Fotografias de Isabel Nolasco captadas em Timor-Leste (à exceção da última, em que alguém nos captou às duas, em Lisboa).

 

Paula. Era uma menina mulher, naqueles vinte e poucos anos efervescentes de sonhos, quando a conheceu, à Isabel, na sua indumentária executiva e arrumada, de que foi abdicando, e no seu sorriso acolhedor e afetuoso, que mantém. A diferença de idades não se fez sentir, nem mesmo nas conversas que ficaram imediatamente demoradas e cúmplices. A partilha de esperanças, medos e devaneios ganhou a confiança inabalável da empatia confirmada repetidamente. E a partir daqui é a história de duas mulheres que se inspiram, cúmplices nos atos de cena que tantas vezes fizeram lembrar os de um filme. Um filme sobre a vida como ela é. Absolutamente cinematográfica e surpreendente.

Naquele ano em que aterraram juntas em Díli, Timor-Leste, vindas de Bali, ficou um nanossegundo cristalizado no tempo e no espaço, no Aeroporto Internacional Presidente Nicolau Lobato, quando Paula se viu a correr para apanhar um papel voado das mãos. A criança da primária que tantas vezes lhe assaltava as memórias mais antigas estava ali na sua alegria de chegar com a Isabel a um lugar inaugural. Ficaram em suspenso numa espécie de linha do tempo que as colocou a olhar para trás e para a frente. A ambas. Ali, em Díli, e em todos os lugares remotos, muito remotos de Timor-Leste cujo chão pisaram (Ataúro, Baucau, Manatuto, Jaco, Batugadé…).

Timor-Leste retrata o testemunho inassimilável da submissão e da morte decalcadas em lugares simbólicos, como Taci Tolu, a uns quilómetros a oeste de Díli, onde João Paulo II esteve em 1989 e onde a 30 de agosto de 2019 se celebrou o grito portentoso por uma pátria e uma identidade próprias. Com a fragilidade aparente da flor frangipana, que tantas vezes se traz de Bali e que há para a troca em Timor-Leste com um nome legitimamente português: Santo António. Mas também com a robustez da vontade determinada, determinante, merecedora da vitória final. São assim os timorenses, entre os quais se viram a Paula e a Isabel nessa relação consolidada com o tempo que foi e o tempo que vem. Timor foi uma lição para a vida.

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Naquele lugar específico, então, onde a morte se deu intensamente e onde se lutou compulsivamente pela sobrevivência, aprenderam mais sobre o valor da vida. Que Paula viu retratado tantas vezes no olhar de Isabel, paulatinamente transferido para a objetiva da sua câmara fotográfica, adquirida com a descoberta de uma vocação antiga, latente. E ali onde muitos acreditam poder morar Deus. Onde tudo à volta está carregado de beleza. E onde a objetiva da Isabel, mais do que um olhar pessoal, capta a visão coletiva, a atitude agregadora do ser humano. Da humanidade. Consciente da importância das diferenças para a construção da unidade. Sensível ao importante contributo da diversidade para a apologia de uma representação mais fiel do que somos.

Na sua fotografia, não vemos apenas o que os outros são, vemos o que somos. Com a limpidez do espelho. E também a sua sagacidade. Mesmo que não estejamos lá. É lá que nos vemos.

Noutros fragmentos do tempo, em Lisboa, regressam tantas vezes com afagos de memória a esse lugar onde, afinal, se confirmou (confirmou?) que Deus mora. E a tantas outras partes de uma história comum, documentada a partir do gatilho dessa máquina de registar o passado. E ao que viveram e que as palavras não dizem (não conseguem dizer). E pouco importa que dissessem, já que temos as imagens da Isabel e o olhar sobre elas da Paula. Que (nos) dizem tudo. Sobre aquele L.U.G.A.R O.N.D.E D.E.U.S M.O.R.A.

É lá que Deus mora? É, SIM.  

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