Lembrava-se do meu rosto (sabe Deus de onde), assim que me viu entrar. Foi declarado no seu registo coloquial e no timbre de voz (quase) próximo daquele que usa para dizer poesia. Falo de Mário Guerra, o proprietário da Livraria Poesia Incompleta, na Rua de São Ciro, 26, à Lapa. A única do país, seguramente, e das pouquíssimas do mundo, única e exclusivamente dedicada à poesia. Vejam só (o que afinal existe por cá).

Fui à procura não sei do quê, entre a poesia. Estava por tudo. Vou de férias e o único critério para a escolha do que quero levar para ler é ser bom. Porque há um ritmo de qualidade a que nos habituamos quando somos leitores de há anos e isso é inegociável. Lamento. E se o que procuramos é poesia, sigamos então para a Livraria Poesia Incompleta, porque ali o que acontece é cinematográfico.

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Estava em destaque numa mesa, à entrada, O Olhar Diagonal das Coisas, daquela poeta que por estes dias se eternizou como acontece com os que morrem: Ana Luísa Amaral. Também olhei de relance, imediatamente, para o lugar de Adília Lopes, na prateleira em que logo vi a lombada de Dobra, a sua poesia reunida, que já tenho. Mário Guerra perguntou-me se já teria também Pardais. Ainda não e talvez estivesse na calha para o levar. Mas não.

Aberta a sugestões, ouvi-o falar de Margarida Vale de Gato, do Mulher ao Mar e Grinalda. De uma página aberta do livro, ouvi as palavras elásticas da autora que mereceu da expressão de Mário Guerra uma tremenda rasgada avassaladora admiração. Pela poeta que é e a tradutora que aguça o inglês, o francês, o alemão… Naquele momento específico de ouvir ler a poesia, inesperadamente num segundo do tempo, um espaço estendido e imaginado ali junto às estantes foi-me descrito como o palco em que, ali sim, a leitura da poesia se dá “oficialmente”, com o público que se junta às vezes para a levar, à poesia, aos ouvidos ávidos de sentir. «Quando estás só tens as manhãs todas/ de organizar o mundo; preciso grito/ intenso aqui agora. Lembro-me de ti/ já nem tantas vezes assim, lembro/ o que fomos à noite o dia desmentiu». Leio agora e imagino, nesse palco de recitar, esta parte do poema “Segundo Amor”, do Mulher ao Mar e Grinalda que comigo trouxe.

Falou-me de Paisagem com Grão de Areia, da polaca Wisława Szymborska, com o mesmo brilho no olhar. Saltou à vista, como poderia não acontecer, Rainer Maria Rilke e O Livro da Pobreza e da Morte. Cigarros pelo meio. O cheiro dos cigarros transferiu-me para os Versos de Amália. A poeta/fadista que se cantou. Perguntei-lhe depois pelos brasileiros. Veio à conversa Marília Garcia, que adoramos, ambos. Do Brasil, muitos ventos sopram de facto a favor da poesia. E da música, que me levou a avistar numa prateleira o Caetano, agora nos seus 80 anos. E focámo-nos, não fosse a finitude do tempo era ali que teríamos ficado, em Haroldo de Campos, nas suas galáxias carregadas de linguagem poética, de sílabas dialogantes, de sentidos verbais e às quais Caetano, precisamente, se referiu como proesia. Imaginem Mário Guerra a ler isto: «e começo aqui e meço aqui este começo e recomeço e remeço e arremesso e aqui me meço quando se vive sob a espécie da viagem o que importa não é a viagem mas o começo da (…)». Do Diabo isto.

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Surgiu, ainda, vejam só, Guimarães Rosa e o seu Grande Sertão Veredas. E Neruda. As suas perguntas todas. Porque lhe fiz, ao Mário, esta: «O que tem sobre a pergunta e a relevância do saber perguntar?». Lembrou-se logo, claro, do Pablo e do seu Livro das Perguntas. Falei-lhe do Cardeal. E da sua apologia da pergunta, que me contagiou e leva ao colo. Mas também se falou de Manuel António Pina e de como Se Desenha uma Casa. Fez inclusive parte desta viagem pela poesia Nelson Rodrigues, a propósito das crónicas notáveis que assinou. Porque a poesia leva-nos sempre mais longe, para lá do horizonte e da berma. Para lá do início. E, para lá dos cânones, falámos de Clarice. E da única entrevista que deu na televisão. E outras entrevistas, a partir daí, nortearam a conversa, que acabou centrada em Marshall McLuhan, o canadiano que estudou a comunicação debruçado num deslumbramento compreensível sobre Shakespeare.

E voltámos ao rosto. O meu. E o que fala. Quando fala de poesia. (Tudo) isto no ir a uma livraria? Pergunto.

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