Fotografias disparadas no lançamento do livro Atreve-te, no âmbito do qual participei em mesa redonda de apresentação do próprio livro e reflexão sobre o conceito de empreendedorismo.
Assistimos, neste tempo que corre, a uma feroz ausência do dever de transmitir. Na contemporaneidade, passou a faltar o testamento, a explicitação do ato de transmitir e um enunciado de memória capaz de atribuir um quadro de referências para uma genealogia e uma raiz do futuro de cada pessoa.
Ora, sem testamento, a nossa condição de herdeiros torna-se errática e, com probabilidade, ficamos sem respostas para aquelas perguntas sacramentais: de onde vimos?; onde estamos?; para onde vamos?; quão longe podemos ir? O ponto é: ninguém disse às nossas pessoas que acreditassem nelas. Recebem coisas (e mais coisas), mas não conhecem recursos humanistas que ensinem a dialogar, desde logo com os opostos.
O que este livro de Cristina Moura Rebelo faz, com assinatura artística de Teresa Neves Rocha, meu Prefácio e Posfácio de Rui Pedro Bairrada, é essa apologia do ato de transmitir. Sem ser paternalista, chega como uma seta e uma injeção de confiança para dizer: “Atreve-te”! São-nos dados, em 5 capítulos e como nos diz o subtítulo, 30 passos para empreender com fé, propósito e impacto, no feminino.
E, antes de carregarmos a fundo na leitura, atrevo-me a colocar aqui uma espécie de entrada dicionarizada para o verbo empreender: usar o tempo, as ideias e as competências técnicas e comportamentais com autonomia relativa para criar valor individual e coletivo, assumindo riscos e aceitando desafios. Uau… tanto, tanto que isto é.
Mas sabemos, é certo, que para se lançar e vingar um empreendedor são idealmente necessárias condições pessoais, como o autoconhecimento (compreender as próprias motivações, os limites, os valores); a resiliência emocional (lidar com o risco, a incerteza, a imprevisibilidade, a crise); a capacidade de aprendizagem (saber que empreender implica estar sempre a aprender); a proatividade e disciplina (manter foco e consistência); e a rede de apoio (ter por perto familiares, amigos, mentores).
Mas também são essenciais condições estratégicas, caso da identificação de uma oportunidade real (a oferta apresentada deve procurar resolver um problema concreto e gerar valor); da validação do modelo de negócio (o custo para o cliente deve ser avaliado sob todos os prismas); do planeamento operacional e financeiro (o controlo de custos, o fluxo de caixa e o acesso a capital devem ser severamente escrutinados); das competências de gestão de vendas (a coordenação de todos os recursos, a comunicação do valor e a arte de negociar terão de ser devidamente articuladas); e da capacidade de adaptação (o rumo do negócio pode ter de mudar mediante as flutuações do mercado, que são constantes).
E são, ainda, fundamentais condições contextuais, de que se destacam o ambiente económico e legal, como a burocracia, as cargas fiscais ou os apoios e incentivos à inovação; o acesso a redes e ecossistemas, como incubadoras, associações, investidores e comunidades empreendedoras; e, por fim, uma cultura social, isto é, um meio que valorize a iniciativa e promova a atitude empreendedora.
Dito isto, impõe-se uma pergunta: um empreendedor só avança quando estão, efetivamente, reunidas todas as condições? E outra: essas condições estão, porventura, em algum momento, absolutamente todas reunidas? Não tenhamos ilusões. Para as mulheres, então… E, precisamente por isso, este livro simboliza uma inigualável capacidade de síntese, com uma visão agregadora de conselhos, dicas, ferramentas e referências de suporte às mulheres que pretendam fazer-se à estrada ou àquelas que, já o tendo feito, enfrentam desafios.
De acordo com Claudia Goldin, Prémio Nobel da Economia em 2023, duas perguntas separam o início e o fim do século XX: no início, era perguntado se a mulher investiria na família ou na carreira (e isso, por si só, já demonstrava um avanço quântico); no fim do século, passou a ser questionado sobre como a mulher poderia investir na família e na carreira (quase o equivalente a uma ida à lua).
Bem, a verdade é que, tendo em conta o quadro histórico-cultural que nos trouxe aqui, que se confunde com a própria história da Humanidade, e a pluralidade e acumulação de papéis desempenhados pela mulher quando ela decide investir também na sua carreira, é para ela desmedidamente mais difícil empreender, nos múltiplos significados que o termo possa ter.
Agora, que o mundo pula e avança, escancaradamente, quando uma mulher empreende, não tenhamos dúvidas. Porque a mulher é matriarca e agrega, mobiliza os homens, as mulheres, os filhos, os netos, os amigos. O mundo pula e avança e aí o futuro é, incondicionalmente, reescrito. Arrisquemos liderar uma decisão que possa mudar o mundo, como este livro, estou certa, o fará. Comecemos por lê-lo e tenhamos a iniciativa de o transmitir. Estaremos a alterar, para voltar ao início, a condição dos nossos herdeiros.




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