Portugal tem matéria-prima de sobra para se estabelecer e posicionar como hub de conhecimento. São afinal muitos os nomes de raiz portuguesa que vão fazendo história nos avanços da ciência, na inovação, no empreendedorismo, na saúde, na educação, na cultura, nas artes, tangibilizando um espólio que servirá de herança às gerações vindouras, dentro e fora de portas. Figuras cuja obra contribui, na aceção poética de Gedeão, para que o mundo pule e avance…   

Podemos lembrar-nos, assim do pé para a mão, do já saudoso João Lobo Antunes, o neurocirurgião que nos deixa, nesta reta final da sua vida, um último livro que anseio ler, Ouvir com Outros Olhos, em que parecem estar refletidos a síntese do seu pensamento e a agregação dos valores humanistas tão sólidos pelos quais fez pautar a sua vida. Podemos também falar de Susana Sargento, a investigadora da Universidade de Aveiro este ano distinguida com o Prémio Mulheres Inovadoras da União Europeia 2016; de Marina Costa Lobo, a investigadora principal do Instituto de Ciências Sociais e bolseira do European Research Council (já aqui entrevistada); de André Moitinho de Almeida, o coordenador da equipa de astrónomos portugueses responsáveis pelo lançamento do telescópio espacial Gaia, que mostrará ao mundo o novo mapa da Via Láctea. E podemos falar de Saramago e dos nomes mais recentes que estão também a colecionar prémios de monta e a conquistar seguidores em todas as línguas, caso de Valter Hugo Mãe, de Afonso Cruz (também aqui entrevistado)… Isto se não quisermos ir a Pessoa ou a Camões. Enfim…

E este país agregador de conhecimento e de conhecimentos, tão extraordinário, que é o nosso, é o mesmo que tem uma Fundação Champalimaud a liderar investigação em áreas de ponta, promovendo novos padrões de conhecimento, ou uma Fundação Francisco Manuel dos Santos, que neste mês de novembro reflete em Lisboa a ciência por trás das previsões. O mesmo, ainda, que organiza no Porto o Fórum do Futuro, um festival internacional de pensamento (não é fantástico este nome?) com múltiplas disciplinas convidadas a refletir a sociedade contemporânea. Curioso: neste festival, que decorre entre 1 e 6 de novembro, estão incluídos nomes tão díspares, como o cardeal Gianfranco Ravasi (1942, Itália), presidente do Conselho Pontifício para a Cultura e uma das vozes mais originais do Vaticano; o conceituado investigador Dominique Wolton (1947, Camarões), que nos recorda que se a ecologia remete para a diversidade da natureza, a comunicação remete para a diversidade cultural, que no tempo da globalização está a par do respeito e da tolerância entre os desafios mais gritantes. É o país onde os eventos na área da literatura, como o FOLIO, Festival Literário Internacional de Óbidos, estão a avolumar-se com acuidade e solidez.

E é também o país onde movimentos mais espontâneos e enraizados na cultura de cidadania olham para o conhecimento como uma ferramenta estratégica de desenvolvimento do país, nos diferentes setores. A PWN Lisbon (Professional Women’s Network), que promove a presença das mulheres na liderança, numa apologia não do feminismo, mas da solidez, da diversidade e dos valores, organiza também em novembro a sua 5.ª conferência anual, este ano com o título Pensar o País: Portugal como HUB de Conhecimento no Século XXI, juntando oradores da banca, da energia, do empreendedorismo, das tecnologias, até da academia, evidenciando a urgência de recentrar o valor do conhecimento como motor incontornável de crescimento da economia.  

Em linha com a crónica de José Tolentino Mendonça deste último fim de semana, “Tudo começa pelo espanto”, estou convencida de que o conhecimento será tanto mais reconhecido como fator fundamental de desenvolvimento, quanto maior for a nossa capacidade de nos espantarmos, de olharmos para as coisas antigas com o olhar da primeira vez, de transportar as (aparentes) pequenas coisas para o registo do dia a dia e conciliar com as pequenas as grandes virtudes. Em poucas palavras, aceitar o desafio que nos é fisionomicamente imposto: das pequenas janelas que são os nossos olhos, saber apreciar o mundo. Mesmo que para isso seja necessário apurar também o ouvido. Não nos dizia Lobo Antunes para ouvirmos com outros olhos?

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