Outro dia abri uma caixa onde desde os 17 anos guardo crónicas, entrevistas ou quaisquer outras peças que por um motivo ou outro me impressionaram e persuadiram a separá-las para memória futura. De tempos a tempos, volto à caixa e que bom é reler as mesmas coisas com uns bons pares de anos em cima. Leia-se: com o olhar novo e filtrado que o evoluir do tempo sempre traz. E, mesmo assim, voltando a reconhecer a qualidade e a profundidade de algumas daquelas coisas que decidi guardar, tão contagiadas que estavam (assim me pareceu) pela intemporalidade que só os clássicos preservam.

Foi o que senti quando há muito pouco tempo reencontrei, nessa caixa, uma entrevista dada a uma publicação de uma marca comercial (dezembro de 2007) pelo economista, professor universitário e especialista em desenvolvimento e ética económica João César das Neves. Com várias reflexões já feitas sobre ética profissional e na qualidade de autor de publicações diversas na área da economia e fora dela, foi nessa entrevista levado por Sofia Sá da Bandeira a refletir sobre um conjunto de valores e princípios determinantes da felicidade. Nos antípodas dos chamados livros de autoajuda (que apenas convencem quem pela superficialidade e efemeridade dos temas se deixa levar), fez-me lembrar Bertrand Russell na sua obra A Conquista da Felicidade.

César das Neves avança desde logo com a apologia de que «(…) as sociedades estão tão preocupadas em construir a felicidade através do ganho que se esquecem que esta não se encontra tanto naquilo que se consegue, mas na forma como se vive cada momento». E as coisas que sucessivamente conseguimos dizem-nos precisamente isso. Porque a seguir, no limite, já estaremos focados nas que tanto queremos e ainda não conseguimos. É dramático. A felicidade está, também já o constatámos, naquele ímpeto, naquele ínfimo momento, naquela boa perturbação, naquela circunstância, naquela surpresa, naquele mistério que o tempo e a vida são. Sempre que o seu sentido é encontrado…

A propósito das dispersas espiritualidades que por diversas vezes surgem como embuste e falso consolo, César das Neves diz: «Quando temos um sagrado de trazer por casa, acabamos por substituir o verdadeiro desafio das nossas vidas por um conjunto de práticas, superstições e orações que não nos levam a lado nenhum». Mas há motivos prazenteiros que parecem apontar caminhos cheios de promessas. «Deixamo-nos enganar facilmente por coisas que parecem o Céu e não o são.» O economista fala, neste contexto, da felicidade de pacotilha.

Como Russell, César das Neves reforça nesta entrevista os pressupostos daquilo que considera ser a verdadeira felicidade, sem dar confiança aos aparentes rasgos atrás dos quais a mesma parece por vezes esconder-se. «Assistimos a dramas de pessoas que puseram o sentido das suas vidas em coisas que se degradam, apostaram a felicidade em coisas que se revelaram vãs e vivem o drama de se verem decair, apodrecer, denegando-o muitas vezes de si próprios.» Para César das Neves, a via para alcançar a felicidade é a bondade. E isso tanto hoje se confunde com o ser tonto/pateta, mesmo que as figuras mais proeminentes da filosofia o tenham sustentadamente contrariado.

Desafiado ainda a falar sobre a visão tantas vezes dominante do amor e uma cabana, César das Neves recorda que de bondade, mas também de amor, se faz a felicidade. Mas não do amor efémero, superficial e cheio de deslumbramentos que muito oportunamente se faz pavonear. «Um dos dramas de hoje é que as pessoas partem para o casamento com o ideal de um conto de fadas. Mas a felicidade não é isso. De repente surgem obstáculos. É nesse tropeço, nesse sofrimento, que se manifesta a realidade do amor.» Tal como a felicidade. De outra forma, não estaremos com certeza a falar do mesmo tipo de felicidade. A meu ver.


Entrevista em formato PDF


Felicidade de pacotilha ou o desafio do sentido? 64

 

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