes… Acho que é um erro. Devias escolher entre uma coisa e outra». Observamos, entre a história e a sua reflexão, um autor, que é o narrador participativo, que responde assertivo: «Não me importo que não gostes dos meus livros, mas estás enganada se pensas que não sei exatamente o que estou a fazer quando os escrevo». Barnes assume-se como escritor, com a mesma idade, a mesma biografia externa, os mesmos gostos e referências culturais. Mas logo aqui começa o jogo perigoso: será isto autoficção confessional, ou é o autor a usar o seu próprio nome como personagem de ficção? Bem, a verdade é que não ganhamos resposta para esta pergunta, mas abdicamos de a ter, é certo. Que importa, afinal?

O que distingue Partida é, pois, o seu tom de intimidade, menos o facto jornalístico, do que a verdade emocional. Barnes imagina o leitor sentado ao seu lado, numa esplanada de um café, o que denota uma recusa da arrogância didática a que se refere para descrever outros autores. Traça, assim, uma humildade epistemológica, rara num tempo de certezas absolutas, tornando a sua voz tão sedutora.Os temas de sempre em Barnes regressam, nesta sua Partida, com urgência renovada. A memória, claro, esse território escorregadio que o autor já explorara magistralmente em O Sentido do Fim, volta a ocupar o centro. Mas agora a perspetiva é a de quem avança para o fim da vida, não a de quem olha para trás desde uma meia-idade serena. O livro não esconde o corpo em declínio. O próprio Barnes, que desde 2020 faz quimioterapia diária contra um cancro sanguíneo, e que viu a sua mulher morrer 37 dias após o diagnóstico de um tumor cerebral, sabe do que fala quando aborda a fragilidade física.

Partida é, por isso, também um livro sobre os limites do corpo e sobre como a consciência persiste, brilhante, irónica, desiludida, apesar de tudo. A velhice é tratada sem lirismo falso e sem autopiedade. Barnes apresenta Stephan e Jean já velhos, mas velhos a quem a vida continua a acontecer. Este livro está, aliás, repleto de apontamentos irónicos à volta da condição humana, referindo-se a filmes americanos que prometem redenção e finais felizes… A sua visão é mais terrena: a vida é, na melhor das hipóteses, «uma comédia ligeira com um final triste».

O que torna Partida verdadeiramente extraordinário é o modo como a despedida do autor está inscrita no próprio tecido do livro. Não se trata de uma obra onde o escritor, por acaso, se despede; trata-se de uma obra sobre despedidas que é, simultaneamente, uma despedida. Este gesto performativo transforma a leitura numa experiência de luto antecipado. Chega-se ao fim de Partida sabendo que se chega ao fim da escrita de Barnes enquanto relação dialógica pública. Mas Julian Barnes despede-se com a mesma elegância que sempre definiu a sua prosa: sem drama, com inteligência afiada e com estranha ternura disfarçada de pragmatismo e performance narrativa.

Nesta Partida, escrita por alguém que viu muito da vida (e da morte), somos colocados no cerne de um diálogo metalinguístico, que faz mais do que discutir géneros literários. Questiona, por uma das vozes mais refinadas da literatura contemporânea, a própria possibilidade de separar o que vivemos do que imaginamos.

Partida, Julian Barnes 72

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