A espantosa transformação alcançada pela Coreia do Sul nas últimas sete décadas tem vindo a alimentar a minha crescente curiosidade por aquela que é, hoje, uma democracia sólida, com um mercado vibrante, um pipeline tecnológico extenuante e uma das culturas pop mais atrativas entre jovens de todo o mundo. Das economias mais vigorosas do globo e em particular da Ásia, a Coreia do Sul fascina pela capacidade de sonhar e empreender, a partir de uma visão de ambição, contra todos os desafios que a sua trajetória histórica lhe impôs.
Seoul: entre a hipermodernidade e o horizonte longínquo da tradição
A aterragem em Seoul tem a sobriedade dos grandes recomeços. Se noutras latitudes é o tom ocre ou a desordem fascinante que nos desarmam à chegada, a capital sul-coreana acolhe-nos com um equilíbrio arrebatador entre a contenção e o assombro, com a hipermodernidade tecnológica a dialogar, desconcertantemente, com o eco dos séculos. Compreendemos, na capital da Coreia do Sul, como um país de velocidade vertiginosa e ambição vertical consegue guardar, intacto e solene, no seu íntimo, o silêncio dos seus antepassados e as suas ancestrais tradições.
A esta cidade sustida na memória da minha geração desde a vitória estrondosa de Rosa Mota nos Jogos Olímpicos de 1988, cheguei de olhos gigantes para abarcar as suas diferentes dimensões: histórica e tradicional, panorâmica e financeira, moderna e cultural. Nela, vivem cerca de 10 milhões de habitantes, mesmo que nos custe imaginar o que é acomodar a população de Portugal numa mesma cidade. Aliás, a Coreia do Sul, ainda que apenas 8,5% maior do que Portugal, tem o quíntuplo dos nossos cidadãos.
Em Seoul, tiritamos entre o barulho estridente do desenvolvimento e o silêncio contemplativo. O primeiro sinal desse contraste dá-se no Templo Jogyesa, o coração pulsante do budismo Zen na Coreia do Sul. Sob um teto de lanternas coloridas que filtram a luz límpida do verão, o aroma doce do incenso e o murmúrio cadenciado das orações criam uma redoma de recolhimento, literalmente no centro nevrálgico da metrópole. Há árvores centenárias a guardar o espaço, com a sabedoria de velhos mestres. A escassos minutos a pé, o contraponto cívico faz-se notar na Seoul Plaza: a antiga câmara de pedra cinzenta renascida como a Seoul Metropolitan Library olha de frente a audácia envidraçada do novo Seoul City Hall, de onde podemos avistar a cidade em altura, numa curva estendida sobre a praça e num diálogo pacífico, como sempre se faz em Seoul, entre o peso da memória e a transparência do futuro.
A história dinástica desdobra-se ao transpormos Gwangmyeongmun, o “Portão da Luz Brilhante”, no Palácio Deoksugung. Entre pavilhões de madeira nobre e o invulgar Daehan Empire History Museum, de feição neoclássica ocidental, pressente-se a encruzilhada de um império que procurou conversar com o mundo exterior sem alienar a sua raiz. Na imensa Praça de Gwanghwamun, a identidade nacional ganha escala monumental nas figuras tutelares do rei Sejong, que ofereceu ao povo o alfabeto Hangul, e do almirante Yi Sun-sin, sentinela inabalável da soberania. No recanto discreto do Garden of Gratitude, celebramos uma pausa dedicada à gratidão como atitude charneira em que a cidade se deixa amadurecer.
A meio do dia, a subida pelas ruelas empinadas da Bukchon Hanok Village convida a abrandar. Por entre as cumeeiras graciosamente curvadas das hanok, as habitações tradicionais de madeira, pedra e papel que resistiram à voragem dos prédios em redor, o silêncio é uma regra de ouro escrupulosamente respeitada pelos viajantes, emprestando ao almoço o aconchego das casas de família. A descida faz-se pelas artérias artísticas de Insadong, repletas de ateliês de caligrafia e casas de chá, antes do grande embate sensorial no Mercado de Gwangjang. É uma tapeçaria viva de vozes, vapores e calor: frigideiras fumegantes a chiar com bindaetteok dourados de feijão-mungo, bancadas repletas de tteokbokki picante e o aroma tostado do óleo de sésamo. Sentar num banco corrido, ombro a ombro com desconhecidos, dissolve qualquer fronteira linguística do primeiro bocado partilhado.
Ao cair da tarde, as curvas metálicas e orgânicas da Dongdaemun Design Plaza (DDP), concebida por Zaha Hadid, surgem como uma nave prateada sob a iluminação noturna que anuncia a Seoul do século XXI. Percorrer a metrópole a bordo do Seoul City Tour Bus permite recolher os fragmentos luminosos da cidade, antes de um primeiro e merecido churrasco coreano perto do hotel: o som da carne na grelha ao centro da mesa, a constelação de pequenos pratos de banchan e o ritual de partilha que transforma o jantar num ato de comunhão. Do inglês, ouvimos muito pouco por estas paragens. Por vezes, uma palavra bem portuguesa, inscrita em gestos, parece suceder melhor numa conversa trivial, à volta do churrasco saudável, salpicado de legumes e ovos, sem sobremesa. A esmagadora maioria dos coreanos com quem nos cruzámos são elegantes, muito elegantes, nas suas vestes quase sempre toldadas a preto ou a branco.
A manhã seguinte devolve-nos à solenidade imperial diante do majestoso Palácio Gyeongbokgung, com a cerimónia da Troca da Guarda Real, uma coreografia irrepreensível de estandartes garridos e tambores a fazer vibrar o peito. Cruzar os seus pátios revela a grandeza austera do Geunjeongjeon, o salão do trono imperial, e a poesia suspensa do pavilhão Gyeonghoeru, que repousa sobre quarenta e oito colunas de pedra, num lago espelhado coberto de nenúfares.
Essa escala ganha uma perspetiva lapidar quando subimos ao terraço panorâmico no 8.º piso do National Museum of Korean Contemporary History, em frente à praça. Dali, num só enquadramento, abarca-se a síntese coreana: o desenho rigoroso dos telhados milenares recortado contra a montanha Bugaksan e, imediatamente em redor, o mar vertical de betão e vidro dos arranha-céus que rasgam as nuvens. Esta distância panorâmica também evidencia a incrível higiene da cidade, praticamente sem caixotes de lixo, de uma civilidade magnânima.
Depois de um almoço tranquilo no requintado bairro de Samcheong-ro, pontuado por galerias intimistas e cafés de autor, é a própria cidade que convida a ganhar altitude. Partindo do bulício de Myeongdong, o autocarro circular sobe as encostas arborizadas do Monte Namsan até à emblemática N Seoul Tower. Do cimo da torre, a vista circular sobre a filigrana urbana revela a imponência do Rio Han, a grande fronteira fluvial que separa a Seul histórica, a norte, da ousadia contemporânea, a sul.
Atravessar o rio em direção a Gangnam possibilita, em seguida, mergulhar no epicentro da sofisticação vertical. No coração do COEX Mall, a Starfield Library suspende o olhar: estantes monumentais de treze metros de altura erguem-se até à claraboia inundando o espaço de luz natural, transformando o bulício comercial num templo cívico consagrado ao livro e ao saber. Nesta biblioteca pública mundialmente mediática, no interior do próprio centro comercial, somos levados num mergulho literário e cultural a contrastar com o consumismo do complexo em que está inserida e do gigantismo dos edifícios à volta. Todos os visitantes se fotografam. O momento é absolutamente imperdível.
O retrato de Seoul não fica completo sem a consciência da sua fratura mais dolorosa. A visita guiada à DMZ (Zona Desmilitarizada) rompe qualquer ilusão de tranquilidade e confronta-nos com uma das cicatrizes mais vigiadas do globo. Percorrer a imponente ponte suspensa, fazer uma pausa nas montanhas de Moununsan e contemplar, do Observatório da DMZ, a imensidão avistada deste território altamente monitorizado… recentra o conhecimento deste país e a sua relação com o país vizinho. Até lá, somos ladeados por caminhos potencialmente carregados de minas e, entre o protocolo militar que exige mostrar o passaporte, chegamos ao ponto de fronteira entre as Coreias. Outrora delimitado pelo Paralelo 38 e, hoje, redesenhado com uma linha na diagonal, permite fazer simbolicamente divergir os pés entre ambos os países e diferentes tempos. Descer, depois, à humidade fria e austera do Terceiro Túnel de Infiltração, escavado em segredo na rocha a dezenas de metros de profundidade, expõe a crueza da guerra latente entre as Coreias. Contudo, nada se compara ao impacto humano de escutar, olhos nos olhos, o testemunho de uma mulher fugida do país cimeiro: a sua voz transforma geopolítica em experiência humana, desfazendo a distância do turista e (re)lembrando que a liberdade é uma conquista frágil.
O regresso à cidade opera uma catarse vibrante em Hongdae. Neste bairro jovem e transgressor, a vida desafia a sombra com música, dança e exuberância desmedida. Em cada esquina, grupos coreografam temas de K-Pop sob um festival de neons garridos, rodeados por multidões cúmplices. Jantar naquela atmosfera elétrica é perceber que esta sociedade celebra o presente com tanta intensidade, precisamente, por conhecer o peso da sua história. Do silêncio dos templos à vertigem das avenidas de Gangnam, Seoul permanece em nós como uma lição de equilíbrio: a cidade que aprendeu a erguer os seus arranha-céus até às nuvens, sem nunca descolar os pés das pedras da sua memória. É uma lição de vida.
De Seoul para Busan, a alta velocidade
O ritmo transforma-se a bordo do veloz comboio da Korail, onde o silêncio dos seus passageiros é uma coisa nunca vista. No encalce desse silêncio, entre um dos passageiros, coloco os olhos numa mulher sul-coreana a rezar o terço. Rasgando a espinha dorsal da península a mais de trezentos quilómetros por hora, a paisagem desfila entre vales agrícolas e montanhas densas até alcançar o extremo meridional do país: Busan, a segunda cidade da Coreia do Sul, com um porto entre os sete maiores do mundo e, em transbordo, só atrás do de Singapura.
À chegada, o ar ganha outra textura e luminosidade. Instalar base em Haeundae e dar os primeiros passos pelo calçadão ao entardecer, com a brisa salgada a temperar o calor de fim de verão e as torres espelhadas a erguerem-se junto à rebentação, antecipa uma Coreia do Sul com outro compasso: solar, marítima e descontraída.
O domingo em Busan desperta com a doçura da Busan Dang, uma padaria local cujo aroma a pão fresco e mestria de pastelaria artesanal se tornariam o nosso aconchego diário. Dali, partimos para o extraordinário Haedong Yonggungsa Temple. Ao contrário da maioria dos santuários budistas, recolhidos nas serras, este ergue-se desafiador sobre rochedos alcantilados batidos pela fúria rítmica das ondas. O salitre funde-se com o incenso e os pagodes de pedra dialogam com o mar revolto logo abaixo, inspirando uma reverência imediata pela união entre fé, espiritualidade, natureza.
O almoço em Songjeong Beach oferece o contraponto sereno dos areais dourados e o deslizar discreto dos praticantes de surf, antes de um entardecer inesquecível em Gwangalli Beach. Passear ao longo da marginal, enquanto o crepúsculo doura a baía, inscreve o acender da monumental Gwangandaegyo Bridge: uma linha contínua de luz suspensa que transforma o horizonte sobre as águas, num quadro dinâmico e hipnótico, perfeito para um jantar embalado pelo som das ondas e pela música dos cafés da costa.
Gyeongju ou a capital de um milénio (57 a.C – 935 d.C.)
O início de uma nova semana introduz uma peregrinação às raízes imperiais com a deslocação a Gyeongju, a milenar capital do Reino de Silla, uma das civilizações mais prósperas da Ásia Oriental, bastião do Budismo e da Ciência, hoje Património Mundial da UNESCO. A chegada a esta cidade pressupõe penetrar num museu vivo, a céu aberto. No majestoso Bulguksa Temple, nas encostas da montanha Tohamsan, as pontes de pedra lavradas no século VIII e os pagodes Dabotap e Seokgatap revelam o apogeu da espiritualidade e da arquitetura clássica. A elegância renasce na Woljeonggyo Bridge, ponte de madeira e pedra cujos telhados policromados (dancheong) refletem a nobreza da antiga corte sobre as águas calmas.
Nas ruelas do centro histórico, preservam-se casas hanok, mas o impacto mais poético aguarda-nos no Daereungwon Ancient Tomb Complex. Aqui, os túmulos dos reis de Silla não são catacumbas: surgem como suaves e gigantescas montanhas de relva verde-esmeralda que ondulam suavemente sob o céu. Caminhar por entre estas colinas relvadas transmite uma paz profunda, onde a passagem da vida parece harmonizar-se com a própria terra. Perto dali, o enigmático Cheomseongdae, o observatório astronómico em pedra mais antigo da Ásia Oriental, recorda a reverência com que os astrónomos de então liam o céu para governar a terra.
A modernidade de Gyeongju reinventa-se na rua Hwangnidan-gil, onde cafés de especialidade e lojas de design ocupam antigas hanok, com jovens vestidos com os coloridos trajes hanbok a cruzarem séculos num só instante. O regresso a Haeundae, em Busan, para mais um reconfortante churrasco coreano junto ao hotel, fecha um dia em que tocámos o coração mais intemporal do país.
Na Busan matizada de mar, cultura e tecnologia
O primeiro dia de setembro traz o último fôlego da viagem, dedicado à alma operária, artística e piscatória de Busan. A manhã sobe as encostas da Gamcheon Culture Village, outrora a favela de refugiados de guerra que a arte comunitária converteu num labirinto deslumbrante de casinhas em socalcos pintadas em tons pastel, escadarias sinuosas, murais vibrantes e esculturas que olham o mar ao fundo, uma prova de como a memória e a criatividade podem regenerar a dignidade de um lugar. Somos levados até lá por um extraordinário motorista de Uber, entre ruas íngremes e pontos de paragem icónicos, com ângulos únicos sobre a vila. Agora, o que mais parece impressionar neste local é a mancha visual do famigerado Principezinho, de Antoine de Saint-Exupéry, que vemos pintado por todo o lado numa mensagem expressa de superação e, mais uma vez, capacidade de sonhar.
A descida de volta conduz ao pulsar popular de Nampo-dong, para o almoço. Cruzar as ruelas do Gukje Market, do gastronómico Bupyeong Kkangtong Market e a calçada comemorativa da BIFF Square, o epicentro do Festival Internacional de Cinema de Busan, permite mergulhar na energia dos mercados asiáticos. Mas nada se compara à monumentalidade do Jagalchi Market, o lendário mercado de peixe. O chão molhado, o burburinho ininterrupto das Jagalchi Ajumma, as veteranas e resilientes vendedeiras de marisco, os tanques repletos de polvos, caranguejos gigantes e peixes das profundezas compõem um retrato cru e autêntico de uma cidade que extrai a sua força das entranhas do oceano.
O fecho perfeito dá-se com um último jantar em Haeundae Beach, ouvindo o rumor compassado da rebentação enquanto as luzes dos edifícios, alguns dos quais dos mais altos do mundo, se refletem na areia molhada. Para dentro da cidade, a imensidão de jovens consultando frenéticas e cintilantes mesas de tarot e muitos adultos atirando a sorte para numerosas lojas arcade, na mesma cidade que por estes dias acolhe a K-ICT Week in Busan 2026, no mesmo país que neste final de verão anuncia a oferta de inteligência artificial generativa para todos, apostando no acesso como serviço público.
Olhando em retrospetiva, da quietude dos templos milenares e da gravidade da fronteira em Seoul até à amplitude luminosa e marítima de Busan, a Coreia do Sul revela-se como uma grande lição de pertença e resiliência. Um país capaz de projetar o futuro com uma audácia desarmante, sem nunca largar o fio que o prende à sua terra, ao mar e aos seus antepassados e que, a milhares de quilómetros de casa, nos faz regressar com um olhar mais largo e lúcido sobre o nosso próprio lugar no mundo.













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