No Palacete dos Condes de Burnay, do século XIX, que dá hoje lugar à bonita Biblioteca de Alcântara (sendo a biblioteca aquele lugar perfeito de que Jorge Luis Borges nos falou), foi recentemente lançado o livro de Ana Caldeira Viagens que Contam o Mundo, que tive o privilégio de prefaciar e apresentar ao lado da capista, a incrível designer Joana Vidal.

Começo, para situar a nossa aspiração de ir (de viajar), por lembrar que enquanto seres humanos somos feitos para a vastidão, para a dinâmica de ir, para o confronto com coisas incomparáveis, coisas que nunca vimos. José Tolentino Mendonça, no seu último livro Para os Caminhantes Tudo é Caminho, fala-nos com toda a determinação desta nossa predestinação natural.

Viagens que Contam o Mundo, Ana Caldeira 78

Ora, o que o livro de Ana Caldeira nos dá, a partir das Viagens que Contam o Mundo, são três grandes fundações da viagem. Em primeiro lugar, oferece-nos uma cartografia e um mapa de (re)descoberta daquilo de que somos feitos. À medida que vamos descobrindo num total de 32 crónicas as viagens que (nos) fazem descobrir o mundo, descobrimos o mundo da Ana, num paralelismo com aquilo que nos acontece quando vivemos experiências de viagem que não são apenas uma linha orgânica e logística entre o ponto de partida e o ponto de chegada. Qualquer viagem digna desse nome transforma-nos: altera-nos por dentro, acrescenta-nos referências, tutela a nossa capacidade de olhar para a diferença.

Nessas 32 crónicas, coligidas por serem provavelmente das mais intemporais, icónicas, irreverentes ou referenciais entre o colosso que é colecionar mais de 70 países visitados, encontramos: dezenas de referências com o epíteto de Património Mundial da UNESCO; algumas das Sete Maravilhas Naturais do Mundo, como as Cataratas Vitória; as dunas da Namíbia; o templo no Camboja; a pureza das águas em Fernando de Noronha, nas Maurícias ou nas Seychelles; metrópoles abertas ao futuro, como Dubai ou Kuala Lumpur; e 4 continentes.

O fio que cose todas estas geografias consiste numa mesma inquietação: como olhar, hoje, para o mundo sem o consumir; como estar num lugar sem o possuir; como viajar sem transformar o outro em cenário e sem nos tornarmos meros colecionadores de imagens? Numa só pergunta: como criar memórias que moldem e impactem o futuro? E é neste ponto que chamo a atenção para o facto de não encontrarmos nas suas viagens a urgência ansiosa de uma bucket list. Inclusive, a Ana regressa pela segunda vez a lugares que ama.

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Numa segunda fundação da viagem, a autora entrega-nos um GPS para territórios de vizinhança. Viajar, neste livro, é um verbo profundamente humano. Chegar, por exemplo, ao Mosteiro, em Petra, não é só um desafio físico, mas um exercício de humildade perante a escala da paisagem e a pequenez do comum humano em busca de um sentido para cada lugar; ir às ruínas de Jerash confronta-nos com tempos que nos antecedem e nos transcendem. E este livro é também uma homenagem inscrita à tolerância. Quando percorremos as medinas de Marrocos ou as avenidas modernas do Panamá ou o bairro de Dresden, na Alemanha, a autora promove sempre uma atitude de simplificação, sem cair na tentação de dividir o mundo entre “nós” e “eles”.

Encontramos, neste livro, também um tributo ao tempo lento. Em muitos relatos, Ana Caldeira deixa claro que é preciso permanecer – ficar mais um dia numa ilha, voltar a uma mesma praça noutra hora, enfrentar a subida de mais um degrau, esperar pela mudança da luz. Assistimos também a uma pedagogia serena da responsabilidade. O entusiasmo que perpassa os textos vem acompanhado de uma lembrança de que os lugares descritos são frágeis: os recifes de coral que precisam de ser protegidos, as praias onde as tartarugas nidificam, as reservas onde a vida selvagem resiste, os centros históricos reconstruídos pedra a pedra…

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A terceira fundação da viagem, a meu ver, consiste num referencial para a natureza das viagens que fazemos. Num tempo em que a circulação se tornou, para muitos, mais fácil do que nunca, a questão já não é apenas se viajamos, mas como viajamos e, já agora, para quê. A partir deste livro, somos confrontados com as perguntas sacramentais da viagem como aspiração de desenvolvimento humano, de perfeição inacabada, de contacto com o outro nesse mundo imenso com os mais de 8 mil milhões numa casa com quase 200 países. E em que cada um de nós é incomparável. E precisa tanto de todos os outros incomparáveis para, em relação, consolidar a sua própria identidade.

Eduardo Lourenço referiu que «o mundo real começa quando saímos de nossa casa para encontrar os outros». E, nesse específico lugar de encontro, seja em que país for, o mundo torna-se espantosamente próximo. Sobretudo quando lemos, pela Poética Edições, estas Viagens que Contam o Mundo.

 


Ana Caldeira coleciona mais de 70 países já visitados em viagens de lazer e que a definem como uma pessoa mais humana, a cada nova fronteira cruzada. No tempo da pandemia, fundou o projeto online The Travel in Pink, hoje seguido por milhares de pessoas e através do qual regista o que os seus olhos viram e guardaram e que tem vindo a permitir coligir uma legião de admiradores inspirados em realizar as suas próprias viagens de sonho. A Ana é modelar em programas e mesas redondas sobre viagens, porque estará, se estudos houvesse di-lo-iam assim, entre os maiores viajantes em Portugal. Quando inicia cada viagem, segue com a perceção de que o que está em causa, independentemente do destino, tem muito mais a ver com a mudança interior e com os novos olhos ganhos para ver um mundo em permanente mudança. Está entre o grupo de amigos irreversíveis que fiz no tempo da faculdade, sobre o qual passaram muitos anos, os necessários para termos perdido a memória sobre as tantas conversas em que planeámos viagens sem conta, algumas delas já concretizadas. Outras por fazer. O nosso verbo será sempre… ir.

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