Ana Margarida de Carvalho

Em Não se Pode Morar nos Olhos de um Gato, Ana Margarida de Carvalho volta ao romance com «(…) o método de quem já tem os passos do futuro a tracejado no chão», para a citar a ela própria. Sabe para onde vai. Com a clarividência e a mestria de quem vê mais longe, de quem ouve os sons de muito perto. Galardoada pela Associação Portuguesa de Escritores com o Grande Prémio de Romance e Novela com o seu romance de estreia, Que Importa a Fúria do Mar, Ana Margarida de Carvalho surpreende-nos agora com o naufrágio ficcionado de um navio clandestino de escravos, que segue entre a Baía e o Rio de Janeiro, num Brasil onde a escravatura começa a distanciar-se. O grupo de náufragos, já numa praia intermitente dependente do movimento da maré, faz-se representar com diversidade inequívoca por um capataz, um escravo, um criado, um padre, um estudante, uma fidalga, a sua filha e um preto a estrear-se na capacidade de andar. A pedra de toque é que todos passam, nestas circunstâncias, a ter de conviver numa experiência de alteridade sem paralelo. Não se Pode Morar nos Olhos de um Gato estará, sem margem para dúvidas, entre os candidatos a melhor romance português do ano. E é sobre ele que Ana Margarida de Carvalho fala nesta segunda entrevista dada ao Entre Vistas.


Neste segundo romance, Não se pode morar nos olhos de um gato, devolve-nos a explicação do título do seu primeiro romance, A Fúria do Mar, certo?

De certa maneira, sim. É engraçado fazer essa observação porque eu própria não tinha pensado nisso assim. E ainda ninguém fizera antes essa associação que faz todo o sentido… É curioso porque o livro que tem menos mar é o que o contém no título. No Não se Pode Morar nos Olhos de um Gato o mar é de tal maneira omnipresente que se torna quase mais um personagem-vilão do romance. O mar é uma metáfora muito poderosa, literariamente muito arável, está mesmo aqui à beira, não lhe podemos escapar e invadiu-nos a literatura muito antes de nós o termos invadido a ele.

Na linguagem que assume nesta publicação, há uma diversificação vocabular e uma construção frásica que por vezes nos transportam para Mia Couto. É possível?

Sim, é possível. Como tantos outros. Nem sempre conseguimos apagar as pegadas e outros rastos que os nossos autores e as nossas leituras marcantes deixaram em nós.

Eu gosto de pensar que tentei escrever um livro sobre a alteridade.

Em quem (em que santa) se inspirou para a sua magnífica «santa de pau embarcada» que protagoniza todo o primeiro capítulo?

O natural seria que a santa patrocinadora do navio fosse santa Bárbara, mas a do livro vinha despachada de outras paragens… É engraçada essa pergunta porque, na verdade, tomei conhecimento da existência desta santa em Espanha: há uma igreja dedicada a ela em Ayamonte. Há muitos anos, desde pequena, que me intriga muito (passo férias muito próximo), e que me questiono na quantidade de inquietudes humanas a que esta santa deve acudir. É interessante porque a religião (pelo menos as três que nos estão mais próximas) é monoteísta, mas mantém muitos santos, cada uma para a sua aflição: trata-se no fundo de uma reminiscência do politeísmo. Esta Santa de Todas as Angústias é a santa mais monoteísta que conheço.  

Como é a sua relação com a religião? Qual é a sua fé?

Não tenho nenhuma. É inexistente. Sou nesse campo uma total descrente: é que não acredito em nada. Nem nos astros, nem nos búzios, em nada de nada. Para mim, a laicidade é das conquistas mais importantes num Estado de Direito. Em nome da religião, correu e corre muito sangue. Cometem-se atrocidades terríveis e hoje, no século XXI, tendo a olhar para ela como um fóssil histórico. Com o nível de conhecimento científico que alcançámos já podíamos dispensá-la, julgo eu. Etimologicamente significa religar, mas a realidade, sabe-se, é exatamente a contrária, provocando guerras e fraturas. Por isso resolvi que as personagens do meu livro estivessem mais próximos da linha de Epicuro. Ou seja, os deuses existem, ninguém questiona, mas não têm qualquer interesse no nosso humano formigar. Mas intimamente, penso que posso tentar ter uma mente mais aberta, e passar do ateísmo para o agnosticismo. Enfim, é um processo… vamos ver…


Ana Margarida de Carvalho Entre Vistas 63


A concentração das suas tão diferentes personagens no navio naufragado é uma interpretação (uma hipérbole, melhor dizendo) da complexidade das relações humanas? E, ainda mais, das diferenças sociais que o tempo da escravatura expunha com maior evidência?

Sim, sem dúvida, é mesmo isso. No fundo, sãos as personagens-tipo que fazia sentido existirem em finais o século XIX, no Brasil, justamente para provocar o efeito do contraste. Esta gente – um capataz, um escravo, uma senhora, um criado, um padre, um pretinho órfão, um jovem um bocadinho mais intelectualizado – provavelmente nunca interagiria. Porque todos os preconceitos – os de raça, classe, género, religião, etc., – seriam muito mais intransponíveis na época. Assim, confinados àquela praia intermitente estão condenados à convivência forçada. E se quiserem sobreviver não têm outro remédio senão tornarem-se num enorme monstro com muitos braços e muitas cabeças.  

Este livro centra-se numa abordagem da escravatura e, nessa medida, numa apologia sobre o outro, o lugar do outro, o ser outro. Qual é a sua relação com o “outro”?

Eu gosto de pensar que tentei escrever um livro sobre a alteridade. E gosto também de pensar que na minha vida tenho sempre presente essa capacidade de me colocar na pele daquele que se encontra numa situação mais desfavorável do que a minha. E se todos sentissem assim, talvez o mundo fosse bem mais justo.



Como chegou ao modelo de escravo que descreve neste livro?

Inventei tudo. Ou quase tudo: as partes mais terríveis da vida dele são baseadas nos tratos tragicamente cruéis de que eram vítimas.

«Quem nasceu para rastejar nunca poderá voar»?

Não concordo com a frase, não sou eu que a digo, mas sim uma das minhas personagens.

Tatiana Salem Levy, escritora brasileira que lançou recentemente um livro alusivo à escravatura, Paraíso, considera que as consequências da escravatura são evidentes até hoje no Brasil. Concorda? Considera que hoje temos outras escravaturas?

Bom, depois de assistir àquele triste e degradante espetáculo do empeachment da Dilma Roussef, viu-se bem a escassa representação parlamentar de negros. É uma vergonha e um embaraço histórico que os brasileiros devem resolver. E sim, a escravatura, no sentido de pessoas que são propriedade de outrem, continua a existir – vemos essas notícias no jornal.

A vida não faz sentido, nem tem de fazer. A ficção sim. É como dizia Manuel da Fonseca: «Esta coisa de viver um dia acaba mal»… Por vezes, mais prematura, ou de uma forma mais improvável, mas é sempre uma tragédia o que nos espera.

Parece que há no seu livro uma dicotomia amor/ódio, com benesses dadas ao ódio. Onde fica o amor? Ele existe? 

Existe pois. Há vários tipos de amor lá. E é outra forma de nos relacionarmos com o outro. Talvez a mais bonita, porque, através do amor, descentramo-nos, saímos de nós próprios.

O ritmo imposto pelas marés ao navio negreiro deste seu segundo romance funciona metaforicamente como o destino, que ora aprisiona, ora liberta?

Sim, esta é uma sociedade alternativa que se governa não por feiras, nem por semanas nem sequer pelo movimento de rotação da terra (o dia e a noite), mas pelo ritmo das marés. O que é claustrofóbico, sim, porque a praia inunda na maré cheia, mas por outro lado dá-lhes algo que a vida dificilmente poderia dar – que é uma segunda oportunidade, duas vezes por dia renovada. Quando a maré se recolhe, devolve-lhes uma praia limpa, intacta, sem os rastos, os despojos e as sujeiras que eles haviam feito. Eles têm a real oportunidade de começar tudo de novo. É uma espécie de destino de Sísifo, mas numa perspetiva até benigna.

Estamos de facto em míngua de homens com sentido de Estado. Parece que a maioria se move apenas ao nível da conjuntura e dos interesses particulares e da mesma tribo, como uma agremiação mafiosa, de troca de favores.

A determinada altura diz que «é sempre preciso um capataz para que o mundo ande para a frente». Como olha para as nossas lideranças?

Estou outra vez em desacordo com essa ideia proferida por uma personagem, e movida, seguramente, por um preconceito de época. Ou mesmo de agora. Estamos de facto em míngua de homens com sentido de Estado. Parece que a maioria se move apenas ao nível da conjuntura e dos interesses particulares e da mesma tribo, como uma agremiação mafiosa, de troca de favores. Nem sei como só a mera hipótese de podermos vir a ter um ser com uma debilidade cognitiva tão evidente na Casa Branca, não provoca um tumulto, uma revolução… É um palhaço, pode ser, mas é um palhaço perigoso. As elites (que governam os países, os mercados, os organismos europeus, as empresas, os media…) são o pior que o mundo tem.

A chave e a fechadura tatuadas na pele do capataz materializam (apesar de tudo) a solução que afinal sempre se encontra? A terra aparecida finalmente a um náufrago?

Simboliza sobretudo o mistério. Ela está tatuada na pele – sempre a pele e o lado de fora que é o tema deste livro – de uma personagem completamente opaca. Não sabemos nada dele, quem é, de onde vem, o que pretende…

Mas temos, ao mesmo tempo, a morte de Nunzio a lembrar-nos que «a natureza, além de ilógica, é imoral. Que sentido faz morrer à beira de um novo começo?» Faço-lhe a si a sua própria pergunta…

Pois, não tem sentido nenhum. A vida não faz sentido, nem tem de fazer. A ficção sim. É como dizia Manuel da Fonseca: «Esta coisa de viver um dia acaba mal»… Por vezes, mais prematura, ou de uma forma mais improvável, mas é sempre uma tragédia o que nos espera. Desta personagem ninguém vai sentir saudades, é um bocado triste. Faz-me lembrar o poema de Ruy Belo, porque também ele (e cito de memórias) anda tristemente pela vida como quem regressa e entra humildemente pela morte, quase sem dar conta. «Oh como é triste morrer à porta».


Não se pode morar nos olhos de um gato significa que não se pode morar num “não lugar”? Na medida em que não se pode desafiar o destino? É isso?

O verso é do O’Neill. Eu prefiro interpretá-lo de uma forma mais básica – se é que me é permitido interpretar uma frase de um autor tão grande e, além do mais, surrealista. É como contar um sonho ou explicar uma anedota: estraga tudo. Mas acho que os gatos, tal como as personagens, ou tal como muita gente de carne e osso, apenas se conseguem focar naquilo que lhes pode trazer algum benefício. Podemos ser fixados pela retina de um gato, enquanto lhe proporcionamos conforto, comida ou diversão. Se nenhuma destas coisas acontecer, ele rapidamente desvia o olhar.

Com esta segunda publicação (terceira, a contar com A Arca do É), já se sente escritora na verdadeira aceção da palavra? Depois de A Fúria do Mar, dizia-nos que lhe custava ainda apelidar-se como tal…

Não sei…

Ana Margarida de Carvalho

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