Numa conjuntura tão difícil para todos os eventos, há uma notícia excelente e incontornável. Está de volta, passados 20 anos, o emblemático Festival de Música dos Capuchos, revelando uma inestimável capacidade de resistir às dificuldades, aos contratempos e ao tempo.

Fundado em 1981 e interrompido há duas décadas por falta de verbas, o saudoso evento musical regressa agora com um programa notável, no ar entre hoje e 3 de julho. Realça-se a presença de Alfred Brendel, de 90 anos de idade e considerado «o último monstro sagrado do piano», possivelmente dos maiores músicos entre nós. Neste Festival de Música dos Capuchos, o músico far-se-á acompanhar do filho Adrien Brendel. É também destaque o alaudista americano Hopkinson Smith, que faz um regresso ao festival. Marcelo Nisinman, apontado como o grande discípulo de Astor Piazzolla, consagrará outro dos momentos mais esperados num concerto em quinteto para um tributo ao centenário do nascimento do renomado compositor argentino. Marcará presença, ainda, a Orquestra de Câmara de São Petersburgo, uma das mais ilustres da Rússia.

À margem da música ou, melhor, numa religação sempre viva entre a música e a literatura, a edição deste ano do Festival de Música dos Capuchos celebra três nomes da literatura de sempre: Dante, Baudelaire e Dostoievski. Como proémio da jornada de música, em três fins de semana seguidos, assistiremos a três conversas conduzidas por Carlos Vaz Marques. A primeira, desafiando António Mega Ferreira e Jorge Vaz de Carvalho a refletirem sobre a importância de ler Dante neste ano em que se assinalam os 700 anos da morte do escritor italiano. Na segunda, com contributos de Pedro Mexia e Joana Matos Frias, e por ocasião do bicentenário do nascimento de Baudelaire, ganhará foco a invenção da modernidade poética. Na última sessão literária, António Pescada, Guilherme d’Oliveira Martins e Hélia Correia fazem um tributo a Dostoievski, génio da literatura nascido há duzentos anos, a partir da obra do autor Os Irmãos Karamazov.

A literatura estará, assim, entre o palco principal da música do Festival de Música dos Capuchos, onde orquestras, compositores, músicos de dentro e de fora de portas, música antiga e moderna farão uma homenagem sempre necessária e merecida ao papel da música na compreensão de épocas e gerações e à interdisciplinaridade da cultura. Num espaço belíssimo que é ele próprio maior que o tempo, o Convento dos Capuchos.

O Festival de Música dos Capuchos estará no tempo a competir com o Euro2020, mas valerá mais do que a pena, como no Euro2020, ir com tudo.

Festival de Música dos Capuchos regressa 20 anos depois 73


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