A primeira edição d’A Civilização do Espetáculo, de Mário Vargas Llosa, é de outubro de 2012, mas o passar do tempo não lhe roubou qualquer atualidade. Pelo contrário, à medida que avançamos, parece que o ensaio do Prémio Nobel da Literatura ganha novas evidências. Aqui, o escritor que há meia dúzia de semanas esteve em Portugal numa digressão em que também se desfez em mil propósitos para abordar a cultura (ou a sua ausência), faz uma radiografia duríssima sobre a cultura, que vale a pena reter.

A apologia de Vargas Llosa é dura, dado que atribui à cultura um sentido caído em desuso e que foi hoje substituído por uma «bizarra matéria», em detrimento da cultura conterrânea à geração que com o autor entrou para a escola. Para Vargas Llosa, a cultura atravessa uma profundíssima crise. Na linha de T.S. Eliot, o escritor peruano reforça que é ingénua a ideia de que por via da educação se pode transmitir cultura à generalidade da população. Para o escritor, o que acontece com essa democratização da cultura é, por outro lado, o seu empobrecimento e a sua superficialidade.

Vargas Llosa evolui, ainda, para a diferença (raras vezes interiorizada) entre cultura e conhecimento. «O conhecimento tem a ver com a evolução da técnica e das ciências, e a cultura é algo anterior ao conhecimento, uma propensão do espírito, uma sensibilidade e um cultivo da forma que dá sentido e orientação aos conhecimentos.» Ora, esta frase, a meu ver, é nevrálgica para o entendimento do valor das pessoas e do que elas fazem com e sem conhecimento e/ou cultura. Vargas Llosa vai mais longe e defende: «A cultura transmite-se através da família e quando esta instituição deixa de funcionar de maneira adequada o resultado é a “deterioração da cultura”». A tendência para tudo consumir e o acesso massificado à cultura, numa sociedade pulverizada pela tecnologia e a digitalização, vieram anular a diferença radical entre preço e valor. «O único valor é o comercial».

O que vem então Vargas Llosa dizer quando se refere à civilização do espetáculo? «A de um mundo onde o primeiro lugar na tabela de valores vigente é ocupado pelo entretenimento e onde divertir-se, fugir ao aborrecimento, é a paixão universal». O espaço preenchido pelo ócio, diz-nos Vargas Llosa, constitui um estímulo de tal ordem forte que as indústrias da diversão são multiplicadas a cada dia. Neste contexto, surge a relevância da imagem, que se sobrepõe à palavra e que, principalmente com o poder da televisão, que pressupõe a total anulação dos conteúdos em prol do espetáculo da imagem, cria-nos um problema crucial e incontornável: «Quando uma cultura relega para o sótão das coisas passadas de moda o exercício de pensar e substitui as ideias pelas imagens, os produtos literários e artísticos são promovidos, aceites ou rejeitados pelas técnicas publicitárias e pelos reflexos condicionados de um público que não tem defesas intelectuais e sensíveis para detetar os contrabandos e as extorsões de que é vítima».

A fraca importância que o pensamento hoje tem nesta sociedade do espetáculo e “espetacularizada” explica esse cair em desuso da cultura com as características que a mesma tinha há uns anos. Com o mesmo tom crítico, o autor prossegue: «Agora somos todos cultos de alguma maneira, ainda que não tenhamos lido nunca um livro, nem visitado uma exposição de pintura, ouvido um concerto nem adquirido algumas noções básicas dos conhecimentos humanísticos, científicos e tecnológicos do mundo em que vivemos.»

Vargas Llosa recorda-nos, em síntese, que a noção de cultura teve ao longo dos séculos diferentes contextos e associações. Praticamente de forma transversal, a cultura esteve sempre indexada ao religioso, à religião. Mais especificamente, na Grécia, estava ligada à filosofia e, em Roma, ao direito. Já no Renascimento encontrava-se, sobretudo, associada à literatura e às artes. O Iluminismo, por sua vez, ligou a cultura às ciências e às grandes descobertas científicas. Independentemente dos seus vários lugares, a cultura esteve até aos nossos dias enquadrada num amplo consenso social, ancorado num património de ideias e valores, de conhecimentos históricos, religiosos e filosóficos em permanente evolução.

Hoje, fica por saber exatamente como se define cultura, por ser simultaneamente esse pouco de tudo e esse pouco de nada que fizeram desaparecer a figura do intelectual/pensador que estruturou todo o século XX (para não falar dos anteriores).

Afinal, aonde vai hoje o pensamento? Talvez seja apenas uma imagem (que, como dizem, vale mais do que mil palavras)… Já estou como Vargas Llosa: que pena que esse fenómeno do «entretenimento passageiro» seja uma «aspiração suprema da vida humana».

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