Na passada terça-feira, decorreu na Faculdade de Ciências Humanas (FCH) da Universidade Católica Portuguesa (UCP) a iniciativa MyCareer, que juntou em mesas redondas e workshops temáticos antigos e atuais alunos para uma saudável partilha de experiências. Na qualidade de antiga aluna, fui convidada para dinamizar um dos workshops e deixar o meu testemunho sobre o meu percurso profissional. Foi um feliz regresso a casa. Foi por lá, afinal, que estive durante os cinco anos consecutivos (período pré-Bolonha) do curso de licenciatura em Comunicação Social e outro par de anos (também período pré-Bolonha) do mestrado em Ciências da Comunicação. E, depois, entrar na FCH foi, desde logo, a realização de um dos meus sonhos. Era na UCP que dizia, desde pequena, querer estudar. E foi de facto assim que aconteceu.

Esta semana voltei à Universidade (um feliz regresso a casa) 64

Comecei, então, no meu testemunho aos alunos, por lhes dizer que estar ali era um enorme prazer, não só porque já me tinha sentado daquele lado, mas sobretudo porque aquele é um dos lugares onde me sinto em casa. A FCH contribuiu com uma percentagem incomensurável para aquilo que hoje sou como pessoa e como profissional. Foi ali que formei o meu pensamento, foi ali que consolidei valores, foi ali que conheci professores cujos ensinamentos ainda hoje fazem eco na minha cabeça, foi ali que fiz um grupo de amigos que conservo, foi ali que ganhei ferramentas para APRENDER a PENSAR. É a isso que um curso deve propor-se, disse-lhes: «fornecer-nos ferramentas para aprender a pensar, vida fora. Por isso é que é tão importante aproveitar cada segundo do curso: ele vai ter repercussões em toda a nossa vida profissional (e, de resto, em todas as outras vertentes)». E isto é demasiado sério. Não tem a ver com estatuto, não tem a ver com curriculum, não tem a ver com o canudo. Tem a ver com valores e conhecimentos. E o que fazemos com eles. Esclareci-lhes então que o curso tinha sido a meu ver muitíssimo completo, que é um verdadeiro exercício multidisciplinar, porque para além de todas as cadeiras específicas de comunicação, abrangeu a história, a economia, a psicologia, a sociologia, a cultura, a literatura, etc., proporcionando uma preparação cultural muito sólida, liderada por um corpo docente de excelência. A combinação destas duas coisas permitiu-me formar o pensamento e cimentar valores.

Mas, com a apologia de que a vida universitária oferece oportunidades de aprendizagem, crescimento e desenvolvimento intelectual que se materializam além dos programas curriculares, procurei conciliar atividades extracurriculares, que me possibilitaram consolidar também competências sociais relevantes: fui membro da Comissão Pedagógica em representação do curso; fui Vice-Presidente e Vogal de Comunicação Social e Cultural da Associação Académica de Ciências Humanas. Quis com isto aconselhá-los (se me é permitido) a frequentar o que é curricular e obrigatório e muito mais do que isso: «vão além disso, sejam participativos, sejam voluntários, façam parte ativa da comunidade em que estão inseridos, porque isso far-vos-á toda a diferença na vida profissional. Preparar-vos-á não só para os bons profissionais que querem ser, mas também – e isso é essencial – para os cidadãos conscientes e responsáveis que igualmente quererão ser.»

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Só depois de demorar propositadamente alguns minutos na importância do curso, passei para o meu percurso profissional, que suscitava no fundo ali a grande curiosidade. Era o momento para motivar aqueles jovens alunos para uma das possíveis vertentes do curso, a comunicação organizacional. Contei-lhes o quão significativa tinha sido a minha primeira experiência profissional, saída da UCP, numa redação de televisão: «participei da rotina jornalística, neste caso de uma redação de TV e, como qualquer outro profissional com anos de experiência, fiz as minhas peças de A a Z: fui ao terreno, entrevistei figuras proeminentes da nossa praça pública, políticos, escritores, profissionais de saúde e tantos cidadãos anónimos.» Esta foi, assim, disse-lhes, «uma verdadeira escola, porque obrigou a saber ser, a saber estar e a saber falar, a perguntar, a interpelar qualquer pessoa». Afinal, na aceção do poeta e padre (e Vice-Reitor da UCP), é na nossa PERGUNTA que levamos a melhor RESPOSTA.

Falei-lhes dos desafios profissionais que me surgiram depois, motivando a minha passagem para o outro lado da barricada, a assessoria de comunicação, e de como os diferentes projetos e experiências que foram surgindo ao longo dos vários anos me seguraram convictamente daquele mesmo lado. Embora reconheça que estar de um ou do outro lado implique conhecer muito bem os dois. E que as mudanças que a crise económica introduziram em todos os setores da sociedade têm impacto obviamente também no setor dos media. E que a ditadura tecnológica e do digital teve também repercussões na forma como se está de um lado ou do outro, lá está, da barricada. E que estar numa qualquer organização implica colocar em perspetiva o modelo organizacional tradicional, desde há uns anos em profundíssima mutação: mudaram as estruturas de acionistas, o modelo de clientes, internos e externos, e a configuração dos stakeholders. O equilíbrio entre a vida familiar deve ser hoje cada vez mais valorizado. O mundo está a mudar muito rapidamente e temos de acompanhar essa mudança. A dureza do objetivo quantitativo não é, pois, suficientemente poderosa para os resultados finais.

Alguns dos alunos iam olhando para mim, encerrados num tom quase inquisitório: para que servirá saber isto?! Outros (menos), percebi, entusiasmavam-se mais com este olhar mais cultural e de contexto. Pelo menos a alguém terá chegado ali a mensagem de que numa sociedade tão cheia de desafios, imprevisíveis cenários de crise e circulação de informações e fontes que se repetem sem quaisquer prioridades ou hierarquia, obriga aos profissionais do presente serem portadores de uma enorme criatividade e uma permanente capacidade de reinvenção, matérias-primas fundamentais nos dias que correm…

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Pelo meio, ficou a minha visão mais pormenorizada sobre o percurso profissional, após a qual voltei a falar da importância de para além do obrigatório integrar outros grupos, outros projetos, outras comunidades. E que o sucesso da atividade profissional depende não só do conhecimento técnico e científico, mas também (e em grande medida) do tipo de relações que se estabelece com todos os stakeholders e que, como em todas as relações, são o respeito e a confiança ingredientes capitais. Também para o sucesso contribui, hoje mais do que nunca, esse tal olhar sobre o que se passa lá fora, já que o mundo corre muito depressa e há que acompanhar essa mudança… Por isso também lhes falei do Entre | Vistas, que me permite realizar esse olhar, através do olhar de quem aqui vem e de quem aqui fica.   

Disse-lhes, por fim, que foi um privilégio estar ali com eles à conversa – naquele regresso a casa – e que lhes desejava que escolhessem em consciência e de coração aberto os seus percursos profissionais e que para tal me parecia ajudar muito uma coisa, muito simples (e complexa): «seguir com autenticidade a real vocação. Não ser cópia de, absolutamente, ninguém».

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