Pernoitei outro dia na feérica Pousada do Crato, no discreto Alto Alentejo, onde fui dar de caras, logo à entrada, com a exposição “Rostos de Cristo Desconhecidos”, com peças cedidas pela Coleção Casa-Museu José Régio, instalada em Portalegre no preciso espaço que o poeta português habitou durante 34 anos.

O gosto herdado do seu avô pelo colecionismo de antiguidades fê-lo acrescentar sucessivamente ao quarto que começou por arrendar outras divisões da pensão onde se acomodara e que, ao longo dos mais de 30 anos, se transformou num inteiro edifício na sua posse, com peças cujo valor soaria na Portalegre onde à época Régio dava aulas no Liceu Nacional de Portalegre (hoje, Escola Secundária Mouzinho da Silveira). Algumas das peças que tive a oportunidade de ver na Pousada do Crato.

Os “Rostos de Cristo Desconhecidos” que esta pousada nos expõe são, afinal, alguns dos objetos de coleção que a Casa-Museu José Régio conserva numa sala-reserva e que, por isso, entre os cerca de 400 Cristos ali alojados, quase todos de madeira, constituem uma representação ainda mais especial e exclusiva da arte sacra comprada pelo artista a autores anónimos.

A sua solidão e o território da sua espiritualidade foram, assim, sendo reenquadrados na proximidade à coleção de objetos antigos, na sua maioria representando a imagem de Cristo Crucificado, numa expressividade que nesta exposição, à vista desarmada, não deixa ninguém indiferente.

Nascido em 1901 em Vila do Conde, num contexto espaciotemporal dominado por referências religiosas incontornáveis que o marcariam profundamente, Régio chega a Portalegre com 28 anos de idade para se realizar como professor. Do exíguo quarto arrendado em Portalegre para o efeito surgiriam as principais personagens do poeta, romancista, contista, cronista, dramaturgo, cofundador (ao lado de Branquinho da Fonseca e João Gaspar Simões) da revista Presença, publicada irregularmente durante 13 anos e responsável por estabelecer o segundo modernismo português.

Na volta para Lisboa, passei por Constância, a portuguesa vila do distrito de Santarém que alberga um dos locais de residência de Luís de Camões, hoje Casa-Memória Camões, solenemente instalada no cruzamento das Escadinhas de Tem-Te Bem com a Rua da Barca.

A propósito deste Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, lembrei-me deste périplo que fiz recentemente e que, com Régio e Camões à mistura, nos recoloca no centro da memória o valor da nossa identidade.

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