Madalena d’Orey

Há um marco que enche a alma de Madalena d’Orey: 664 sonhos realizados na Terra dos Sonhos. Mais pela qualidade, menos pela quantidade. A organização por si liderada desde 2016 e que ao longo de 11 anos tem levado a cargo um trabalho hercúleo de sensibilização, inspiração e capacitação da sociedade portuguesa para a importância do sonho como detonador, combustível da vida. O sonho como um dos contributos mais valiosos para a preservação da identidade do país, da matriz cultural do ser português, da força motriz no quotidiano anónimo e silencioso das pessoas. A Terra dos Sonhos visa dotar a sociedade para a importância da saúde emocional e atua junto de segmentos em situação de saúde física ou mental particularmente debilitada, como crianças e jovens com doenças crónicas, crianças e jovens institucionalizados e idosos. Marca também presença em organizações ou escolas que procurem, como a própria Terra dos Sonhos, promover a capacidade de sonhar e erradicar impossíveis. A Terra dos Sonhos é financiada por doações em espécie ou numerário, oriundas de parceiros, patrocinadores, mecenas, particulares e, ainda, através de ações desenvolvidas para a captação de fundos. Está vocacionada para franjas da população em contexto de fragilidade, mas evoluiu progressiva e reconhecidamente para a sociedade civil, cuja preparação e capacitação emocional são cada vez mais prementes. Nos seus 10 anos, em 2017, a Terra dos Sonhos dinamizou um musical com o mesmo nome, já estendido a uma segunda edição e assistido por centenas de famílias. Ávidas do sonho. E da capacidade de chegar ao impossível e ultrapassar o trivial tão afoito que o dia a dia corrido insiste em dar. Madalena d’Orey, a Presidente da Terra dos Sonhos, sobreviveu a uma doença oncológica no período infantojuvenil e o Instituto Português de Oncologia de Lisboa foi a sua segunda casa durante dois anos. Em 1993, foi sócia fundadora da Acreditar – Associação de Pais e Amigos de Crianças com Cancro, onde se manteve durante 15 anos e fundou os Barnabés, grupo de jovens doentes e ex-doentes que apoiam crianças com doença oncológica. Em 2007, aceitou o desafio de integrar a Terra dos Sonhos. Aqui, no Entre | Vistas, explica-nos porque é tão fundamental e urgente continuar a SONHAR.  

O ato de sonhar está muitas vezes conotado com a infância e a perceção de uma “vida inteira pela frente” para a realização do sonho (que se adia). Na Terra dos Sonhos, porém, há uma apologia quase pedagógica do sonho como força motriz, certo?

É isso mesmo. A Terra dos Sonhos é uma organização social que este ano celebra 11 anos e que apareceu pela mão de uma pessoa que acreditou no sonho, Frederico Fezas Vital, o fundador e líder de um grupo então de 33 pessoas, do qual eu fiz parte desde o início. O objetivo da Terra dos Sonhos é precisamente o de inspirar, sensibilizar e capacitar a sociedade para a importância da saúde emocional através da realização de sonhos e de programas de capacitação. Trabalhamos com três públicos diferentes de missão: crianças e jovens com doenças crónicas, crianças e jovens institucionalizados e, ainda, idosos. E o que fazemos efetivamente é criar um momento a estas pessoas em que possam sentir a criança que há em si e o impacto que pode ter o sonho para a própria estabilidade de vida. Através do projeto mais antigo da Terra dos Sonhos, a Fábrica dos Sonhos, tentamos perceber junto destes públicos o que é que na cabeça deles é mesmo impossível. Enviamos para o efeito uma equipa de voluntários (tipicamente composta por duas pessoas) que segue para o terreno para auscultar os aparentes impossíveis destas pessoas. Uma vez cumprido este diagnóstico, é feito um plano de ação para a realização do sonho. É muito importante percebermos que não estamos a falar meramente de uma coisa material. A componente sistémica de toda a família é ativada. Temos o exemplo de um sonho que começámos a realizar esta manhã a um menino com uma doença neurológica muito grave, cujo sonho é ir à Brincolândia. A equipa de sonhos rapidamente se apercebeu do impacto desta experiência na vida desta criança, que tem um irmão exatamente com a mesma doença. Podemos, pois, imaginar as repercussões da materialização do sonho em toda a família… Os próximos dias serão decisivos para esta família que terá a oportunidade de conviver com a força dos sonhos e da sua realização. Com isto, infelizmente, não vamos curar a doença destes dois irmãos, mas acreditamos que com toda a certeza viverão menos mal com o que têm.

Madalena, tocou num ponto essencial: o impossível…

Nós, aqui, acreditamos que não existem impossíveis. O nosso trabalho permite-nos perceber que, mesmo que existam sonhos não realizáveis, não existem impossíveis. Se a criança quiser ir à lua, não irá à lua. Mas nós arranjaremos uma forma de a lua chegar à criança. O que é que a lua lhe traz de tão impactante para que ela queira ir à lua? É nisso que vamos trabalhar, é nisso que nos vamos focar para que ela alcance da forma mais criativa possível o que a lua lhe pode trazer. Para que ela possa acreditar. Lembro-me, por exemplo, de uma criança dos PALOP [Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa] que tinha o sonho de voltar para Cabo Verde e, devido às circunstâncias de uma doença, não foi possível proporcionar-lhe esse regresso. O que fizemos? Foi então que Cabo Verde veio, durante um dia inteiro, aqui à Terra dos Sonhos, numa experiência única que conseguimos celebrar junto desta criança. Através de comida, de sons, da decoração, enfim, recriámos aqui o ambiente de Cabo Verde. Quando não é, por qualquer motivo, possível concretizar um sonho do modo específico que nos é pedido, contornamos e recriamos, tornando possível o impossível. O sonho é que vem ter com a criança [sorriso].

Madalena d’Orey Entre Vistas 57O artista gráfico holandês neste momento em exposição no nosso Museu de Arte Popular, Escher, tem uma frase exemplificativa da capacidade de chegar ao inimaginável (ao sonho): «Somente aqueles que tentam o absurdo conseguem o impossível». Quem é o maior sonhador com quem já teve a oportunidade de se cruzar?

Existem dois sonhadores que me inspiram muito. Um deles é o Frederico Fezas Vital, o fundador [da Terra dos Sonhos]. E o outro, acho, sou eu! Simplesmente, porque eu acredito muito nos sonhos. O Frederico e eu somos muito idênticos nisso. Acredito, acima de tudo, no trabalho. Para se conseguir levar uma organização como a Terra dos Sonhos é preciso muito, muito trabalho, mas também é necessário sonhar. Falo de um sonhar completamente consciente e que exige trabalho e dedicação, como em qualquer outra área. Eu não sei como explicar o que sinto cada vez que sou confrontada com um novo sonho que identificamos. O sorriso destas crianças… O impacto do sonho na vida delas… Mas para que isso aconteça, é preciso que alguém sonhe mesmo. E é por isso que cada uma das pessoas que trabalha na Terra dos Sonhos funciona como um agente de felicidade, contagiante. E, quem sabe, serão eles no futuro a liderar a Terra dos Sonhos e a passar este testemunho e esta força de atuar pela via do sonho.

Considera-se, então, a principal dreamer da Terra dos Sonhos?

Sim, sem dúvida. Mas, acima de tudo, acredito muito neste projeto. E os resultados são muito evidentes. Neste momento, sinto-me chamada a sonhar, aqui, na Terra dos Sonhos. Já aconteceu anteriormente, quando fiz parte do grupo de pessoas que fundou a Acreditar – Associação de Pais e Amigos de Crianças com Cancro. No futuro, poderei estar noutras paragens. Mas, agora, é aqui que quero sonhar.

Que balanço faz dos 11 anos da Terra dos Sonhos?

A Terra dos Sonhos tem vindo a crescer de uma forma muito estruturada e bonita. Conseguimos sentir aquilo que nos está, em cada momento, a ser pedido. Inicialmente, tínhamos como público de missão apenas crianças e jovens com doenças crónicas. Começámos a sentir que era importante passar também a crianças institucionalizadas a mensagem da autoestima, da comunicação positiva, da gestão das emoções e da aceitação da mudança. Por isso, alargámos a nossa atuação também a este público. E, ainda, a idosos. Independentemente da idade, existe uma criança no interior de cada pessoa. E, ao realizarmos um sonho a um idoso, procuramos promover a redescoberta dessa criança.

Há cinco anos, criámos a Unidade de Felicidade assente em programas de capacitação em grupo, ancorados nas ferramentas de que falava há pouco [a autoestima, a comunicação positiva, a gestão das emoções e a aceitação da mudança]. Estes programas, com a duração de entre 6 a 12 semanas e com a orientação de uma psicóloga, dão instrumentos de mudança a cada uma das crianças para que elas depois decidam fazer o que quiserem com eles.

Destaco também a Casa dos Sonhos, uma grande aposta da Terra dos Sonhos. Falo de um grande ativo da organização e onde de resto é hoje a sede. Esta casa é da Fundação D. Pedro IV, que acreditou no nosso projeto e que por isso nos cedeu este espaço por 25 anos. Penso que esta casa simboliza muito o crescimento da Terra dos Sonhos. Uma fundação que acredita na nossa missão desta forma tem um enorme valor…

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Essa cedência materializa-se em 2015. E falamos de um edifício emblemático do século XVIII… Esta mudança sinalizou a entrada da Terra dos Sonhos na maturidade?

Parece-me que sim. A Terra dos Sonhos já deixou, neste momento, de ser criança e está a crescer com os pilares bem assentes. Esta casa permite-nos, até, alguma sustentabilidade, nomeadamente através do aluguer do espaço para festas de anos, reuniões e formações de empresas. Mas, atenção, tudo o que promovemos aqui com os nossos públicos de missão é gratuito. Realizamos, com frequência, o aniversário de crianças com doenças crónicas ou institucionalizadas e é com todo o amor que o fazemos. Sinto que esta casa foi essencial para a Terra dos Sonhos. Funcionou como uma prova de confiança no nosso projeto, que todos os dias cresce. Sinto uma enorme gratidão.

Dos 664 já realizados pela Terra dos Sonhos, que sonho foi mais custoso, desafiante e, nessa medida, provavelmente, também o mais saboroso?

Apostamos mais na qualidade, do que no número dos sonhos. Muitos dos sonhos são, inclusive, subdivididos em vários momentos. Não é nosso objetivo que seja só entregue algo material. Queremos impactar o ecossistema dos nossos públicos de missão. Conto-lhe o exemplo do Roberto, um jovem com paralisia cerebral e que não se mexe praticamente do pescoço para baixo. Quando a sua candidatura chegou à Terra dos Sonhos, dizia-nos que o Roberto gostaria de ir ao Benfica e conhecer os seus jogadores. A equipa de investigação do sonho do Roberto, da qual eu também fiz parte (por vezes, vou para o terreno e sabe-me tão bem!), foi a casa do Roberto fazer uma avaliação mais detalhada do seu sonho. Constatámos que ele passa a maior parte do tempo numa casa muito pequenina, sem televisão. Rapidamente percebemos que era muito importante que ele passasse a ter não só uma televisão, mas também um computador ajustado à sua condição física. Ele já tinha desistido de pedir o computador e de sonhar com o que quer que fosse. Fomos então um dia busca-lo a casa de surpresa, envolvemos em toda a iniciativa a sua mãe e irmã (lá está a dimensão sistémica…) e levámo-los a assistir a um jogo no estádio da Luz [Estádio do Sport Lisboa e Benfica]. Posteriormente, esteve com os jogadores e também fomos ao museu do Benfica [Museu Benfica Cosme Damião]. O Roberto foi filmado no estúdio da Benfica TV e celebrámos em conjunto o 600º sonho da Terra dos Sonhos. Noutro momento, trouxemo-lo aqui à Terra dos Sonhos e oferecemos-lhe aqui uma televisão e o computador adequado às suas necessidades. Este sonho teve impacto, portanto, na vida do Roberto, mas também na da sua mãe e na da irmã, que veem o Roberto mais feliz, com uma reação contagiante. O nosso objetivo na Terra dos Sonhos é, deste modo, realizar sonhos neste formato sistémico que prevê o envolvimento integrado das várias partes da família.

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Uma das formas que encontraram para celebrar os 10 anos de atividade da Terra dos Sonhos, em 2017, foi a dinamização de um musical, com o mesmo nome, que já evoluiu para uma segunda edição, com presença em Lisboa e no Porto. Fale-nos deste projeto.

O musical da Terra dos Sonhos superou todas as expectativas que pudéssemos ter. Eu trabalho há mais de 20 anos na área social e deve ter sido dos poucos momentos na minha vida em que senti um profundíssimo envolvimento de todas as partes integrantes do projeto, nomeadamente as empresas apoiantes. O que nós fizemos neste musical foi um convite para que cada pessoa entrasse nesta aventura do sonho. O argumento centra-se em duas histórias que se cruzam com a vida dos nossos públicos de missão. Por um lado, a de uma criança, a Marta, que tem um cancro, e de toda a sua família e, lá está, da importância do sonho. E, por outro lado, a história do Daniel, um rapaz que vive numa instituição e que acredita que é possível sonhar. O que este musical faz é desafiar cada pessoa na assistência a celebrar e sentir à sua maneira o tema do sonho. Todos nós somos diferentes e, nessa medida, cada um teve a sua experiência do musical. Por ser tão real, provavelmente, criou um impacto gigante, ao ponto de a segunda edição ter sido possível porque as próprias empresas patrocinadoras vieram ter connosco para renovar a iniciativa e levar esta mensagem a mais e mais pessoas.

Quem é que assistiu a este musical?

Assistiram, em todas as sessões desta segunda edição, muitas pessoas, famílias e também o nosso público de missão. Mas, nas duas edições, pudemos ver uma representação global da sociedade em geral. Tivemos, entre Lisboa e Porto, em 13 sessões, cerca de 10 mil pessoas a assistir. O retorno das empresas que apoiaram materializa-se em sonhos e, posso dizer-lhe, que com esta segunda edição do musical vamos realizar 13 sonhos, número idêntico às sessões do musical (primeira e segunda edição). 13 sessões e 13 sonhos. Eu acredito nestas sincronias. Sou uma sonhadora [gargalhada].

Acredito que a vida é um mistério. A vida e o sofrimento são outro mistério. Porque é que umas pessoas vivem mais, outras morrem tão cedo? Também é outro mistério. Apesar de não haver explicações lógicas para responder a estas questões, existe uma capacidade de escolha de cada pessoa para poder fazer algo de diferente.

O público-alvo da Terra dos Sonhos, como disse, é caracterizado por crianças e jovens com doença crónica e/ou institucionalizados e idosos. Que formação é exigida aos profissionais da Terra dos Sonhos para lidarem com grupos com estas especificidades? O que é preciso ser para integrar a equipa da Terra dos Sonhos?

Quem integra a Terra dos Sonhos, acima de tudo, tem uma vocação para a área social. Sente que, de alguma maneira, naquele momento, estar neste projeto é o que lhe está a ser pedido. Muitas vezes, este não é um trabalho fácil, porque temos de gerir muitas emoções. Mas quando vemos a realização do nosso trabalho, apercebemo-nos de que este é um trabalho que não tem de facto preço. Estamos no domínio do dar e do receber. Falamos também de pessoas que, de alguma maneira, estão já familiarizadas com estes públicos de missão, ou porque já passaram por alguma situação de doença, ou porque trabalharam com crianças institucionalizadas ou porque a vida as pôs de alguma forma neste caminho e, assim, ficaram sensíveis a estas necessidades e, desse ponto de vista, quiseram fazer algo de diferente em relação ao que veem na sociedade.

A capacidade de realizar um sonho a outrem também transforma a própria vida. É esse sentimento que tem visto na sua equipa?

Completamente. Temos uma pessoa que está há pouco tempo connosco a trabalhar na Fábrica dos Sonhos e de cada vez que ela consegue “fechar” um sonho, não há explicação para a reação dela. De uma coisa estou certa: nós recebemos aqui muito mais do que aquilo que damos. Com estes públicos de missão, estamos sempre, sempre a aprender. A mim, o que me faz acreditar neste tipo de projetos é que é possível criar um impacto brutal na vida destas famílias. Transformar algo que parte da dor em alegria profunda, através do sonho. Até porque com as crianças isso é relativamente fácil…  

Quais são os principais ensinamentos que já recebeu no contacto com estes sonhadores?

Poder dar graças pelas minhas escolhas e sentir que este é o caminho que me faz feliz. Acredito que a vida é um mistério. A vida e o sofrimento são outro mistério. Porque é que umas pessoas vivem mais, outras morrem tão cedo? Também é outro mistério. Apesar de não haver explicações lógicas para responder a estas questões, existe uma capacidade de escolha de cada pessoa para poder fazer algo de diferente. O meu maior ensinamento é, precisamente, esse. Poder sentir que, através da minha atuação enquanto pessoa e profissional, existem crianças, jovens e famílias, em situações muito complicadas, com apoio e muitas vezes até com felicidade.

A ciência tem evoluído muito. Existem tratamentos novos, melhor qualidade de vida e menos dor. Mas… a maneira como se comunica ao doente aquilo que está a acontecer com ele continua a ser de uma enorme exigência. Isso, às vezes, é o grande desafio.

As valências que a Terra dos Sonhos trabalha junto dos mais jovens – autoestima, gestão das emoções, comunicação positiva, aceitação da mudança – são cada vez mais fundamentais para qualquer pessoa na sua adaptação pessoal e profissional. É desta consciência que partiu a extensão da atuação da Terra dos Sonhos à sociedade em geral, nomeadamente a empresas e escolas?

Sim, sem dúvida. O futuro da Terra dos Sonhos também vai passar por aí, parece-me. As próprias empresas que nos apoiam ganham visivelmente, cada vez mais, a consciência da importância de trabalhar essas competências enquanto instrumentos de materialização de um conjunto de valores com os quais se identificam e pretendem que os seus colaboradores pratiquem. A Terra dos Sonhos pretende dar uma resposta cada vez mais completa a essas inquietações da sociedade como um todo.

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Que significado teve na sua vida a fundação dos Barnabés? Foi o começo da sua missão?

Sim, mesmo. Eu própria fui doente oncológica, ainda muito nova, numa altura em que a medicina tinha menos respostas para dar às várias doenças. E, na mesma altura, uma grande amiga passou exatamente pelo mesmo problema. Eu sobrevivi. Ela não. Senti que, por alguma razão muito forte, eu fiquei. Talvez tenha ficado com a missão de apoiar e ajudar a sonhar, através do meu exemplo, pessoas com processos semelhantes ao meu. E nos Barnabés, um projeto orientado para crianças com doenças oncológicas, eu senti exatamente que estava a dedicar-me à minha real missão. Como de resto continua a acontecer na Terra dos Sonhos.

Como olha para a evolução da ciência, concretamente, da medicina, no que toca à resposta para as doenças oncológicas?

A ciência tem evoluído muito. Existem tratamentos novos, melhor qualidade de vida e menos dor. Mas… a maneira como se comunica ao doente aquilo que está a acontecer com ele continua a ser de uma enorme exigência. Isso, às vezes, é o grande desafio. Olhar e acompanhar o doente como uma pessoa nas suas diferentes dimensões, independentemente da sua doença, é exigente. E, depois, toda a burocracia existente em torno dos processos hospitalares… Há doentes, principalmente em adultos, que desistem de lutar porque tudo em torno do tratamento é doloroso.

Como é que a Madalena d’Orey vê esta sociedade em que vivemos? Considera-a sonhadora?

É uma sociedade, como todas, constituída por pessoas. E eu acredito muito nas pessoas e na sua capacidade de sonhar. É claro que há pessoas preparadas para a mudança e outras que não. Mas há que acreditar nas pessoas. Sou uma otimista.

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Trago para terminar a última estrofe da Pedra Filosofal: Eles não sabem, nem sonham, / que o sonho comanda a vida, / que sempre que um homem sonha / o mundo pula e avança / como bola colorida / entre as mãos de uma criança. É eterno este poema?

É, é, é. Lá está a criança que existe em cada um de nós. Eu visito todas as semanas uma velhota com 102 anos que está viva porque continua com a criança dentro dela. Ela acredita que é possível sonhar e faz com que seja possível. Não adiou os sonhos. Continua a sonhar. É importante, por isso, as pessoas continuarem a sentir de vez em quando uma borboleta no estômago. É sinal que estamos em ação e com novos desafios. E isso é contagiante. Contagia o sonho. Só por isso é tão bom viver. E, acima de tudo, é importante celebrar as escolhas. E volto mais uma vez ao musical: as pessoas saíam de lá, precisamente, a dizer que esta coisa dos sonhos, afinal, funciona mesmo. É mesmo possível [grande sorriso].

Qual a frase que a caracteriza a si Madalena?

O medo é uma reação e a coragem é uma decisão!!


 + Informação Terra dos Sonhos

 

Madalena d’Orey

 

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