Maria do Rosário Pedreira

NNa voz transporta a força medida de cada uma das palavras que pronuncia. Na postura, deixa que lhe leiam a relação privilegiada que tem com os livros, sobretudo com aqueles cujos autores trata inconfundivelmente pelo primeiro nome, apenas. Chama-se Maria do Rosário Pedreira, nasceu em 1959, em Lisboa, e é fã incondicional do livro em papel. Escreve a rimar desde que se conhece a pensar e, com o ímpeto recebido de dois homens da escrita e um prémio ganho com pseudónimo, lançou-se como autora. Na poesia – eventualmente a sua expressão mais perfeita – as suas palavras ganham o rasgo maior. Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas pela Universidade de Lisboa, foram-lhe abertas portas no ensino e na tradução e, mais tarde, assumiu funções como coordenadora de publicações temáticas. É hoje editora na LeYa, onde está responsável por descobrir e divulgar novos autores portugueses, conhecendo-se entre as suas apostas nomes como Ana Margarida de Carvalho, Carlos Campaniço, João Tordo, José Luís Peixoto e Valter Hugo Mãe. Da sua própria autoria, é possível ler Alguns Homens, Duas Mulheres e Eu (1993), A Casa e o Cheiro dos Livros (1996), O Canto do Vento nos Ciprestes (2001), Nenhum Nome Depois (2004) e Poesia Reunida (2012). Em 2012, venceu o Prémio Literário Fundação Inês de Castro. O seu nome assina letras de músicas que nos entram pelo ouvido, como Flagrante, de António Zambujo, ou o recente álbum de Aldina Duarte, Romance(s). Com disciplina militar, dedica-se ainda ao seu blogue Horas Extraordinárias, uma referência na literatura em Portugal. Aqui, Maria do Rosário Pedreira está Entre Vistas e, num itinerário pelos momentos chave da sua vida profissional, revela o cheiro dos livros e quais as competências literárias que a convencem a dar um livro à estampa.  


Acaba de regressar da Feira Internacional do Livro de Bogotá… Que retrato cultural conseguiu tirar da América Latina? Já que este evento reflete uma radiografia da posição cultural da América Latina (e não apenas da Colômbia)…

A Feira Internacional do Livro de Bogotá é uma das maiores a que já fui. Há muitas feiras do livro que são apenas, como a Feira do Livro de Frankfurt, uma feira de negócios, onde os editores de todo o mundo vão para comprar livros para publicar. Essas feiras, normalmente, não têm presença de escritores. A Feira Internacional do Livro de Bogotá, ao contrário, conjuga não só uma mostra de livros e o encontro de editores do mundo inteiro, como tem ainda uma parte – à semelhança do Salão do Livro de Paris – dedicada a debates, mesas redondas, leituras de poesia. Na Europa, portanto, temos feiras para vender livros e direitos e, paralelamente, temos festivais de escritores sem relação com o negócio. Em Bogotá misturam ambas as vertentes.

Do ponto de vista cultural, fiquei com a ideia de que se a Colômbia não tivesse o problema que tem com o tráfico, seria um país incrivelmente desenvolvido. Há imensa vontade de saber tudo, de ir a tudo, de ouvir as pessoas… Há livrarias fabulosas, que já não encontramos em Portugal, com todos os clássicos à venda, em versões de bolso e cartonadas. Bem, estamos a falar de uma língua maioritária, que agrega edições de vários países da América Latina e não apenas da Colômbia. Mas, mesmo na Universidade, apercebi-me de que há uma seriedade que dificilmente encontramos hoje na Europa. Os alunos pagam muito, à americana. São muito empenhados, não podem chumbar tendo em conta o que têm de pagar para ali estar. Bogotá é uma cidade enorme, tem 10 milhões de habitantes. Quem mora longe, levanta-se às 4h da manhã para chegar pelas 8h às aulas. Estamos a falar de alunos muito preparados. É curioso que, depois de todas as sessões que tive com alunos, havia sempre um ou outro que me levava ao Museu do Ouro, ou ao Museu Botero. Portanto, estavam preparados para acompanhar uma pessoa de fora e mostrar-lhe a sua cidade, para além da feira. Fiquei muito bem impressionada! Aliás, nunca tinha estado num país da América Latina que fosse uma promessa tão grande. Já estive, por exemplo, em Buenos Aires, que não tem nada a ver com o resto da América Latina, é muito europeia. Mas todos os outros países onde estive – Venezuela, Uruguai, Brasil – são ainda muito deficitários em termos culturais. Vê-se uma maioria de gente muito pobre, muito pouco alfabetizada. Já em Bogotá senti que se vê crescer todos os dias o número de pessoas mais informadas e escolarizadas. Mas não creio que este seja um exemplo da América Latina. Há coisas que se passam que só se passam ali. Eu diria que, das minhas viagens a feiras e festivais de escritores, talvez só no México tenha encontrado algo semelhante…

 (…) o gosto pela leitura é uma lotaria. Não é por darmos livros às crianças desde cedo que elas vão gostar de ler. Embora ache que, não os dando, então aí não lerão mesmo.

Recentemente perdemos duas referências literárias da América Latina: o colombiano Gabriel García Marquez e o uruguaio Eduardo Galeano. Quais são as suas referências literárias nesta zona do globo?

Inegavelmente, o [Jorge Luis] Borges. Não é uma referência para a minha escrita, mas é uma referência do que é novo. Portanto, é seguramente uma referência na minha vida editorial. Nunca ninguém entrou tanto em rutura com o que estava feito, como o Borges. Obviamente que gosto muito, quer do [Gabriel] García Marquez, quer do [Mario] Vargas Llosa. São fenomenais, de facto. Mas considero o Borges ainda melhor e tenho pena que nunca lhe tenha sido dado o Nobel. Há também dois outros autores que acho francamente geniais: [Julio] Cortázar e [Juan] Rulfo. Este último, quando escreveu Pedro Páramo, lançou os cânones do realismo mágico…

Participa regularmente em encontros nacionais e internacionais de escritores. Considera que esses encontros, quando a economia tende a sobrepor-se à cultura, acabam por ser meras fontes de negócios para o setor editorial? Ou há uma atenção clara à língua e à cultura? Bem, de acordo com o que disse, há encontros e encontros…

Claro! Portugal, que durante anos atravessou um vazio em termos de encontros culturais, hoje em dia vê em praticamente todas as câmaras uma verba afeta a essa área. Muito recentemente, por exemplo, decorreram num mesmo fim de semana três encontros: Sabrosa, Matosinhos e Oeste. Apesar de a Secretaria de Estado não apostar nem subsidiar esse tipo de iniciativas, as autarquias ao contrário preocupam-se cada vez mais com essa vertente. Agora, claro, seria desejável termos em vez de uma Secretaria de Estado, um Ministério, porque nesse caso a divulgação da língua portuguesa teria outra projeção. Eu trabalhei no escritório que organizou a presença portuguesa em Frankfurt, no ano em que Portugal era o país convidado, e não imagina o aumento das traduções de literatura portuguesa que houve no mundo inteiro nesse ano e, a partir daí, até 2000. Portanto, uma ação concertada do Governo e das autarquias pode fazer toda a diferença. Neste momento, não havendo dinheiro para nada, é muito difícil que os nossos autores cheguem a outras latitudes.


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Quando em março passado esteve em Macau (no festival literário Rota das Letras), pediram-lhe que montasse uma oficina de escrita de uma história para crianças, orientada para alunos do 4.º ano. Como viveu essa experiência? Há competências de escrita que vêm desde o ensino básico, certo?

Acredito que haja desde muito cedo uma predisposição para a escrita, que pode ainda não ser o talento… Nessa oficina que coordenei em Macau, os alunos trabalharam em grupos de uma mesma faixa etária. Ora, quando espicaçamos aqueles alunos, percebemos imediatamente quem são os que têm mais imaginação, os mais participativos e os mais calados e que não querem envolver-se. Obviamente que no trabalho coletivo não se detetam estilos, ou seja, não dá para perceber exatamente se alguma daquelas crianças pode vir a ter uma voz diferente da das outras. Para além disso, estamos a falar de um trabalho em grupo, por isso, no íntimo, cada um deles escreve uma frase através do coletivo. Mas, a verdade é que a determinada altura da história era necessário usar uma poção mágica e uma das crianças disse instantaneamente que dentro da poção deveriam estar «intestinos de barata». Ora, eu achei que aquilo era então o cérebro a trabalhar com criatividade, sem dizer apenas o evidente. Essa pode já ser uma manifestação do talento…

Quando a receita passa a ser mais importante do que a qualidade do que se publica, o autor perde o papel principal para o leitor. Daí ser necessário perguntar: o que é que o leitor quer ler? Ora, isto viciou todos os elementos da engrenagem.

Se lhe coubesse esse nível de decisão, o que alterava nos programas escolares por forma a incorporar a leitura no dia a dia das pessoas?

Não conheço bem os programas. Mas o que critico, à partida, é terem tirado autores que as pessoas nunca vão ler a não ser na escola. Nunca vão ter conhecimento do [Manuel Maria Barbosa du] Bocage, da Sophia [de Mello Breyner] ou do Camilo [Castelo Branco], se não for através da escola. Por norma, as pessoas não vão ler os clássicos. Vão antes ler aquilo que está a sair, de que se fala mais em cada momento, que tenha mais a ver com o seu quotidiano. Depois, o gosto pela leitura é uma lotaria. Não é por darmos livros às crianças desde cedo que elas vão gostar de ler. Embora ache que, não os dando, então aí não lerão mesmo. Portanto, é uma vantagem desde logo uma criança nascer numa casa que já tem livros, com pais que leem. Pela imitação, podem lá chegar. Lerem regularmente na escola, não apenas textos pontuais, mas textos de semana a semana para perceberem qual a dinâmica de um livro maior, é fundamental. Ainda assim, haverá sempre pessoas que não vão gostar de ler. Acho que é necessário haver um clique. E esse clique não se faz com todos os livros. Há crianças que vão aprender a gostar de ler com O Principezinho, outras com Os Cinco, outras com os livros infantis de Sophia de Mello Breyner. São todos diferentes! Por isso, é preciso que haja uma espécie de casamento feliz entre a obra e o leitor. O que é necessário é facultar a todas as crianças o acesso ao livro e, para tal, é fantástico o Plano Nacional de Leitura. Acredito que a paixão pela leitura acontece quase por milagre. Ao contrário do que as pessoas pensam, a minha paixão pela leitura dá-se por ter começado a ler cedo demais livros de adultos. Tinha uma família bastante liberal e desatenta, era a mais nova de quatro e, portanto, ia à estante com liberdade buscar o que me apetecia. A minha paixão pelos livros surgiu até pela incompreensão de certas coisas… Havia o ímpeto de começar a ler coisas que me ajudassem a perceber o que não sabia. Não fui lá pelo livro infantil… Esta paixão faz-se por razões diversas, porque todos nós somos diferentes.


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É editora na LeYa, onde está responsável por descobrir e divulgar novos autores portugueses. Que qualidades/competências tem de reunir um escritor para a convencer de que é um potencial talento da literatura portuguesa?

Isso é uma coisa que se sente mais do que se explica. Aquilo que digo sempre quando me perguntam o que procuro no livro de um autor novo é, justamente, a novidade. Repare, todas as artes trabalham com materiais. A escultura com pedra, madeira, etc.; a fotografia com papel; a música, mesmo que trabalhe apenas com coisas abstratas como os sons, materializa-se através dos instrumentos; a arquitetura, com o tijolo, a pedra, o mármore, enfim. A literatura é a única arte que conheço que trabalha com um material completamente abstrato: o alfabeto, a língua. Mas que, sendo esse material tão abstrato, é ao mesmo tempo uma coisa corriqueira. Afinal, é o mesmo que uso banalmente no meu quotidiano para pedir um café, reler os resultados das análises, ler a bula de um remédio, ir a uma loja fazer compras… É absolutamente fenomenal como ao longo de milénios de humanidade e de séculos de obra publicada, desde pelo menos Gutenberg, é possível com esse mesmo material banal de uso quotidiano fazer diferente! Portanto, aquilo que sentimos de genial num novo autor é essa diferença. Ou a combinação da linguagem que soa a uma coisa que nunca se viu, o que é dificílimo ao fim de séculos de livros. Ou uma combinação de estrutura que rasga com tudo o que já foi feito. Pode até a linguagem ser mais ou menos fria e exata, sem grandes metáforas, mas ter uma estrutura intrincadíssima que pode levar a que só consigamos perceber a história no fim. Dou sempre o exemplo d’A Mancha Humana, de Philip Roth, em que o autor nos prende metade da história na ilusão de que temos diante uma personagem branca e, a determinada altura, percebemos que essa personagem é negra e, ainda mais à frente, que é judia. O autor consegue suspender-nos naquela narrativa de uma forma absolutamente notável. Mas estamos aqui a falar mais da estrutura e menos da linguagem. Não considero os americanos propriamente muito cultores da linguagem. São sobretudo ágeis a virar do avesso as estruturas. Depois há aqueles livros que publico, não tendo nenhuma destas componentes, mas porque são altamente originais pela história que contam. Quando olhamos para os Cem Anos de Solidão [de Gabriel García Marquez], bem… Uma pessoa que consegue imaginar Macondo e todas aquelas figuras verdadeiramente delirantes… Mesmo que não tivesse nada de novo na estrutura ou na linguagem, aquilo por si só já era notável. Procuro, em síntese, essas três vertentes. Agora, uma obrigação que o autor tem para escrever bem, sem a qual é impossível vingar, é ler. Nenhum de nós tem uma voz se não tiver lido antes as outras vozes. A voz literária de qualquer autor, o seu estilo, é sempre uma espécie de filtragem de tudo o que leu…

É responsável pelo lançamento de nomes como Ana Margarida de Carvalho, Carlos Campaniço, João Tordo, José Luís Peixoto e Valter Hugo Mãe (e tantos outros). Quando hoje olha para eles, cada um já com um percurso reconhecido, tem a confirmação de que estava certa quando apostou nos seus trabalhos?

A primeira etapa ou eliminatória é passada com o apreço da crítica (e quando falo de crítica, refiro-me à academia e ao meio literário). É desde logo a constatação de que há alguém a concordar connosco. À frente, alguns dos autores a que se referiu receberam prémios importantes. Para mim, já é passar a segunda eliminatória o facto de esses escritores em que aposto ganharem prémios prestigiantes. São já outras provas de que eu estava certa. Um terceiro aspeto surge com a capacidade que eles próprios têm de se renovar nos livros seguintes. Porque há aqueles autores que são muito bons, mas são autores de um só livro. O acompanhamento da sua carreira e a confirmação de que são capazes de se renovar é a prova de que estávamos certos quando os demos a conhecer e os deixámos, no fundo, nas mãos do público.


joao tordo
jose luis peixoto
Ernest Hemingway, quando confrontado com um jovem aspirante a escritor, recomendou dois requisitos fundamentais para a profissão de escritor: a seriedade em relação à escrita e o talento. Concorda?

Concordo, completamente! O que se passa é que aquilo que antes era valorizado na edição passou hoje a ser uma indústria. Na medida em que se constatou que os livros dão dinheiro, houve não sei quantos capitalistas a interessarem-se pela edição. A edição deixou, então, de ser genuinamente a partilha de coisas que contribuem para a informação, a formação humana, o enriquecimento de conhecimentos, o tornar-nos melhores seres humanos… Deixou de ser uma coisa que era mais prestigiante e que tinha no seu centro o autor e passou a ser uma coisa cujo principal objetivo é dar dinheiro. Quando a receita passa a ser mais importante do que a qualidade do que se publica, o autor perde o papel principal para o leitor. Daí ser necessário perguntar: o que é que o leitor quer ler? Ora, isto viciou todos os elementos da engrenagem. O autor passou a ter de ser uma peça do marketing. Num país pequeno como o nosso, autores que não tenham muitas traduções lá fora, não conseguem sobreviver com o que ganham unicamente a escrever. Ou têm outras profissões e escrevem nos tempos livres. Ou, no caso de se dedicarem única e exclusivamente aos livros, por questões financeiras, vivem entre mil afazeres, em peças de teatro, artigos para os jornais… Portanto, essa seriedade de que falava Hemingway é um bocadinho abalada pela permanência na escrita de coisas que não são tão sérias e que servem apenas para ganhar dinheiro. Outra coisa que isto gera é que um autor que quer apenas ser escritor, para poder viver, pretende publicar um livro todos os anos. Parece-me que isso não é muito sério. Porque vai sacrificar a qualidade, certamente. Para além disso, compromete um tempo de espera que me parece que um livro tem de ter entre ser acabado e ser entregue numa editora. Um livro tem de descansar depois de ser terminado. Quando o autor lá voltar, vai encontrar muita coisa que não teria escrito, mas só vai dar-se conta disso aí, quando já estiver com o distanciamento necessário. Ora, é esse trabalho que eu faço! Antigamente, não havia propriamente essa função no trabalho de edição – ninguém se atrevia a alterar um texto a uma Agustina [Bessa-Luís] ou a um Vergílio [Ferreira]. Os autores davam de facto o tempo necessário, partilhando com outros escritores, amigos ou familiares. O que o editor, então, faz aqui é substituir-se a essa pessoa com bom senso e que leu muito para fazer esse trabalho ao autor. Mas seria desejável que o autor se desse a si mesmo esse tempo. A pressa de publicar será sempre inimiga da tal seriedade…

Eu sou fã incondicional do livro em papel. E está inclusive provado – há vários estudos – que lendo em papel compreende-se melhor, fixa-se melhor e localiza-se melhor.

Que autor gostaria ainda de publicar? Que perfil de escritor é que ainda não teve?

Ui, não sei! Gosto de publicar os meus autores e acho que todos os anos tenho grandes surpresas. O que gostaria é que se mantivesse o número de surpresas, que é cada vez menor. Em cem livros, há um quando muito para publicar. Gostava que a média dos livros que valem a pena subisse… Parece-me que este decréscimo de qualidade tem a ver com dois fatores. Por um lado, a democratização do ensino, que levou à mediocridade de muitos professores e alunos. Houve muitas gerações afetadas por maus programas escolares. Por outro lado, há hoje compreensivelmente – por via da democratização e globalização – a geração de leitores que não existiam antes, aqueles leitores que leem coisinhas leves e não passarão nunca daí, até porque essas coisas estão sempre a crescer. Vai-se hoje, por razões da receita, buscar a pessoa que é da televisão e que é popular e a quem se lança o desafio de escrever um “livrito”. Portanto, se a pessoa é educada literariamente com essa massa de livros que não são literatura (aliás, não são nada), dificilmente passará a um estádio seguinte. Já encontramos inclusive nas universidades pessoas a ler esse tipo de coisas. A má qualificação de alguns professores durante gerações e a incapacidade de passar da literatura muito básica para a literatura séria são impeditivos de que haja coisas melhores a sair. Depois, quando se convida uma pessoa que não é um escritor para escrever um livro, quando se publica o livro de uma vedeta (uma atriz, uma apresentadora de televisão), o que é que acontece? O público pouco informado pergunta-se: «Se esta pessoa escreve um livro, porque é que eu não o posso também fazer?». Ou seja, não percebe a questão do talento, da cultura necessária para escrever um livro… Lá fora é até muito comum os livros das vedetas serem escritos por outras pessoas. Esta figura a que, por exemplo, os espanhóis chamam negro, compactua com esta lógica que atua às tantas contra ela próprios. Nos Estados Unidos, surgem pessoas que têm algo a publicar mas que, não escrevendo por aí além, contratam alguém para o fazer e, nesse caso, aparece o nome do autor da ideia ao lado do autor do texto, com a expressão with a ligá-los na capa. Isso sim é honesto.

Concorri a um prémio com um pseudónimo e ganhei-o, entre mais de 500 pessoas. Esse júri incluía a Maria Teresa Horta, o Francisco José Viegas, o João Paulo Cotrim, enfim. Aí pensei que, se pessoas com este carisma votaram unanimemente no meu livro, poderia efetivamente publicar!

É escritora desde tenra idade e publicou aos 36 anos o seu primeiro livro: A Casa e o Cheiro dos Livros

Eu escrevo desde muito cedo e, portanto, não tinha o distanciamento adequado para perceber se aquilo tinha ou não qualidade. Escrever é uma coisa que faço desde criança, com interregnos e mudanças de agulha muito grandes. Em criança, claro, escrevia coisas do estilo «coração rima com limão». Depois, na adolescência, escrevia sobretudo sonetos e poemas de recorte clássico, a lamber feridas (todos os adolescentes se queixam muito). Passei a seguir por uma fase, no início da faculdade, mais hermética. Ou seja, encontrei uma voz diferente já bastante tarde. A verdade é que o facto de ter começado desde muito pequena, não tinha a noção de que aquilo pudesse ser partilhável. Tive de ser convencida disso…

António Osório e José Afonso Furtado tiveram aí um papel fundamental…

Sim, sim. O António Osório era Bastonário da Ordem dos Advogados e, um dia, estava eu num restaurante com o meu pai (também advogado), ele entrou e o meu pai disse-lhe imediatamente que eu gostava muito das coisas dele. Perguntou-me de imediato se eu escrevia, leu algumas das minhas coisas e, para minha surpresa, escreveu-me uma carta muito simpática, que guardo até hoje, sobre a aventura de escrever o primeiro livro. Mas, mesmo assim, não saí convencida. Como estava na edição, era-me difícil pedir a um colega que me publicasse os livros, porque nunca teria a certeza se ele o faria pela qualidade ou… por me conhecer! Mais tarde, o José Afonso Furtado, nessa altura presidente do Instituto Português do Livro e da Leitura, achou que eu tinha absolutamente que publicar. Segui, então, as sugestões dos dois, mas procurei um árbitro desconhecido. Concorri a um prémio com um pseudónimo e ganhei-o, entre mais de 500 pessoas. Esse júri incluía a Maria Teresa Horta, o Francisco José Viegas, o João Paulo Cotrim, enfim. Aí pensei que, se pessoas com este carisma votaram unanimemente no meu livro, poderia efetivamente publicar!


poesia reunida

Na sua Poesia Reunida, da Quetzal (2012), há alguns temas proeminentes, que enumero: o amor, o silêncio, a casa, o quarto, o cheiro. São estes os grandes temas da sua vida?

Acho que quase todos os escritores escrevem sobre o amor e a morte! Mesmo que não pareça. Portanto, não sou muito original. Agora, o que é que eu faço? Parto de um sentimento que é genuíno, autobiográfico e, depois, talvez porque tivesse gostado de ser ficcionista, crio narrativas ficcionais à roda do sentimento genuíno. Por exemplo, em relação a O Canto do Vento nos Ciprestes, falo de uma perda que considero irreparável para a minha vida e faço por isso um livro sobre a morte do amante. O amante não morreu, mas a perda é para mim tão extrema que procuro a perda mais horrível de todas para me inspirar. O sentimento que lá está é genuíno, mas a morte é ficcionada. O amor é efetivamente o meu grande tema e, na minha arte poética, as minhas palavras são a casa (sou uma mulher urbana, por isso tudo se passa normalmente dentro de portas), o quarto e o livro. Todas as relações fracassadas têm relação com o livro. Ainda há a esperança da volta, pelo livro. Os livros também são histórias comparáveis à nossa história. Um livro aberto em cima de uma cama é uma história que não sabemos aonde vai parar. Os livros fechados de capa para cima são histórias de amor interrompidas. Eu diria que o meu universo autobiográfico é este. E trago para a minha poesia muitas coisas da minha profissão, lá está, coisas dos livros. Aliás, ao longo da minha vida as minhas afinidades fizeram-se com coisas ligadas aos livros. Depois, o quarto tem também aqui um papel fundamental, porque é o paradigma da história de amor.

A poesia parece ser a forma de expressão em que mais se realiza. Estou certa?

Sim, pelo menos aquela em que me espanto comigo mesma. Relativamente às outras coisas, preciso muito da opinião alheia e escrevo mais como um trabalho, não dando a importância criativa ou artística que dou à poesia.


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Uma outra área literária através da qual se realiza é a literatura juvenil, que já viu adaptada à televisão. Este género é particularmente permeável à transmissão de valores humanos e culturais, certo?

Olhei sempre para a literatura juvenil como uma missão, um canal de formação e para fazer leitores. Ou seja: buscar os ingredientes necessários para trazer pessoas para os livros. O mistério, o suspense, o humor, a aventura… Tentei fazer isso para cativar o público mais jovem para a leitura. Não tive propriamente aí muitas preocupações literárias.

Vi-a (li-a) num destes sábados numa entrevista na revista do Expresso, ao lado da fadista Aldina Duarte e do produtor Pedro Gonçalves, que lançaram a três mãos o álbum Romance(s). Sobre a quota parte em que é responsável, pergunto-lhe como é que se escreve para fado?

Ouvindo! Para mim, este trabalho representa duas coisas: um regresso à adolescência (porque na adolescência eu escrevia com métrica e rima) e ao contacto com o fado (ouço fado desde miúda). Não se escreve fado, sem se ter ouvido para tal. É também preciso conhecer a pessoa para quem se está a escrever. Perceber se aquela letra cola naquela personagem, se tem a ver com a vida dela, com a sua voz… Agora, há um espartilho, é verdade! Quando nos dão a música, temos de meter os fados naquela música e sabemos se são quintilhas, se são sextilhas, enfim. Mas, geralmente, isso não acontece, porque o intérprete prefere esperar pela letra e ver onde encaixa melhor. Neste caso da Aldina Duarte, como havia uma espécie de guião, eu já tinha uma linha orientadora. E o que é que se pretende, afinal? Contar uma história que o público entenda enquanto está a ser cantada. É que o fadista, a cantar, tem uma única hipótese de se fazer entender. Depois, não posso incluir palavras complicadíssimas, tenho de por as tónicas nos sítios certos. E esse tipo de dicas aprendemos muito com quem canta. Aliás, quando faço uma letra, tenho sempre uma segunda página com alternativas e depois o fadista é que escolhe o que canta melhor. Quando andava a escrever a letra de Flagrante, para o António Zambujo, tive de substituir algures a palavra «travessa» (o adjetivo), porque o António não era de todo capaz de a pronunciar a cantar…


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Recentemente era possível ler na revista Time que houve no Reino Unido um aumento substancial da venda de livros em papel, ao contrário da venda de livros eletrónicos, que baixa todos os meses. Que comentários lhe merecem esta tendência que parece chegar a contracorrente?

Eu sou fã incondicional do livro em papel. E está inclusive provado – há vários estudos – que lendo em papel compreende-se melhor, fixa-se melhor e localiza-se melhor. Para além das questões do tato, do cheiro, da capa, que influenciam imenso o gosto pela leitura e o amor pelos livros, há uma outra que me preocupa tremendamente. Quantos empregos desapareceriam se desaparecessem os livros em papel? Não íamos ter livrarias, gráficas, tipografias, o editor, o revisor… É um mundo de profissões. Parece um aspeto demagógico, mas a verdade é que me preocupa. O desaparecimento do livro em papel faz desaparecer uma coisa que para mim é fundamental na edição: o crivo na edição. Toda a gente, hoje em dia, mete livros na Internet sem ter antes passado pelo crivo de um editor. É possível até colocar esses livros à venda onde estão outros, ditos sérios. Ora, isso incomoda-me. O facto de uma coisa ser disponibilizada ao público em geral e poder ser a mais indecente, perversa, subversiva, negativa… Portanto, uma das boas notícias sobre o aumento de livros em papel no Reino Unido foi o facto de os jovens considerarem que o que está na Internet não é suficientemente sério. Essa é a boa notícia! É perceberem que, afinal, no ecrã do seu computador, podem ver coisas que vão do melhor ao pior. Como não é possível selecionar naquela mancha enorme de coisas, sobretudo quando não se tem maturidade, o bom e desperdiçar o mau… Só quem lê muito no papel é que percebe que esta é uma boa notícia!

Ao contrário, recentemente, víamos notícias dando conta de que a maioria dos chineses já prefere os livros digitais às edições em papel… Aliás, na Biblioteca Nacional da China, uma das maiores do mundo com quase 34 milhões de livros, a leitura digital está a tornar-se mais popular e generalizada. Parece que o mundo anda a vários tempos…

O que é normal. Em países, como a China, que viveram em contenção absoluta durante séculos, engenheiros e literatos foram obrigados ao abrigo, por exemplo da Revolução Cultural Chinesa, a ir para o campo… É natural que pessoas que não tiveram acesso a coisas que nós, aqui na Europa, tivemos, de repente queiram ver e ter e experimentar… É impossível limitar o acesso aos gadgets a uma população que está sob um desenvolvimento louco. Aliás, o digital é a forma mais fácil de partilhar conteúdos (é que a China não é um país, é um continente!). Imprimir e distribuir livros entre milhões de pessoas deve ser tão complexo, que o crescimento do digital (do partilhável) é perfeitamente previsível. Ainda assim, acredito que à frente, se o país se desenvolver em cima de uma classe média em ascensão, possa haver uma elite que goste do seu livro em papel e que goste de ir à Biblioteca consultar coisas em papel…


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Fale-me agora do seu blogue Horas Extraordinárias… Como consegue uma das coisas mais difíceis de estar na Internet, que é manter, alimentar, atualizar?

É uma questão de disciplina, que às vezes falta a alguns escritores. Essa disciplina é-me muito útil, porque me faz andar atualizada nestas coisas da edição e contribui para a minha cultura geral. Contribui, ainda, por outro lado, para que não perca a mão… É que sou uma poeta bissexta (e quando se está muito tempo sem escrever, perde-se o ritmo)! É também uma questão de contacto com o público potencial dos meus autores. Um editor precisa de difundir aquilo que publica pelo maior número possível de canais. Como é que isso se faz? Com boa vontade e sentido de responsabilidade para com os seguidores. Faço muitas vezes o esforço de escrever de seguida vários posts, mesmo que isso implique comprometer o meu fim de semana, o tempo que daria a outras coisas e às pessoas de quem gosto. E já conheci tanta gente através do blogue… Só por isso vale todos os dias a pena.

Qual é o cheiro dos livros?

Nunca ninguém me tinha feito essa pergunta! Os livros cheiram todos a coisas diferentes. Mas é um cheirinho bom, exceto quando chegam da gráfica com um cheiro a cola muito característico… Eu diria que, passando uns oito dias sobre esse cheiro da gráfica, os livros têm um cheiro conhecido e acolhedor (que nos faz sentir em casa). Mas pode variar… Mais prosaicamente, um livro ilustrado cheira diferente de um livro só te texto. O tipo de papel também muda o cheiro do livro. Em termos metafóricos, eu diria que é um cheiro que sugere paixão e tranquilidade. É como uma casa conhecida, à qual voltamos sempre.

Maria do Rosário Pedreira


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