O vício dos livros, a mais recente publicação do escritor já aqui entrevistado, Afonso Cruz, vem consolidar a ideia de que a natureza da leitura não se compadece com a agregação de multidões, ainda que tenha impacto no pensamento coletivo. A leitura de um livro é uma experiência única e individual, mas carregada de memórias, de histórias, de outras vidas que, caso nelas nos consigamos rever ou mesmo que isso não aconteça, vão moldando o que somos. E o que Afonso Cruz faz, neste livro O vício dos livros, é uma recolha das próprias reflexões e curiosidades literárias, combinadas com o conhecimento consolidado de relatos históricos e histórias à volta dos livros.

Num conjunto de capítulos curtos, cirúrgicos, pontuados por ilustrações do autor multifacetado, vamos assistindo a considerações sobre livros e contextos da literatura que desassossegaram Afonso Cruz que, no tempo de adolescente, «ia para a escola a ler». Os testemunhos que vamos lendo, neste livro, ora nos apelam a uma conversa terra a terra, ora nos convocam para um pensamento mais filosófico, sobre «a possibilidade de a leitura, através da curiosidade, do entretenimento e da distração, afastar a morte». Recorre a Elias Canetti para se referir à «transformação poética» como a «única e verdadeira via de acesso a outro ser humano».

O vício dos livros, Afonso Cruz 75

O vício dos livros fala-nos, afinal, de um leitor que também é autor, ele próprio, dada a possibilidade de através da leitura reconstruir naturalmente a história que lê. Afonso Cruz avança e recorda-nos que «a solidez de uma personagem bem construída consegue arrebatar-nos, sejamos seus criadores ou seus leitores». Entre o autor e o seu leitor há, portanto, uma indiscutível simbiose. E no leitor um papel determinante para a interpretação da narrativa. «A eficiência da respiração deve-se ao facto de ser natural e de não ser preciso estar constantemente a pensar nela. O leitor lê como respira. Se pensar no mérito daquilo que faz, interrompe ou suspende a virtude do ato». Mas que o leitor viva com a consciência da radical experiência da leitura. «A leitura deve resultar numa transformação e um leitor deverá saber que aquele que abre um livro não é a mesma pessoa que o fecha».

Neste livro de Afonso Cruz somos também postos em contacto com especificidades geográficas. «É (…) na Guiné (mas não apenas na Guiné) que, em vez de nos saudarem pela manhã com um bom dia, nos perguntam como amanhecemos». «A confiança depositada nos livros e na leitura, que noutras geografias é desvalorizada como ingénua ou quixotesca, em Bagdade é uma declaração de guerra às consequências da guerra».

Na verdade, encontramos aqui reflexões nas quais nos revemos enquanto ávidos leitores. Quem não sentiu aquele apelo específico para ler aquele livro naquele dia em concreto? «Os livros são seres pacientes. Imóveis nas suas prateleiras, com uma espantosa resignação, podem esperar décadas ou séculos por um leitor». E, talvez, mais do que esperarem por nós, os livros escolhem-nos. Escolhem-nos, possivelmente, no momento em que estamos preparados para aquele livro. Ou dele precisamos.

Não nos culpemos das nossas «pilhas de livros por ler». Afonso Cruz refere-se a elas como «uma possibilidade de ser livre». Neste ponto, Afonso Cruz recupera inclusive uma passagem de Jules Renard nas suas Notas Sobre El Oficio de Escribir: «Quando penso em todos os livros que tenho para ler, tenho a certeza de ainda ser feliz».

O vício dos livros, Afonso Cruz 76

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