Fotografia do livro de Nádia Battella Gotlib, Clarice Fotobiografia.

 

Úrsula Passos, da Folha de São Paulo, e Isabel Coutinho, do Público, moderaram a terceira edição do Encontro de Leituras, uma iniciativa promovida por ambos os jornais, unindo leitores do Brasil, Portugal e Angola, desta vez em torno de Clarice Lispector. Mais de 200 pessoas estiveram online, durante 3 horas. Com A Paixão Segundo G.H. como ponto de partida.

Para abordar a grande escritora do século XX, foi convidada Nádia Battella Gotlib, professora da Universidade de São Paulo especializada em literatura brasileira, literatura portuguesa e estudos comparados de literatura de língua portuguesa. Biógrafa de Clarice, assina Clarice, uma Vida que se Conta (1995) e Clarice Fotobiografia (2008). Ouvi aqui Nádia Battella Gotlib pela primeira vez e, confesso, fiquei absolutamente fascinada, não só por conciliar um conhecimento vastíssimo e arrebatador da obra e da vida de Clarice, mas também por um entusiasmo enorme pelos seus mistérios e, simultaneamente, um sorriso e uma ternura notáveis na abordagem e na interação com quem com ela partilhou inquietações claricianas.

Eu, que assisti à sessão do primeiro ao último minuto, retirei um conjunto de notas. E apesar do parcial rigor do ouvido, fixei estas frases de Nádia Battella Gotlib, motivada por contribuir para um entendimento sempre crescente e partilhado da incontornável Clarice…

Clarice com Nádia Battella Gotlib 71

A conversa arrancou com um comentário sobre a possibilidade de a obra de Clarice estar mais vocacionada para as mulheres. Nádia Battella Gotlib advertiu que «existe uma grande percentagem de personagens mulheres na obra de Clarice e que os homens existem em função das mulheres, como coadjuvantes. Ela escreveu para mulheres 450 páginas em colunas femininas, na imprensa carioca. Mas até esses escritos não são só para mulheres». Nádia Battella Gotlib foi ainda mais longe: «O que ela quer é chocalhar conceitos e certezas absolutas, preconceitos da sociedade machista, paternalista, autoritária. O que ela trata na obra dela é a condição humana. Ela acolhe na literatura também as minorias. Ela tem uma força de mudança e de revolução muito grandes. Clarice escreve para o mundo, para todos».

Num segundo momento, foi projetado um trecho da única entrevista dada por Clarice em televisão, em fevereiro de 1977, apenas divulgada após a sua morte. Neste contexto, Nádia Battella Gotlib recordou que «uma das excentricidades de Clarice é ela negar-se a responder a algumas das perguntas de Júlio Lerner, da TV Cultura, nessa última entrevista que deu». Na parte projetada da entrevista, Clarice refere-se aos pais. «Ela tinha uma certa piedade pelo pai, que podia ter-se desenvolvido mas não teve acesso aos estudos na Ucrânia. Teve uma vida de quase miserabilidade. Já em relação à mãe ficou espantada por ter descoberto que escrevia».

Em resposta a outras questões que se foram multiplicando, em intervenções femininas e masculinas e de ambos os lados do Atlântico, Nádia Battella Gotlib recordou que Clarice «escrevia em papéis soltos, talão de cheque, guardanapos em restaurantes, frases que depois unia para compor. Esta ideia do fragmento vem desde o seu primeiro romance, Perto do Coração Selvagem, que publicou com 23 anos. Era muito nova mas já seguia esse método de escrever em folhas soltas».

Numa nota mais pessoal e impressiva sobre a escritora, Nádia Battella Gotlib diz-nos: «Clarice refere-se a Brasília como espanto inexplicado. É isso que eu sinto quando leio Clarice. Acho que a arte é isso, coloca-nos perante o inexplicado. E Clarice vai um passo adiante: ela coloca-nos perante o ininteligível. Ela desmonta o corpo físico, o corpo intelectual, o corpo político. Ela leva a gente, a gente não sabe para onde está indo».

«É essa desorganização profunda, de resto presente em A Paixão Segundo G.H., que Clarice provoca em nós». «O que é que acontece em G.H. no quarto da empregada? Não será o mesmo que acontece no Jardim Botânico? A barata é o quê? Quando encara a barata, encara a sua própria experiência de estar sendo. Simbolicamente, existe essa experimentação do que é o sumo do ser vivo. Aí então ela sente o poder da vida. É um hino à vida, à energia, à força vital. Esse livro traduz muito o poder do marginal (da serviçal) em relação à elite. Há também aqui um sentido político muito forte».

Com a entrada de novas questões, surgiu a ideia de liberdade clariciana. «Clarice rejeitava qualquer inserção em sistemas fechados. Nunca participou em associações ou grupos fechados, em nome de uma liberdade. Não aceitava etiquetas. Todas as personagens procuram um caminho libertador. Todas têm uma perspetiva aberta». Aqui, Nádia Battella Gotlib recentra a conversa em A Paixão Segundo G.H.: «A procura da coisa de Clarice é o núcleo da barata, são as pulsações de vida. Clarice rompe com os sistemas fechados. Ela quer ir onde? Atrás do pensamento. É uma perceção de vida por uma outra via». E a oradora prosseguiu, citando Clarice: «Eu sou uma citação de mim». «Ora, o que ela quer em G.H é tirar as aspas. É sair dela. É o eu despersonalizado. Sair do que é racional e pensável para o território atrás do pensamento».

Num outro momento, a convidada centrou-se na importância do Jardim Botânico. «No Jardim Botânico do Rio de Janeiro acontece uma coisa maravilhosa. Ali ela experimenta tanto frutos apodrecidos como o encanto de dálias e tulipas. É o mundo onde ela percebe o que é a condição humana, ser feito de coisas ruins e boas ao mesmo tempo».

Nádia Battella Gotlib fez, ainda, uma partilha pessoal: «Com a pandemia, voltei a ler Clarice. Há períodos em que lemos Clarice de um jeito ou de outro. Estou agora lendo Clarice muito do ponto de vista ético e político. Ela veio bebé de colo para o Brasil, fugida dos pogroms. O que mais vemos na obra de Clarice são as marcas do respeito ao outro».

Na contestação permanente que Clarice faz aos poderes da linguagem, surge aí um instrumento de acesso a «isso a que seria tudo», como nos lembrou Nádia Battella Gotlib. Ao lermos Clarice, percebemos que o extraordinário é o ordinário, é o banal. E é curiosamente a partir desse banal que se impõe a evidência de que a vida é inenarrável. Como a própria Clarice o é. «Eu sou inclassificável», escreveu. Também o é o seu mais ínfimo desejo: «A liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome».

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