H á uma nova publicação na cena cultural portuguesa, é de bolso e edita ensaios autobiográficos, a contraciclo com o mais comum. É a Mamute. São de Gonçalo Mira, seu fundador, mentor e construtor, as respostas às questões que hoje se impõem. No prefácio de um livro, leu uma referência à New American Review, «uma revista literária em formato de livro de bolso que dava preferência a textos recentes de jovens escritores». Deu-se aí o ímpeto para lançar a Mamute, desafiar e receber o desafio de quem gosta de escrever e através do que escreve poder contribuir para pensar um mundo em mudança. Num contributo para a consciência social aonde a literatura nos pode sempre fazer chegar. Em tempos tentara, conforme nos conta no seu editorial tremendamente franco do 1.º número da Mamute, dar início a um projeto idêntico mas o grupo de pessoas ao qual Gonçalo Mira se juntou para o fazer acabou por não agregar a sintonia e o esforço necessários para a batalha que estaria por vir. Pensou fazê-lo a solo e com a convicção de que, tendo agora dinheiro para investir mas faltando-lhe o tempo, despedir-se seria a «única solução que tornaria possível a Mamute». Foi o que fez. E nasceu o “mamute” que podemos trazer no bolso.


Qual é a sua memória mais antiga à volta da leitura? 

Apesar de ter muito má memória, há um livro da minha infância que nunca esqueci. Chamava-se Porque maltratamos os animais, era um daqueles livros infantis informativos, com muitas fotos e pouco texto. Tinha na capa um macaco com um vestido, maquilhado, a segurar um microfone. Falava de experiências de laboratório, peles para fazer roupa, circos, etc. O que mais me marcou, contudo, foi a história dos tigres que morriam de tédio em jardins zoológicos, em jaulas pequenas. A ideia de morrer de tédio pareceu-me a coisa mais triste do mundo.

A ideia de criar uma publicação com as características da Mamute surgiu, precisamente, enquanto leitor (de um livro cujo prefácio se referia a uma revista, a New American Review). Em que tipo de leitor se tornou o Gonçalo Mira? 

A minha formação enquanto leitor foi um misto de influências de amigos e exploração autodidacta. Os meus pais não liam, tínhamos pouquíssimos livros em casa, fazia-se um inventário em cinco ou dez minutos. Mas quando eu me comecei a interessar, ofereciam-me livros todos os meses. E deixavam-me escolher, o que terá potenciado o meu interesse e vontade de descobrir coisas novas. Com o tempo, tornei-me num leitor eclético, com um certo pendor para a contemporaneidade. Não me interessa muito a ideia de cânone ou de clássicos obrigatórios. Também prefiro continuar a descobrir autores que nunca li, sejam de agora ou não, do que ler a obra completa de um autor.

E como foi com a escrita? Clarice Lispector, por exemplo, aos 13 anos, decidiu que queria escrever, depois de ler O Lobo da Estepe, de Hermann Hesse. Há um “detonador” no seu caso? 

Não sei que idade tinha, mas lembro-me de escrever um “livro” chamado Uma Aventura no Concerto, que era um pastiche da colecção “Uma Aventura”, mas em que os personagens eram o meu irmão, dois amigos nossos, que moravam perto, e eu. Tínhamos de resolver o mistério do roubo da guitarra dos Metallica – uma banda que eu nunca tinha ouvido na vida, mas que devia ter visto nos posters do quarto do meu primo. Depois passaram uns anos e, na adolescência, comecei a interessar-me pelo mundo do hip-hop. Tive uma péssima carreira como rapper, em que actuámos apenas uma vez, “tocando” apenas uma música. Mas escrevi várias letras e regressou aí o bichinho da escrita. Depois tive um blogue, também muito mau, onde eu e um amigo escrevíamos micro-ficções poéticas. À medida que a minha noção de qualidade literária foi evoluindo, tudo o que tinha feito no passado me parecia mau. Felizmente, escrevi muito pouco. Hei-de continuar a tentar.

Para a Mamute, interessa-me mais as histórias do que a forma, isto é, não vou impor uma maneira de escrever aos autores. Mas claro que haverá sempre uma avaliação da escrita. E se houver uma história muito boa, mas muito mal contada, vamos ver se é possível melhorá-la.

A Mamute surge, de acordo com as suas palavras, com o propósito de levar a pensar o mundo. Considera que este objetivo poderá beneficiar do registo autobiográfico que caracteriza a publicação?

Acredito que sim. O texto autobiográfico acaba por ter, muitas vezes, esse pendor para abordar temas mais “universais”, através da experiência particular dos seus autores. Isto não quer dizer que todos os textos tenham essa natureza, nem que eu o imponha aos autores. Acredito que o próprio género potencia isso e da amostra que tenho, de ideias e textos que me chegaram, tem-se confirmado.

Hannah Arendt disse que «toda a dor pode ser suportada se sobre ela puder ser contada uma história». Pego nesta citação para perguntar: o testemunho dado na primeira pessoa dependerá da forma como se souber contar (criar) a “história”, certo?

Como qualquer outro género literário, a mesma história pode ser contada de muitas formas diferentes. E a história mais incrível do mundo pode ser contada de forma aborrecida, pouco impactante, que deixe o leitor indiferente, tal como a história mais banal pode criar o efeito contrário. Para a Mamute, interessa-me mais as histórias do que a forma, isto é, não vou impor uma maneira de escrever aos autores. Mas claro que haverá sempre uma avaliação da escrita. E se houver uma história muito boa, mas muito mal contada, vamos ver se é possível melhorá-la.

As vantagens da independência estão na própria palavra: temos liberdade para experimentar, para arriscar, para publicar textos desafiantes, autores novos e desconhecidos e podemos definir as nossas próprias metas.

Vamos ao timing de lançamento: a pandemia obrigou a uma maior coragem para lançar a Mamute ou acabou por reunir as condições certas para um impulsionamento que não se daria em circunstâncias “normais”? 

Acho que as duas opções estão correctas. A coragem não tem tanto a ver com o lançar o projecto em si, mas sim em ter-me despedido do emprego onde estava para fazer isto. Por outro lado, havia esse impulso que se sentia, de as pessoas confinadas estarem à procura de coisas novas, atentas a projectos arriscados. Diria que a pandemia não nos prejudicou muito, e até nos beneficiou em algumas coisas, mas como ainda não nos livrámos dela, não tenho ponto de comparação.

Na Mamute, exercita a sua veia de crítico literário no escrutínio dos textos, em linha com atividades anteriores. O que faz exatamente o editor da Mamute

O editor da Mamute faz quase tudo. Redes sociais (texto e uns toques de design), e-mails, divulgação, escrever moradas e ir aos correios levar as encomendas, etc. Enquanto editor propriamente dito, faço aquilo que não posso fazer enquanto crítico: ajudar a melhorar e corrigir as falhas nos textos. Como a maioria dos autores submete primeiro uma ideia, é possível encaminhar ainda antes de o texto ser escrito – quando a ideia me parece estar inclinada para um rumo que não é o melhor. Quando recebo o texto final, o grau de intervenção varia muito, mas há sempre coisas a melhorar e depois da minha edição e revisão continuarão a haver.

Do seu ponto de vista, quais as principais vantagens e fragilidades de uma publicação independente? 

A fragilidade é inerente à ideia de publicação independente. O orçamento é muito limitado e não permite falhas. Uma estrutura empresarial pode publicar com prejuízo e ir trabalhando para inverter o gráfico, nós não. Tem de correr sempre bem e quando deixar de correr bem acabou. Também temos muito menor capacidade de marketing, temos de dividir a atenção por todas as tarefas necessárias. As vantagens da independência estão na própria palavra: temos liberdade para experimentar, para arriscar, para publicar textos desafiantes, autores novos e desconhecidos e podemos definir as nossas próprias metas.

Gonçalo Mira Entre Vistas 73

Quem pode escrever para a Mamute?

Toda a gente que saiba escrever, tenha uma história para contar e que seja tolerante, que tenha o coração no sítio certo, como se diz.

E quem considera que a pode ler? Com que públicos conta?

Toda a gente que saiba ler. Sendo que publicamos um género muito pouco praticado em Portugal, não consigo definir o público-alvo nem entrar nessas definições do marketing. Acho que podemos apelar ao público que gosta de livros e ao público que gosta de revistas (livros sérios e revistas sérias, vá, seja lá isso o que for) e ao público que gosta de projectos independentes e ao público mais engajado politicamente. Isto é, acho que o público potencial é vasto, temos muito por onde crescer, e vamos tentar fazê-lo dentro das nossas possibilidades.

Gonçalo Mira Entre Vistas 74


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