Neste dia em que, mesmo a contraciclo, vemos estrear nas salas de cinema nacionais o filme “Pinóquio”, de Matteo Garrone, ontem sessão de abertura da Festa do Cinema Italiano, paremos para olhar para esta figura relevante.

Nasceu no romance clássico do italiano Carlo Collodi (pseudónimo literário), em 1883, depois de em 1881 ter sido divulgado em folhetim, na Giornale per i Bambini, revista italiana semanal vocacionada para o público infantil. Com presença ininterrupta no imaginário da cultura popular, já inspirou argumentos cinematográficos, televisivos e literários sucessivos. Foi retratado em mais de 300 idiomas e serviu de matéria-prima a best sellers. Encarnou um perfil cândido na versão de Walt Disney, em 1940. Protagonizou uma das obras de Paula Rego, “A Fada Azul e Pinóquio” (1995), em que se evidencia o boneco/rapaz, de mãos fechadas, icónicas, atrás das costas. Em Roma, continuamos a ver Pinóquio por todo o lado. De todos os tamanhos. Até do nosso. É um chamariz comercial, para crianças e para adultos.

140 anos depois da sua invenção, Pinóquio permanece universal na sua condição de marioneta que queria ser um de nós. E que às vezes se confunde de tal forma com cada um de nós que somos nós que parecemos Pinóquio. Todos teremos, aliás, algo de Pinóquio. No que ele tem de patético e épico, de mártir e herói, de ingénuo e aprendiz, de desagradável e generoso, egoísta e abnegado. Pinóquio materializa os contrastes inerentes ao ser humano e, nessa medida, todos seremos Pinóquio. O filósofo italiano Benedetto Croce considera, inclusive, que «a madeira em que Pinóquio foi esculpido é a humanidade».

Na verdade, para quem não saiba, ainda, Pinóquio é na sua história original esculpido por uma figura também central na narrativa, Geppetto, um solitário a quem lhe é oferecido um pedaço de madeira rejeitado por um vizinho. Um pedaço de madeira com vida, ao que parece, do qual nasce Pinóquio. Um boneco, um rapaz, que se vai imiscuindo num conjunto de cenas rocambolescas. No pensamento ficcional de Carlo Collodi, vemos defendida a ideia de que aos meninos que se portam mal só acontecem coisas más e de que a quem mente cresce o nariz, numa apologia simbólica de lições e recados morais.

Pinóquio entra hoje nas nossas salas de cinema para recordar que estranhos tempos temos hoje, mais de cem anos depois, entre a verdade e a mentira, o que se diz que disse sobre o que é e parece, o que não parece mas é… e o pensamento que se constrói, acrítico, exposto e arriscado, sem saber (des)construir, sem saber validar, sem saber pensar. E ao qual talvez lhe cresça o nariz.

Ser Pinóquio – a marioneta humana 70

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